sábado, 30 de outubro de 2021

Eu soube, enfim, que o amor está ligado a mim;

E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.

Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,

Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.


Rumi

O que é saúde mental?


Trata-se de um conceito historicamente atrelado à medicina. Daí se prestar a um mal-entendido crônico.

É possível condensar tal fato numa negação simples: saúde mental não é a saúde do organismo humano, nem dos seus órgãos, sequer do cérebro.

Uma saúde da mente. Mas o que é a mente? Alguém já viu a mente de alguém? Como trabalhar com algo invisível?

A mente é invisível mas compreende uma realidade tão “real” quanto a dos objetos visíveis. Trata-se da realidade do desejo, dos afetos, dos sentimentos. Isso é a mente.

Ela não aparece, por exemplo, como imagem num exame de ultrassom. Inútil essa busca.

Ora, se os afetos são a mente, ela implica sempre numa relação com outras mentes e por extensão, com tudo que consiste o mundo.

O mundo consiste de mil tipos de relações: econômicas, familiares, sociais, institucionais, culturais, amorosas, religiosas, escolares, comerciais, etc.

Assim, é óbvio dizer que a mente não existe sozinha, isolada, já que  está sempre em relação com algo ou alguém.

Temos, então, uma ideia calcada na vida concreta para pensar o conceito de “saúde mental”.

Saúde mental é um bem estar expresso na relação da mente com o mundo. Daí o mundo passa a estar incluido nos métodos (tratamentos) para se obter a saúde mental. 

Em outras palavras, o objeto do tratamento em saúde mental não é o cérebro do paciente (como dizem os neuromaníacos), mas o mundo onde ele está e se relaciona. Sociólogos e assistentes sociais vêem isso de cara. 

Atenção: em saúde mental é mais adequado (e útil) falar em “cuidado” ao invés de “tratamento.”

Esse modo de ver as coisas traz mudanças importantes na equipe técnica de um caps.O modo de acolher o paciente, o olhar agudo e crítico sobre as suas relações com o mundo e, por fim, mas não menos importante, os seus afetos.

O acolhimento diz respeito ao diagnóstico psicopatológico e às condições que o caps oferece como lugar do cuidado. A pergunta-chave: é possível ajudar esse paciente?

O olhar “agudo e crítico” refere-se à percepção da realidade em torno e no que ela dificulta (ou facilita) o cuidado. O exemplo da família é o mais imediato e simples.

Quanto aos afetos, começa com a pesquisa sobre o que o moveu a buscar ajuda, incluindo os (muitos) que não querem ajuda e são trazidos por terceiros.


A.M.


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Who Used to Dance

 Furtivo


Passeando num jardim inexistente
Encontrarás uma mulher ausente ...

Segue-a. Fala-lhe. Espera que ela te olhe,
Beija-lhe a mão antes que se desfolhe,

Depois, no ouvido, dize-lhe o que sentes,
Expressa-lhe, em palavras balbuciantes,

Com voz arfante e comoção sincera
A paixão que te faz tremer os dentes ...´


Dante Milano

domingo, 24 de outubro de 2021

O GOSTO DA LUTA

A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de se estar satisfeito nada tem da fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.


Aldous Huxley

ATEÍSMO CRISTÃO

O teísmo cristão (Deus único), é mantido, sem que se perceba, graças e um ateismo implícito dos seus fiéis. Tal fato, no mínimo desconcertante para o senso comum, transmuta-se em ressentimento exalado contra os céticos, os ímpios, os ateus, os agnósticos, os "sem-deus",e outros personagens com epítetos menos votados.Trata-se de um ateismo embutido em forças inconscientes, e por isso, poderoso.É, pois, absolutamente necessário aos militantes da fé, evitar tomar consciência da sua "pouca fé" e para isso ter êxito, acusar o incrédulo como encarnação do Mal e/ou diabolização da existência. O catolicismo ilustra bem tal estado de coisas. É que o cristianismo, como modo de subjetivação secular, matriz de inúmeras religiões, espalha sua miséria psíquica por milhões de almas afundadas na culpa. A vida, como diz Nietzsche, passa então a ser julgada. Não por acaso, o Capitalismo Mundial Integrado (cf. F. Guattari) se serve dessa verdade monstruosa para codificar o desejo como racionalidade do Estado, do eu, do indivíduo, da família, da escola, instituições assassinas do desejo, entre outras, circulando pelos quatro cantos da Terra.


A.M.

EXCERTO DE ENTREVISTA - M. FOUCAULT - 15 de maio de 1966

-Isso não impede que essa nova forma de pensamento (*), com números ou não, se apresente fria e bastante abstrata...

M.F. - Abstrata? Responderei então: o humanismo é que é abstrato! Todos esses gritos do coração, todas essas reivindicações da pessoa humana, da existência, são abstratas, quer dizer, separadas do mundo científico e técnico, que, sim, é o nosso mundo real. O que me irrita no humanismo é que ele é doravante esse guarda-vento através do qual se refugia o pensamento mais reacionário, onde se formam alianças monstruosas e impensáveis: pretender-se aliar Sartre e Teilhard, por exemplo. Em nome de que? Do homem! Quem ousaria dizer mal do homem!  (...) (...) Não se deve confundir a tepidez mole dos compromissos com a frieza que caracteriza as verdadeiras paixões. Os escritores que nos agradam mais, a nós, "frios" sistemáticos, são Sade e Nietzsche, que, com efeito, diziam "mal do homem". Não eram eles também os escritores mais apaixonados?


(*) Refere-se ao estruturalismo.


 

UM DEUS INUMANO

Numa visão espinosista, crer no Deus cristão é reproduzir a relação dirigente-dirigido,  governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, etc.  Assim,  o pensamento se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos. Ou seja, segundo um olhar cristão, trata-se de uma relação entre pessoas. Deus é uma pessoa.No entanto,basta considerar a existência do infinito tempo-espaço para jogar por terra essa bobagem humanística. Não há dimensão existencial, espiritual, que compare em grandeza a finitude humana com a infinitude da natureza. Nesse assunto, a atitude mais honesta e inteligente é a do agnóstico, do materialista, do ateu ou do trágico. Pena que tal "bobagem humanística" convença a  tanta gente e produza subjetividades atoladas no medo, na desesperança e na servidão voluntária. É o triunfo do capital e das suas metástases fascistas.


A.M.

OS FUNCIONÁRIOS DA VERDADE


Eles estão em toda a parte. Talvez sejam a maioria. 

São funcionários porque funcionam, operam, agem. Sustentam o mundo estabelecido dos humanos.

Iremos citar alguns exemplos como tentativa de caracterização objetiva e subjetiva. São linhas existenciais que os constituem e se misturam. Por isso um lusco-fusco na expressão prática se impõe como camuflagem de crenças. 

Os funcionários administram o acaso para que seja possível a manutenção da ordem. E apelam para a verdade como referência única.

Essa verdade pode ser várias,  mil, cem mil. Permanece, contudo, sendo uma verdade.Os funcionários precisam de certezas, assim como os pulmões de ar.

Encontramos na grande política funcionários vitalícios. Tanto os que dominam quanto os que são dominados. Há quem chame estes últimos de massa.

Começamos pela política porque aí a história da humanidade é a de um pesadelo do qual não se acorda.Mas poderia ser outro começo.

Por exemplo, a religião: nela os funcionários (ou fiéis) costumam ser ungidos acima dos mortais, na medida em que cultuam a imortalidade.

Mas há muito mais, já que a verdade ajuda (e muito) a viver.

A universidade, e sua forma que vem da Idade Média, usa dos seus para promover a verdade do pensamento. A sociedade fica abaixo no quesito intelectual.

A verdade da academia exporta seus seguidores para a ciência. Ou o inverso, tanto faz. 

Para complicar a questão da verdade, o capital e o seu método, o capitalismo, fabrica uma verdade única, a mercadoria. Esta se expande e se disfarça nos poros abertos do corpo social. Uma longa história atualiza a barbárie planetária do horror econômico. Ou seria político?

A pessoa humana (conceito cristão) naturaliza o funcionamento da verdade como crença no eu, na consciência e no céu como eterna promessa. O futuro não chega.

As massas consomem  e gozam palavras-de-ordem veiculadas pela mídia.

Fake news são verdades, mesmo não sendo. 

Em casos extremos, funcionários da verdade tornam-se fascistas. Querem tampar o buraco de sentido das sociedades de controle. Uma crispação paranóide se anuncia como crise política.

No amor, o romantismo traz o tom adocicado da verdade para os amantes da fantasia. Isso não funciona mais, exceto como arcaísmo.


A.M.













  



sábado, 23 de outubro de 2021

Ana Cañas - Como Nossos Pais

DEVIR-ALUNO

1-A máquina binária -  Antes da pessoa do professor e do aluno existe a máquina binária do ensino obrigatório que estabelece as condições organizacionais para  aprender e ensinar. Diz-se o que é aprender e o que é ensinar, e esse enunciado implícito é aceito como um fato natural. A boa vontade de um professor em ser um bom mestre (=passar os conteúdos), bem como a disposição do aluno em aprender(=acumular os conteúdos), não significa que o pensamento esteja presente. Não significa também que haja criação ou produção de conhecimento, mesmo que o ensino esteja acoplado a alguma pesquisa. Há outras variáveis em jogo.  Tais variáveis  vêm da instituição educacional e superpõem-se  sobre o ensino, sobre o ato de ensinar, como se ensinar e educar fossem a mesma coisa. Educar remete à Educação, à forma-Educação, poderosa instituição milenar que se reproduz  em práticas escolares; este é  o seu ponto de aplicação talvez mais efetivo,  a  superfície de inscrição do desejo de saber, aí onde a materialidade da aula  encontra  uma  expressão acabada e direta. Ou seja: o professor é quem ensina porque sabe; o aluno é quem aprende porque não sabe.

É a máquina binária professor-aluno   funcionando em toda a parte onde existe escola. Não  se trata, pois, de considerar as pessoas, boas intenções  etc,  ao jeito humanista de ver as coisas.  A máquina produz as pessoas, ou melhor, as pessoas   são peças que se ligam umas às outras para a produção de subjetividades em série, prontas para o Mercado. Isto não significa que, em termos da experiência do professor e da experiência do aluno, haja uma passividade em relação ao que acontece em torno. Pelo contrário, a pessoa, tendo  um  universo de  representações e  imagens ao seu dispor, mormente quando estimulada  pela atividade intelectual, acredita estar agindo, quando é agida. Acredita estar controlando, quando é controlada. Acredita estar mandando quando é mandada. Tudo ocorre num campo invisível, onde só as forças tem acesso e funcionam em regimes subjetivos ou de subjetivações. A pessoa é o indivíduo e este é o sujeito, num encadeamento natural  para que  o ato de ensinar/aprender  se faça sem problemas. Esta  máquina está ligada a outras máquinas, isto é,  a instituições:  são formas sociais, cristalizações de processos, outrora, talvez, de criação. A escola, a educação, o eu, a avaliação, a aula,  a divisão público/privado, entre outras, são formas sociais que, como trilhos dispostos sobre o caos, orientam o rumo do ensino e do aprendizado  para  um objetivo maior, transcendente, e por isso, intocável: o acúmulo de conhecimento.

Um desejo de ensinar e um desejo de aprender se conjugam para estabelecer a superfície do Encontro professor-aluno. Como dissemos , a superfície é uma máquina, na medida em que antes das pessoas, estão as instituições.  Elas se imiscuem numa produção incessante de consumo. Consumir o ser. Ser alguma coisa para o mercado. Esta é a regra que vem de fora mas que está dentro da máquina. É o seu próprio combustível. Pelo menos, em tempos de hoje, o Mercado é a lei das visibilidades expostas na vitrine das técnicas: quem serei amanhã? como sobreviverei? A visão do mestre como sacerdote, e da educação como o lugar da salvação, foi  devorada  pelo  Mercado onipresente. Daí,  falar da máquina binária requer falar  da máquina ternária, onde se insinuam relações de troca e mais profundamente relações de poder. Um lugar espera o professor com o script marcado, tanto mais, ou quanto mais ele inove ou queira inovar métodos e técnicas em sala de aula. A sala de aula é  o rosto do mercado travestido em rigor pedagógico; este disfarça o rigor mortis do desejo.  Nestas condições, ser professor é seguir a pedagogia da falta, para a qual falta  conhecimento ao aluno, falta responsabilidade ao aluno, falta compromisso ao aluno, sendo  necessário   preeenchê-lo,   enchê-lo. De idéias, conceitos, opiniões. E o pensamento?

2-A natureza do pensamento – O positivismo organicista encarregou-se de situar o pensamento como uma espécie de secreção cerebral, para  a qual acorrem  os médicos e  fac-símiles, na ânsia  de totalizar o organismo humano.  Mas  o pensamento não é totalizável, ele, o  que circula em outros corpos além do humano, inscrevendo-se  em linhas irredutíveis a formas estáveis  ou árvores bem desenhadas. Aprendemos com Deleuze-Guattari que o pensamento  “não é arborescente e o cérebro não é uma matéria enraizada nem ramificada (...) (...) muitas pessoas tem uma árvore plantada na cabeça, mas o próprio cérebro é muito mais uma erva do que uma árvore”    . Sendo assim,  o pensamento segue caminhos ou linhas  indeterminados por um centro organizador que seria o eu, por exemplo. Ele vai além do que se compreende  como pessoa individual. Um dueto interpessoal conta com multi-determinações do pensar que vêm de todos os lados para  inscrições na superfície  onde a fala se dá.  O pensamento como “pensar”  é  o  acontecimento. Antecedendo a linguagem, e mais, dando-lhe condições operacionais para existir e funcionar, o acontecimento inscreve-se nos corpos e ao mesmo tempo deles se destaca como a expressão. A fala do mestre e a fala do aluno são assim superfícies onde se fabrica o sentido.

Pensar,  só aí, nesta linha sem retorno  rumo a terras desconhecidas. Antes que isso pareça uma metáfora, dizemos que o Encontro professor-aluno, máquina binária a serviço do Mesmo, traveste-se  de um sentido multiplicado e multiplicante dos signos enviados de parte à parte. Trata-se de enviar signos que substituam a pessoa de um ou  de outro.  Pensar é operar as linhas que saem das conexões entre os signos. A natureza do pensamento é a anti-natureza,  a ausência de natureza e no seu lugar o artifício. Que o pensamento seja (ou fosse) uma secreção do cérebro, não excluiria a  linha infinitiva cortando e sendo cortada por outras linhas, multiplicidades que nos chegam de  súbito, aos milhares e de vez.  São  velocidades que produzem tonturas à lucidez mais centrada. A questão passa a ser a do caos e de como  lidar com ele; não negá-lo, pois ele insiste, nem se deixar engolfar numa espécie de buraco negro ou campo  inconsistente, onde as palavras  se partem em segmentos incompreensíveis ao  senso comum. “O que define o pensamento, as três grandes formas do pensamento, a arte, a ciência e a filosofia, é sempre enfrentar o caos, traçar um plano, esboçar um plano sobre o caos”    . Mas  é preciso não confundir pensamento com conhecimento. Este  corresponde ao acúmulo de informações que a memória propicia, e vai  servir de reservatório de conceitos estáticos à espera de que sejam acionados quando do trabalho intelectual. A atividade cognitiva ganha a sua pertinência e o seu valor na medida em que está conectada às linhas institucionais que sustentam o funcionamento da organização escolar e dos seus dispositivos.  Deste modo, o “ser” inteligente não existe enquanto essência, ou substância, mas nem por isso deixa de ser palpável e intrínseco ao sucesso profissional, por exemplo. Tudo isso substitui o pensamento e ao mesmo tempo faz-se  passar por ele, numa operação urdida na produção de subjetividades individualizadas no papel de aluno, no papel de professor.  Pensar, pois, não é para qualquer um. Não que este um esteja acima dos  mortais, mas porque esse um está à margem, sempre à margem das formas subjetivas, fazendo-se e refazendo-se como produção. Isso dá trabalho. Sim, porque o ato de pensar implica num movimento de subjetivação sobre si,  espécie de dobra e redobra do eu a partir e com os signos que  chegam.   Falamos, pois,  sobre o pensamento como ato e como física.  Uma abstração concretizada, velocidades  infinitas freadas na organização de saberes inseridos em práticas. É o  contrário do pensamento regido pela forma-Academia, ou pela forma-Estado, quando e onde estes acabam por se aliar na ação de bombardear cidades e aldeias. A chamada relação pedagógica, ou o próprio ensino, é um lugar por excelência onde se propagam estas formas como verdades dadas. Não há, pois, uma natureza do pensamento que não esteja  funcionando em algum dispositivo, em alguma prática, e portanto, não há pensamento que não se agencie como desejo de fazer, de viver, de sobreviver, mesmo que se destrua, se mate  e se explore. O desejo  é a superfície onde algo acontece, mesmo não acontecendo. Este é o processo.

3- A dobra subjetiva – A experiência de  ensinar é antes a experiência de aprender com os signos. Antecedendo à  partição significante-significado, o signo procede a uma  violência constitutiva dessa experiência. Forçar a pensar, como diz Deleuze, é criar um campo tanto mais rico na emissão de signos. A função de professor dobra-se e desdobra-se na sua presença-ausência, descolando-se dos conteúdos e fazendo destes o móvel das práticas do pensar. A subjetivação deixa de ser centrada numa pessoa, seja a do professor, seja a do aluno, e constitui-se como ato de pensar por fragmentos do real.  Um pensar estilhaçado, atravessando campos do saber,  tal como um pássaro  bicando aqui e acolá os materiais necessários à produção de conceitos. Ou  de afetos e funções, se pensarmos como um artista ou como um cientista, respectivamente   . Isso conflui numa subjetividade  contra-subjetiva, ou seja, exposta para fora de si, não totalizada, não totalizável e inscrita na superfície dos corpos humanos e inumanos. Trata-se de singularizações móveis do processo do desejo. O muro é a linguagem douta, técnica, rochedo invisível mas  doloroso às invenções não cadastradas do pensar. O caráter redutor, reducionista e por vezes fascista da linguagem leva-nos à dimensão do conhecimento imaculado. Como diz Nietzsche, “em algum canto longínquo do universo difundido no brilho de  inumeráveis  sistemas solares, houve certa vez uma estrela na qual animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o minuto mais arrogante e mais ilusório da “história universal”, mas não foi mais que um minuto. Com apenas alguns suspiros da natureza a estrela se congela, os animais inteligentes logo morrem”   . Esta fábula  traz para a experiência do aprendizado as velocidades infinitas do caos-cosmos. Daí, como trabalhar o discurso com um contra-discurso ou sem o discurso ou para além do discurso?  Como ultrapassar o discurso normalizante e moralizador da pedagogia vigente e embutida  nas práticas de ensino? Como  seguir o rumo  de  territórios invisíveis, mesmo à mão, e de paisagens vertiginosas,  mesmo à luz da razão?   Como fabricar universos de sentido sem cair numa  indiferenciação  subjetiva estéril, também chamada   “porra-louquice”?  Ora, o aprendizado é, antes, a produção (não o produto) do Encontro. Afetar e ser afetado, nos termos de Spinoza, é a densidade própria à dobra subjetiva referida acima, e que situamos como sendo a multiplicidade. O aluno é esta multiplicidade que vaza  e se expande para fora do papel-aluno disposto na série escolar . Obter uma boa nota nos exames, passar de ano ou de semestre, ser aprovado etc, são componentes do papel. Contudo, a depender  do uso feito na produção do Encontro, tornam-se uma caução para o conhecimento bem comportado e estável.  O que chamamos  de “devir-aluno” é  pois  o processo do Encontro mestre-aluno  na dimensão impessoal das multiplicidades. O mestre torna-se outra coisa que não ele. O aluno torna-se outra coisa que não ele.  As linhas do aprendizado passam pelo vôo da bruxa  até onde (?) ela irá. São abertas conexões ilimitadas  às sensibilidades em curso. É criado um campo de intensificaçào da  experiência do Encontro entre multiplicidades. Na prática, isso quer dizer: não faça como eu;  faça comigo  até experimentar em você  o gosto pela novidade e pelo risco de pensar com os próprios neurônios, mesmo que estas células recolham de longe o que as faz mover, respirar, funcionar.

4-O que é o Novo? – As multiplicidades constituem a própria realidade do Encontro. É delas, com seus materiais (signos) que saem os processos de singularização, linhas de aprendizado. São vivências que extrapolam o ser-subjetivo. Não há, pois, um recipiente pronto a recolher os conteúdos, ao modo da educação bancária, tão criticada por Paulo Freire. Mas também não existe uma consciência intencional que se dirige ao objeto e a ele se liga numa manobra do ser-no-mundo. Ao contrário, são as multiplicidades que precedem o sujeito-aluno. Mais: são elas que o produzem  através de  linhas invisíveis, abstratas, mas não menos atuais. Falamos de um campo virtual de problematização do ensino. Vamos para além do dualismo milenar professor-aluno  na busca das práticas de vida.  Trata-se da imanência das questões, ou, o que quer dizer o mesmo, das verdadeiras questões do ensino e por conseguinte, do aprendizado. O que   é aprender? Para que aprender? Como aprender? Com que  práticas sociais  esse aprendizado irá se conectar? Conexões a serviço de que ou de quem? Saímos do âmbito da escola e seu contexto funéreo, vamos ao mundo em  suas indeterminações radicais. É claro que a escola está no mundo, mas aqui no referimos ao mundo caotizado  das  velocidades infinitas das determinações institucionais, formas sociais gestadas a partir de matérias sem  forma, puras moléculas em trânsito. Extraimos do dispositivo-aula devires que o ultrapassam. A sala de aula não está mais contida no enquadre escolar e não mais recria a cena gasta do professor falando a seus discípulos. Ela se abre ao encontro do Novo, mesmo que este já esteja aí, no interior do seu funcionamento mais minucioso e nem por isso, menos captável.

Se considerarmos o ensino mais  técnico e objetivo (fazer algo, digamos, auscultar um tórax) o devir-aluno estará presente como aquilo que se desfaz sempre para se fazer logo em seguida. Professor, comece a mesma aula do semestre passado como se fosse a primeira vez. O frescor do saber que sai pela fala do mestre traz o sabor do Novo. Tornar  interessante o que se ensina começa a partir de  tudo o que é velho. Repetir ,balbuciar e gaguejar a língua, não a fala, para enunciar algo diferente, será possível?  “Sim, uma linguagem afetiva, intensiva, e não mais uma afecção daquele que fala”   . Para tocar as  multiplicidades   dispostas num campo de ensino, é preciso que a fala do mestre entre em contato com o limite da língua, daí, com o seu “fora” e o seu silêncio. O Novo não é dado, ele é produção de linhas curvas e incertas. Que se considere  o devir-aluno como uma  irrupção demoníaca  na própria configuração do Encontro. Estamos, pois, muito distantes da máquina binária referida  e muito perto das forças do inconsciente institucional circulando entre as cabeças, entre os papéis e nas relações de poder.    Como vimos, o pensamento  é uma linha estendida entre a arte, a ciência e a filosofia, sendo nesta última  o acontecimento “pensar” aquilo  que   alarga e faz alargar as dimensões múltiplas do processo de aprendizado.  A sala de aula é o mundo  com seus aparelhos, com seus dispositivos de domesticação de almas.  Mas o devir-aluno é  mais que o aluno como pessoa; ele  segue os fluxos do aprender antes do ensinar. Não aprender as certezas e as opiniões  prontas do homem médio, mas sim algo que muda imperceptível e veloz como o próprio tempo. Captar este “imperceptível” do tempo é tornar-se o tempo irreversível  dos atos de ensino que são ao mesmo tempo atos de aprendizado.  Rigorosamente, não o Novo como um objeto ou objetivo a ser alcançado, e sim como a própria materialidade do espírito, a consistência da passagem, da “duração”, do tempo que não se vê, mas que se sente.  Tornar-se aluno e mestre de si mesmo requer a multiplicação dos eus, o esquecimento da história pessoal, e como  diz ainda Castañeda,  a parada do diálogo interno. Toda uma bruxaria santa, todo um  ritmo da natureza encravado nas falas mais artificiais e incômodas. É um estilo isso de ser não sendo,  esse nomadismo no mesmo espaço e ao mesmo tempo já em Júpiter ou Urano,  velocidades  aceleradas  para os seres lentos que somos.  O pensamento voa. Um exemplo de aula: enquanto aqui eu falo da esquizofrenia-doença, aí em vocês  e sobre vocês o pensamento percorre continentes, cidades, países, amores, e a aura do invisível cobre esse itinerário tão secreto quanto estranho. Esquizofrenizar o pensamento, ele  já  esquizofrênico por si mesmo, desde que não há nascedouro, só um meio onde tudo começa e  flui, é  aprender a pensar .  Tudo já estava lá, ou aí, ou aqui, e é mudando a natureza das multiplicidades ( o Novo, enfim) que o aprendizado dos signos se faz. 


A.M


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

O ÓBVIO

Ainda nos primeiros meses de seu governo, Jair Bolsonaro se levantou em um jantar oferecido em Washington e fez um discurso de improviso. Mas apenas a fala era intempestiva. O plano havia sido cuidadosamente planejado. O presidente, numa explosão de sinceridade, avisaria aos presentes: vamos ter de destruir o que existe.

E assim foi feito, em praticamente todas as áreas da administração pública. O desmonte ocorreu na Funai, no Ibama, nos conselhos sociais, nos canais de participação da sociedade, nos programas de combate à fome, na diplomacia, na educação, na economia, na cultura, na ciência, pesquisas e tantos outros setores.

Não foi incompetência, como alguns mais apressados poderiam anunciar. Foi um plano, com metodologia, estratégia e objetivos. O problema: enquanto a destruição foi realizada com a meta de colocar no lugar uma nova ideologia, sob o controle de um determinado grupo, quem pagou caro foi a sociedade.

O Brasil mostrou ao mundo que nenhum avanço social, democrático ou econômico tem um percurso inevitável. Em quase três anos, a "eficiência" na destruição fez a fome voltar, a pobreza explodir, os ganhos sociais serem desfeitos e a economia desabar. A mentira matou e a credibilidade do país no exterior foi sepultada. Mas os ricos ficaram mais ricos.

Num encontro informal nesta sexta-feira com banqueiros em Genebra e investidores internacionais, até mesmo aqueles que fizeram apostas em Bolsonaro - sob o guarda-chuva de uma promessa de um ultraliberalismo cego - falavam abertamente: ninguém arrisca mais dizer o que ocorrerá com o Brasil.

Caminhando para o fim de um terceiro ano de uma administração que entrará para a história como a mais perversa da era democrática do país, chegou o momento de o óbvio ser dito com todas as palavras: o projeto de destruição prometido ocorre a olhos nus, com um êxito espantoso. O resultado: uma sociedade desgovernada e exausta.

Sim, existe um plano de poder, organizado para manter privilégios de alguns poucos, com os aplausos de donos de contas em paraísos fiscais e dos jogadores do cassino chamado Brasil.

Para quem não está nesse grupo, porém, cabe a luta por um horizonte cada vez mais turvo, mais distante e mais traiçoeiro.

Enquanto isso, na base de um país cujas elites nunca aceitaram o conceito de comunidade de destino, um exército de famintos disputa sua dignidade com ratos sem escrúpulos. Inclusive na Esplanada.


Jamil Chade, UOl, 22/10/2021, 17:13 hs