domingo, 12 de dezembro de 2021

LINHAS DE COMBATE

Há um combate silencioso no âmago da clínica da diferença. Ele segue por sendas obscuras que mapeiam singularidades não ditas, ou se ditas, apenas como semióticas (regimes de signos) secretas, talvez clandestinas. Não se trata de extrair ou identificar conteúdos latentes ao jeito da psicanálise, mas de criar condições práticas para que formas expressivas façam valer potências subjetivas sequer sonhadas. Deste modo, a profusão de signos enviados (de toda ordem) faz por "forçar" as singularidades a um rearranjo no universo subjetivo. A prudência, a delicadeza e a sabedoria ancoram-se na relação terapêutica como devir-outro, ou seja, como exposição ao contágio dos afetos enquanto forças movimentando a irreversibilidade do tempo que não se vê, mas que se sente. Enfim, trabalhar a diferença é de fato um combate porque implica no uso de mil linhas rizomáticas sob a égide da ética (que potências?) e da estética ( que criações?) se cruzando e se aliando no momento do uso da técnica. Que vem depois.


A.M.

ATAQUE DOS CÃES, 2021

sábado, 11 de dezembro de 2021

quando faltou luz

ficou aquele breu e eu

com as mãos tremendo

morta de medo

de tudo se iluminar

de repente



Alice Sant ´Anna

O que é delírio?

Delírio é um dos principais sintomas em psicopatologia clínica. Numa visão biomédica, deve ser  eliminado,  como, por exemplo, se faz com uma dor de cabeça.

Ou ainda, segundo essa visão, remete a uma causa, a qual sendo eliminada, cessa o efeito (sintoma). Relação linear causa-efeito. A face tosca da "inteligência psiquiátrica."

Tanto num caso como noutro, a compreensão "do que é delírio" está falseada. Não conduz ao essencial que é cuidar do paciente. Leva apenas ao controle e à violência maquiada.

Mas, afinal, o que é isso, o delírio?

Delírio é uma vivência em que o juízo da realidade (de si e do mundo) está alterado. Mais profundamente significa dizer que uma outra realidade foi inventada. Trata-se de uma crença.

O que está em jogo então é a verdade. Pergunta-se: isso é verdade?

A questão da verdade abrange todos nós.A verdade vem de fora. Desde muito cedo nossos pais  enfiam verdades em nossas mentes. Acreditamos, claro, sem questionar. E mais: a crença (qualquer uma) vem sempre acompanhada de um afeto. A crença na família, na escola, na pátria, em Deus, etc...

Delirar talvez seja acreditar no que ninguém ou poucos acreditam. A arte, a filosofia e a ciência fazem isso.

E por que surge o caráter patológico, ou seja, aquilo que conduz à busca de uma ajuda clínica? Lembremos que nem sempre o delirante quer ajuda. Isso é fácil de verificar.

De todo modo, o delírio em saúde mental remete a várias causas e formas clínicas. Os quadros mais graves são os que o paciente nem mais delira já que é o próprio delírio. São as psicoses por vezes chamadas de esquizofrenias.

A rigor, qualquer patologia mental pode apresentar delírio. Ou mesmo qualquer vivência mental não patológica ( desilusão amorosa, a morte de alguém querido, um trauma existencial) pode  gerar um delirio.

O capítulo sobre delírio em psicopatologia é muito extenso. Convém destacar aqui o aspecto vivencial que o aproxima do normal ou do patológico.

Neste sentido o delírio do paciente pode estar próximo ao "delirio" do técnico que o acompanha. Esse fato nem sempre ocorre, claro, mas serve como linha comum do Encontro com a loucura, conforme exposto em texto anterior.

Concluindo, o delírio está em toda a parte onde há alguma crença. E sempre há. Ele compõe a realidade do mundo (veja a política...) e nem por isso  risperidona e haldol lhes são prescritos. Só para delirantes cadastrados.


A.M

sábado, 4 de dezembro de 2021

 LUIZ  INÁCIO e a confissão do século.

O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: - Senhoras e senhores, eu sou um canalha.


Nelson Rodrigues


 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

OUTROS ENCONTROS

O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da Consciência, a qual sempre obedece ordens, ele, ao contrário, não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. São estes que impulsionam a vida, que são a vida : potência sem forma. Em face desse estado (real) das coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? Na clinica psicopatológica é possível constatar: há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos, como por exemplo em cefaléias crônicas, mas também na multiplicidade de sintomas que englobamos sob o nome de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de roubar deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo. Apesar de estar sempre ao alcance da mão, não é fácil encontrá-lo.


A.M.

Covid: 4 perguntas ainda sem resposta sobre impacto da ômicron

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.


Woody Allen

domingo, 21 de novembro de 2021

A  LINHA DO  INFINITO

Há um limite a partir do qual a diferença não se reconhece e não mais reconhece o mundo. Um horror tão extremo e definitivo se instala: ela, a diferença, torna-se pequena e frágil. Tudo o indica. Fala-se da história da humanidade: uma brochada cósmica. A diferença não mais reconhece aí a palavra "vida" por entre escombros da própria vida. Resta o império do medo. Internético, ele assombra o dia que nasce. Assombra todas as revoluções. Nivela os afetos. Aniquila a política. Uma melancolia compõe a paisagem dos monstros da História. E os adorna. E os adora. Seguidores idiotizados nutrem-se da morte camuflada. Anunciam o fim, apocalipse moderno. No entanto, algo resiste... a diferença...

A.M.

GRANDEZA DE MARX


 

Salmo Perdido


Creio num deus moderno,

Um deus sem piedade,

Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.


Deus dos que matam, não dos que morrem,

Dos vitoriosos, não dos vencidos.

Deus da glória profana e dos falsos profetas.


O mundo não é mais a paisagem antiga,

A paisagem sagrada.


Cidades vertiginosas, edifícios a pique,

Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.

Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,

As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,

Deus não nos reconhece mais.


Dante Milano