terça-feira, 9 de novembro de 2021

CASA VAZIA


Poema nenhum, nunca mais,

será um acontecimento:

escrevemos cada vez mais

para um mundo cada vez menos,


para esse público dos ermos

composto apenas de nós mesmos,


uns joões batistas a pregar

para as dobras de suas túnicas

seu deserto particular,


ou cães latindo, noite e dia,

dentro de uma casa vazia


Alberto da Cunha Lima

domingo, 7 de novembro de 2021

O que é delírio?

Delírio é um dos principais sintomas em psicopatologia clínica. Numa visão biomédica, deve ser  eliminado,  como, por exemplo, se faz com uma dor de cabeça.

Ou ainda, segundo essa visão, remete a uma causa, a qual sendo eliminada, cessa o efeito (sintoma). Relação linear causa-efeito. A face tosca da "inteligência psiquiátrica."

Tanto num caso como noutro, a compreensão "do que é delírio" está falseada. Não conduz ao essencial que é cuidar do paciente. Leva apenas ao controle e à violência maquiada.

Mas, afinal, o que é isso, o delírio?

Delírio é uma vivência em que o juízo da realidade (de si e do mundo) está alterado. Mais profundamente significa dizer que uma outra realidade foi inventada. Trata-se de uma crença.

O que está em jogo então é a verdade. Pergunta-se: isso é verdade?

A questão da verdade abrange todos nós.A verdade vem de fora. Desde muito cedo nossos pais  enfiam verdades em nossas mentes. Acreditamos, claro, sem questionar. E mais: a crença (qualquer uma) vem sempre acompanhada de um afeto. A crença na família, na escola, na pátria, em Deus, etc...

Delirar talvez seja acreditar no que ninguém ou poucos acreditam. A arte, a filosofia e a ciência fazem isso.

E por que surge o caráter patológico, ou seja, aquilo que conduz à busca de uma ajuda clínica? Lembremos que nem sempre o delirante quer ajuda. Isso é fácil de verificar.

De todo modo, o delírio em saúde mental remete a várias causas e formas clínicas. Os quadros mais graves são os que o paciente nem mais delira já que é o próprio delírio. São as psicoses por vezes chamadas de esquizofrenias.

A rigor, qualquer patologia mental pode apresentar delírio. Ou mesmo qualquer vivência mental não patológica ( desilusão amorosa, a morte de alguém querido, um trauma existencial) pode  gerar um delirio.

O capítulo sobre delírio em psicopatologia é muito extenso. Convém destacar aqui o aspecto vivencial que o aproxima do normal ou do patológico.

Neste sentido o delírio do paciente pode estar próximo ao "delirio" do técnico que o acompanha. Esse fato nem sempre ocorre, claro, mas serve como linha comum do Encontro com a loucura, conforme exposto em texto anterior.

Concluindo, o delírio está em toda a parte onde há alguma crença. E sempre há. Ele compõe a realidade do mundo (veja a política...) e nem por isso  risperidona e haldol lhes são prescritos. Só para delirantes cadastrados.

A.M.



quando eu tiver setenta anos

então vai acabar esta minha adolescência


vou largar da vida louca

e terminar minha livre docência


vou fazer o que meu pai quer

começar a vida com passo perfeito


vou fazer o que minha mãe deseja

aproveitar as oportunidades

de virar um pilar da sociedade

e terminar meu curso de direito


então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência


Paulo Leminski

sábado, 6 de novembro de 2021

ALEXIS SLUSAR


 

O que é técnico em saúde mental?


Não existe uma Faculdade do “técnico em saúde mental”. É que não há  identidade profissional... Como reconhecê-lo?

A formação do técnico em saúde mental se dá no Encontro com o paciente. Não no encontro com a pessoa do paciente, mas no encontro com a loucura do paciente. Isso faz toda a diferença.

Mais: no encontro com a loucura dele mesmo, o técnico.

Se há um Encontro, pois, é com a loucura. 

É bom lembrar que “loucura” não é um conceito psiquiátrico. A psiquiatria (historicamente) humilhou e escorraçou a loucura.

Tentemos situar (apesar das dificuldades) esse conceito.

Loucura é uma realidade sem nome, dissolução do nome, frase desconexa, sem sentido, afeto estranho, conduta rota, mundo fora dos eixos.

Isso e muito mais, é loucura.

Curioso como a palavra pode ter significados opostos: 1- “Você não foi à festa. Perdeu. Foi uma loucura”. 2-  “Meu amigo, não faça isso. É loucura.” No primeiro caso, “alegria, prazer”. No segundo,  “ algo ruim, talvez suicídio.”

Entre os opostos, o nosso eguinho oscila como um pêndulo. Quem, pelo menos no pensamento e/ou no sonho, não experimentou loucuras?

O técnico em saúde mental só aprende a trabalhar lidando com isso (em si e nos outros), que no fundo é o mesmo: loucura do mundo. 

Qualquer um pode entrar nessa “vibração louca sem estar louco”. É  condição ética para escutar e cuidar do paciente. E nem é preciso que seja um técnico de nível superior. Às vezes é até melhor que não. Nesse campo de ação prática tão escorregadio, só sensibilidades finas interessam. 


A.M.


MORO: ANTES DA FAMA

PSIQUIATRIA: SAIR DE SI MESMA

Para ser possível pensar ( e não refletir sobre...) a Saúde Mental, é necessário fugir da psiquiatria como "concepção de mundo". Tal manobra conceitual só se torna possível abrindo-a aos fluxos de saber que estão fora, que são o fora, e com ela compõem agenciamentos produtivos de desejo. Desejo é produção. Tal é o caso da arte. Não como arte mercantil, monumental ou contemplativa, mas como expressão subjetiva de modos de viver. Mas não só a arte. Outros saberes, mil saberes circulam livres "à espera"de encontros com a clínica que travou a psiquiatria num nó neurobiológico e capitalistico. Seus compromissos políticos (às vezes implícitos e inconfessáveis) com agências de poder (Estado, Escola, Direito, Família, Polícia, Mídia, Mercado, etc), fazem dos possíveis encontros desencontros, ou simplesmente maus encontros. Sob tais condições, fazer uma psiquiatria da Diferença e não da Semelhança, e não da Academia, e não dos Remédios químicos, e não do Eu, e não da Verdade científica, implica em práticas isoladas e heteróclitas. Talvez sob camuflagem.


A.M.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Will Calhoun w/Marc Cary & Charnett Moffett - Afro Blue

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,


Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.


Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: "Fui eu ?"

Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa

terça-feira, 2 de novembro de 2021

HENRY ASENCIO


 

O que é escuta em saúde mental?


Escutar em saúde mental não é ouvir. Apenas.

O técnico em saúde mental tem orelhas enormes movidas a uma percepção delicada. 

Ele anda à espreita de novidades.

Contudo, em face da herança psiquiátrica, é muito difícil escutar. A psiquiatria não escuta. Mesmo que haja (raros) psiquiatras que escutem, isto se dá apesar da psiquiatria e não por causa da psiquiatria. Nesse mister ela é um horror.

Escutar passa essencialmente pelos afetos. A psiquiatria não  dispõe de uma teoria dos afetos. Como então estabelecer um vínculo com o “seu” paciente? Restou vampirizar sinapses cansadas.

Afetos do paciente, afetos do técnico. Bons e maus. Construtivos e destrutivos. Esse é o jogo. 

Convém ao técnico em saúde mental não buscar ser juiz, policial ou professor. E saber que não julga, não pune nem salva.  Só facilita as coisas do viver.

A escuta é um conceito-chave em saúde mental.  Traz a pergunta: diante da loucura, o que é que eu faço?

A não-escuta reflete o mundo atual. Ninguém escuta ninguém.

Assim, como acolher se não escuto? Como tratar se não escuto? Como cuidar se não escuto?

Expor-se às mil formas de ser/agir no mundo é a escuta em saúde mental. Não é fácil. 


A.M.


Caetano Veloso - Sem Samba Não Dá

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

O que é transtorno mental?

O termo “transtorno” foi introduzido em 1992 na Classificação Internacional de Doenças (CID-10). O objetivo, segundo os autores da OMS,  era o de retirar o estigma de “doença mental” do capítulo F, referente à psiquiatria.

Assim, “transtorno” vem da psiquiatria, e é nesse contexto que pode ser avaliado.

A CID-10 é um sistema classificatório de “todas” as doenças, o qual, por padronizar a nomenclatura e os dados relacionados à semiologia clínica, facilita a interação entre os profissionais de saúde de todo o mundo. 

Na prática clínica em saúde mental, a CID-10 é instituída como referência obrigatória, até porque consta no preenchimento de documentos importantes para o paciente.

No entanto, já que a “mente” é invisível pois é composta por afetos em relação com outros afetos, o uso do termo (ou diagnóstico) “transtorno mental” tem limitações importantes nas ações de cuidado.

Tal sistema de diagnósticos psiquiátricos com respaldo jurídico e internacional, é de auxílio no exame de situações não terapêuticas como incapacidade laboral, incapacidade de gerir os atos da vida civil, imputabilidade criminal, entre outras.

Contudo, além da insuficiência prático-técnica do termo, ele pode produzir estigmas morais ou auto-estigmas depreciativos, acusatórios e irreversíveis (caso do  paciente crônico).

Vale, então, dizer transtorno mental? A pergunta só se coloca e se sustenta num quadro psicopatológico estabelecido de antemão na CID-10. Aqui o paciente é marcado como “essência” individual, mesmo que isso não conste no catálogo, já que está oculto nas entrelinhas do texto.

Numa clínica da diferença, o transtorno é dito ( “ele é bipolar”) numa visão funcional. Ou seja, qual a função do termo “transtorno” no quadro, por exemplo, de uma psicose grave? Trata-se de controlar/dominar ou cuidar/tratar? Uma posição ética define tudo. A ética precede a técnica.

A.M