quinta-feira, 11 de agosto de 2022

RECEITA


Ingredientes:


2 conflitos de gerações

4 esperanças perdidas

3 litros de sangue fervido

5 sonhos eróticos

2 canções dos beatles


Modo de preparar


dissolva os sonhos eróticos

nos dois litros de sangue fervido

e deixe gelar seu coração


leve a mistura ao fogo

adicionando dois conflitos de gerações

às esperanças perdidas


corte tudo em pedacinhos

e repita com as canções dos beatles

o mesmo processo usado com os sonhos

eróticos mas desta vez deixe ferver um

pouco mais e mexa até dissolver


parte do sangue pode ser substituído

por suco de groselha

mas os resultados não serão os mesmos

sirva o poema simples ou com ilusões



Nicolas Behr

CONSIGNADO - A CRUELDADE LEGAL


 

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

RELIGIÕES OCULTAS


A propósito de uma análise político-institucional do fenômeno religioso, trabalhamos com a forma-religião ao invés da religião como organização sociocultural, ou mesmo como um sistema de crenças para além da vida, o dito reino do sagrado. Nada nos interessa, pois, além da FORMA social da religião que se espraia por toda a parte, por mil credos, até os inconfessáveis, ocupando lugares considerados não religiosos, mas que na prática atuam como sendo. Exemplos simples e evidentes são a forma-ciência e a forma-capital, duas religiões profanas, mas não menos incisivas em ações de mando e comando sobre os humanos, erigindo seus deuses, suas transcendências e controles sociais na produção de subjetividades imbecilizadas e imbecilizantes.


A.M

Joao Donato, Bud Shank & Ed Motta - Black Orchid

terça-feira, 9 de agosto de 2022

CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - IV


Como F. Guattari previu, vivemos tempos esquizofrênicos. Isso faz retirar do conceito de Capitalismo Mundial Integrado (Guattari, 1982) elementos teóricos contingentes e necessários a uma análise institucional. A produção social (econômica) estendeu-se à produção subjetiva (semiótica) como matéria prima, ou, como diz Foucault,  biopoder. A vida passa a ser produzida, e com ela, tudo que parece imitá-la. Antigos códigos sociais (por ex., na Idade Média, o código teológico) cedem lugar à auto-dissolução numa espécie de esquizofrenização generalizada do corpo social (socius). Não há mais eu, mesmo que pareça. Há, sim, um eu voltado às logísticas de manutenção do cotidiano. É possível olhar em torno: o cenário de dissolução do Sentido é devastador. Indagações da alma ("estarei vivo?") atracam-se no território do corpo-imagem. Assim, pensar para além da simples cognição da realidade só se torna possível mediante a representação dessa realidade e não com e através dela. A realidade "real", o corpo das intensidade mundanas, cede a sua vez, seu número e seu lugar à teatralidade de um mundo em decomposição. Notícias de toda a parte chegam instantâneas. Registram as  linhas subjetivas do consumidor (orgulhoso) de ordens implícitas. Sem saber, é o desejo encalacrado nas dobras da alma: o capital.


A.M

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Linhas singulares da existência

A materialidade subjetiva do individuo compreende elementos visíveis e invisíveis; ela sempre acontece no plural. São muitas linhas singulares funcionando num   movimento  incessante. O organismo visível fornece o lastro concreto para uma subjetividade. Contudo, ele é composto por partes infinitamente divisíveis as quais chamamos corpo.O organismo  não é  o corpo. Este ultrapassa  os  limites  do  organismo  de  onde a medicina extrai a sua  mais-valia  de prestígio. As  linhas singulares  inscrevem-se  num  corpo não  imediatamente  visível nem tampouco separado do meio (social) por uma linha de  fronteira bem demarcada. Elas são antes de tudo micro-potências que impulsionam o funcionamento motor, cognitivo, intelectual, existencial, enfim, tudo que  signifique produção incessante de  vida. O paciente é composto  por  elas e são elas  que se expressam como  devires. Um sintoma é uma  linha singular , já que, apesar de  ser  signo de uma doença cadastrada  na CID-10, ao mesmo  tempo é  expresso como território  existencial.”Eu sou  meu  delírio”, “Eu sou  minha  tontura”, etc. 

A.M.

ELES VÃO PEGAR SEU AUXÍLIO

Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim.


Walt Whitman

Saying goodbye to NDT 1 dancers after season 2021-2022

 FALTAM  58  DIAS

O que é uma organização?


É um conjunto de pessoas (ou indivíduos) com  objetivos comuns. Isso os une. A organização é um grupo ampliado. Nos seus objetivos está contida a natureza do trabalho. Na execução do trabalho  funcionam os afetos. Estes são o que move a produção.

Toda organização é composta por grupos e subgrupos que se expressam de modo aparente ou inaparente. 

Consideremos uma organização (ou serviço) em saúde, educação, comércio, indústria, etc. Os grupos que lhe constituem são por sua vez linhas institucionais. Algumas delas: divisão de trabalho, hierarquia, formação e função técnica, salário, gênero, papel social. A lista é extensa e infinda.

O essencial a reter é o seguinte: para além da organização visível, há níveis de funcionamento do serviço que não são captados a “olho nu”. São os grupos, as instituições e os afetos. Este último é o combustível que faz andar (ou desandar ) a organização.

Afetos remetem a pessoas. Entre elas, ou seja, na relação umas com as outras, é onde se dá a prática diária da natureza do trabalho para obtenção dos objetivos propostos.

Entre os afetos passam correntes (fluxos) de produção ou antiprodução dos resultados propostos. Os bancos (capital financeiro) costumam isso chamar de metas.

Há três correntes possíveis de afetos: 1- atração; 2-repusão; 3-indiferença. São correntes moldadas pela função técnica. Ou seja, as relações são técnicas. Nesse nível alguém é atraído (gosto de trabalhar com você), sente repulsa (não gosto de trabalhar com você) ou é indiferente (para mim tanto faz).

Uma configuração que não costuma aparecer em reuniões, discussões, conversas, problemas do dia a dia do serviço.

É que a realidade institucional é muito mais complexa. Dois elementos a fazem mutável, plástica e por vezes enigmática. O primeiro diz respeito à mutualidade dos afetos. Uma atração pode não corresponder a outra atração e sim a um rechaço. Ou o inverso. O segundo é o tempo: tal configuração pode mudar: a atração pode se tornar indiferença ou rechaço.

O conjunto das correntes afetivas não se mostra, não se explicita porque a sua fonte geradora é o inconsciente institucional. Não ao estilo freudiano como “a outra cena” mas como a cena real do cotidiano do serviço, onde e quando os afetos são a própria consistência de se estar trabalhando.  O prazer, a alegria ou a tristeza e a irritação, entre tantos outros afetos “empurram” a produção tanto para alcançar os objetivos do trabalho como ao inverso, ou seja, rumo ao declínio e a destruição.  

A.M.