quinta-feira, 28 de julho de 2022

O  QUE EXISTE

Não existe A depressão. Existem as depressões. Isso faz toda a diferença na hora de diagnosticar uma depressão, pois ela é composta por linhas singulares (e múltiplas) do desejo. Vindo da psiquiatria hegemônica, o achatamento existencial  produzido sobre os pacientes faz por tornar a depressão uma doença das sinapses enguiçadas. Com todo o respeito às sinapses, elas só funcionam graças ao que chega de fora, ou seja, do  mundo. No entanto,  ainda não dissemos nada sobre o assassinato de almas cometido em nome da ciência... 

A.M.

A IMPESSOALIDADE DO POETA

Não é que o poeta pense incessantemente em todas as coisas do mundo, elas é que pensam nele. Estão nele, dominam-no. Mesmo suas horas áridas, suas depressões, suas confusões, são estados impessoais, correspondem aos sobressaltos do sismógrafo, e um olhar que seja suficientemente profundo poderá ler nele segredos ainda mais misteriosos do que nas próprias poesias.


Hugo von Hofmasnnsthal - in O Poeta e Este Tempo

Marne van Opstal - Netherlands Dance Theatre 1

 Faltam  67  dias

segunda-feira, 25 de julho de 2022

 CHEIROS


Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar” a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer — e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão. Melhor, claro, em certo sentido que signifíca também o pior: as mais nobres paixões são também as mais cadelas, como aquelas que enlouqueceram Adele H., levaram Oscar Wilde para a prisão ou fizeram a divina Vera Fischer ser queimada feito Joana d’Arc por não ser uma funcionária pública exemplar. 

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E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também. 

Caio Fernando Abreu

PHILIP GLASS - Move to Dungkar

Pelo Telefone


Você me liga querendo saber

o que estou fazendo neste exato minuto.

Ando meio agitado.

Neste exato minuto estou consertando a janela

que ficou torta desde a morte de Amélia.

Estou no terceiro Cutty Sark

e devendo um monte de grana.

Pior que a janela continua torta

e Amélia continua morta.

Meu amigo foi demitido anteontem

por um babaca que era oposição

mas hoje não é mais não.

Agora mesmo aquela mesma ideia

volta a sacudir minha cabeça

e não consegue transformar-se em nada.

Uma idéia não quer dizer nada.

Sou um projeto muito arriscado.

Acho que vou desligar.

A respeito do velho mestre

a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.

Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.

Vou desligar.

A melhor coisa é o intervalo preciso

entre as emoções mais fortes.

Só duas ou três, como nos bons filmes.

Neste momento

procuro encontrar no escuro

o outro par do meu olhar perdido.

Neste exato minuto

estou comendo o fio do telefone.


Eudoro Augusto

🔴 QUAL GOLPE?

INCONSCIENTE-PRODUÇÃO

Não negamos que haja uma sexualidade edipiana, uma heterossexualidade e uma homossexualidade edipianas, uma castração edipiana - objetos completos, imagens globais e egos específicos. Negamos que sejam produções do inconsciente. Mais ainda, a castração e a edipianização engendram uma ilusão fundamental que nos faz crer que a produção desejante real é passível das mais altas formações que a integram, submetem-na a leis transcendentes e fazem-na servir a uma espécie de 'descolamento' do campo social em relação á produção do desejo, em nome de que todas as resignações são justificadas por antecipação.

G. Deleuze e F. Guattari  in O anti-édipo

domingo, 24 de julho de 2022

ALEXANDER BOLOTOV

 


meu avô não gostava de agosto

dizia agosto mês de desgosto

quando passava dizia agora não morro mais


Angélica Freitas

NOITE VAZIA, de Walter Hugo Kouri, 1964 (filme completo)

TEMPO E CLÍNICA

Em psicopatologia clínica, considerar a relação tempo-subjetividade é essencial. Ela deriva de concepções do tempo implícitas. O tempo é uma categoria teórica que pode ser vista de múltiplas formas. Escolhemos duas por serem referências de destaque:1-como elemento vivencial da chama temporalidade, ao modo da fenomenologia; 2- como conteúdo do processo desejante (devir) segundo a visão de H. Bergson. O que distingue as duas concepções? A fenomenologia, considerando a linha passado-presente-futuro, aloca a subjetividade na consciência-do-tempo, ou seja, no espaço da representação. Isso torna a riqueza da vivência submetida ao "peso" de uma identidade a ser buscada na ordem do eu. O tempo=do-eu é um tempo endurecido no presente que não passa. Isso ocorre, por exemplo, na vivência melancólica. O paciente é espremido no hoje.  O passado o acusa, enquanto o futuro o ameaça. Quanto ao tempo do devir, trata-se de outra coisa. Há só o Instante fugidio que é cortado sem cessar em passado/futuro num processo irreversível. Uma vertigem. A consciência, enquanto intencionalidade, é posta como efeito dos devires que lhe atravessam e a constituem. Ela não é lugar de uma verdade a ser descoberta, ou de uma luz, nem mesmo numa origem dos afetos.  Estes é que circulam livres em arranjos que se compõem como seta para o futuro, o tempo como criação, invenção de mundos. Pode-se assim dizer que o trabalho do tempo, numa inspiração bergsoniana, vai na trilha de uma subjetividade-em-processo. Não há uma forma subjetiva estabelecida de antemão, mas a se produzir no fluxo e na superfície dos encontros.


A.M.

sábado, 23 de julho de 2022

Calvin Harris, Dua Lipa - One Kiss (Lyrics)

 IMPRESSOS INÚTEIS


Não sei por que os guardo

nessa gaveta íntima.

O certificado de reservista.

O diploma de pós-graduação.

O mapa esperto pra uma festa chata

que rolou uns três meses atrás.

Felizmente não compareci.


Eudoro Augusto