terça-feira, 23 de agosto de 2022

A IMAGEM SOBERANA

Impossível negar: a nível planetário, uma tecnologia da imagem veio para ficar. Ela compõe talvez a face mais concreta das "conquistas"da modernidade. Tudo é imagem. Um universo imagético tornou-se a própria subjetividade. Não a entidade-do-eu, não a consciência, não a  racionalidade, mas o processo da subjetivação veloz e incessante que nos afeta e nos constitui. O real é a cada dia mais artificial. A sensação subjetiva ("eu existo, eu penso") e a correlata certeza de quem sou, são hoje sustentadas pela realidade da imagem, pela verdade da imagem, pela concretude da abstração, enfim. Tal verdade, sem que eu perceba, passa a ser a minha verdade, mesmo a mais íntima. Devastação do pensamento e até do inconsciente representativo (freudiano). Caminhamos para o fim da divisão mundo interno-mundo externo.Nesse ponto, a referência à esquizofrenia é inevitável: há um estilhaçamento da subjetividade na esteira de uma profunda erosão do sentido. Aniquilamento da linguagem verbal, dissolução de crenças e valores, convite ao fascismo (via apologia dos arcaísmos) e demonização da mídia (via a ideação paranóica) mesmo nas ditas esquerdas. Em que ou em quem acreditar? Um gigantesco buraco ontológico compõe o reino encantado das imagens verídicas: telefone fixo, internet, rede social, celular, zap, televisão, cinema, vídeo, videogame, fotografia, etc, tanto faz. Imagens, imagens, tão só imagens devoram tudo, arrastam tudo,  designam tudo, significam tudo, inclusive eu aqui escrevendo e você lendo o artigo agora. No entanto, tal estado de coisas não é um mal em si. Pois, se somos dominados "por dentro" no mais fundo da interioridade psíquica, algo se anuncia naquilo que Nietzsche chama "a transvaloração dos valores". A alma em revolta pela criação de uma nova terra.


A.M.

New York Jazz • Jazz Saxophone Instrumental Music • Jazz Standards

domingo, 21 de agosto de 2022

 O HOMEM E A SUA PAISAGEM

 

Toda paisagem tem um ar de sonho.

Vejo o tempo parado, inutilmente.

Tudo é menos real do que suponho.


Interrompi teu sonho, natureza.

Diante de um ser humano, de repente

Apareces tomada de surpresa.


No espaço que me cerca estou suspenso.

Em redor um olhar pasmado e mudo

E no ar a ameaça do silêncio denso.


Em todo sonho existe um extasiado

Olhar adormecido que vê tudo...

Senhor, eu sou o objeto contemplado


Dante Milano

Guilherme Amado: “Se Bolsonaro perder no 1º turno não terá força nem par...

SER  DELEUZIANO É  NÃO  SER DELEUZIANO.

NÃO  HÁ  PONTO  DE  ANCORAGEM  DE IDEIAS E PRÁTICAS.

TUDO É DEVIR E CAOS.


A.M.

TSE e os fantasmas da política passada | Ponto de Partida

  • A história da mulher é a história da pior tirania que o mundo conheceu: a tirania do mais fraco sobre o mais forte.

  • Oscar Wilde


 

COMO  RECONHECER  O  FASCISMO?

Há 100 anos (Itália, 1922)  nascia o fascismo de Mussolini.Ao seguir na história, esse movimento político inspirou outros regimes (Alemanha, Portugal, Espanha, etc) tornando-se referência até para a dita esquerda. No entanto, à medida em que a sociedade industrial avança , e com ela a tecnologia da imagem, o fascismo se fez diferenciar do totalitarismo. Para obter a dominação e o controle de milhões, formas sociais (instituições) passaram a utilizar métodos com micro-efeitos nas populações, no que Félix Guattari chama de microfascismo. Sem esse nível de “persuasão mental” o controle dos corpos e mentes se revelaria ineficaz. O fascismo tornou-se microfascismo. Dominar de modo explícito cedeu lugar ao controle sobre sujeitos sem que estes saibam que estão sendo controlados e mais, gostem de ser controlados. Óbvio que dominar “por dentro” sempre existiu, ainda que pelo terror induzido na mente dos supliciados. Mas falamos de outra coisa. 100 anos de fascismo foram suficientes para a produção em série (escala planetária) de pessoas humanas que adotam e adoram o capital com ponto hegemônico de subjetivação e desejam isso não só para si mas para todos, ou seja, para o restante da população mundial. Um processo “natural” é induzido por agências de controle, mormente os Estados nacionais e o grande sistema financeiro e internético com suas mídias afiadas como serviços num plantão ad aeternum. É difícil identificá-lo no coração das pessoas de bem. Se este sentimento de “viva a morte” se instaura e age à revelia do seu portador, a impossibilidade de auto-crítica surge como pressuposto subjetivo. “Que eu morra, mas que permaneçam os valores em que acredito”. Tal é o refrão macabro (inconsciente) do cidadão comum para, por exemplo, apoiar o atual governo federal brasileiro. Uma linha suicidária passa a ser o dado natural da vida. Morrer pela pátria equivale a morrer pela família, pela escola, pela religião, pela medicina,  por todas as formas sociais, enfim, de transcendências ( o além da vida).  Isso credita e legitima a existência da sociedade regida pelo capital,  não só como categoria de lucro econômico, mas como  fábrica de imagens para um gozo paranóico. O fascista é um paranóico. Tal sentimento se interiorizou a um ponto tal que parece ter deixado de existir existindo mais do que nunca: teorias da conspiração tamponam o buraco do sentido. Estaremos num universo linguístico de redundâncias e paradoxos? Na linha de montagem da subjetividade capitalística, parece, então, irreal e fantasioso o parto de um outro mundo no interior deste. Pensar se tornou obsceno.


A.M.,  21/08/2022

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

José Simão: “Tchuchuca é só para os íntimos de Bolsonaro, qualquer um não”

QUAL ENCONTRO?

A instituição psiquiátrica chama o seu paciente de “portador de transtorno mental”. Nem sempre explícito, tal enunciado compõe o sistema de grades dos diagnósticos, a CID-10.A expressão “mental” é usada de modo naturalizado, ou seja, todo mundo sabe o que é “mental”. A metonímia“ele é um mental” revela o estigma.Contudo, no Encontro com a loucura, acontece outra coisa: a mente desaparece como substância, ou como algo palpável, visível. Dilui-se num vazio sem forma.

Encontrar o paciente seria então  possível?

Sim, na medida em que o técnico adentre ao Acaso, ao Indeterminado e ao Desconhecido.Esta é a condição. Como, então, fazer a clínica? A experiência da prática mostra que ela só existe como abertura ao mundo. Por outro lado, a ética – essência da clínica -sustenta-se na alegria. É a força maior.“O regime da alegria é o do tudo ou nada: não  há senão alegria total ou nula”(*).

A.M.

(*) Clement Rosset in Lógica do pior

Banda Rock Beats - Medley Colombina, Fora da Lei & Ai ai ai (Acústico)

  1. A FORMA-ESTADO

  2.  Já não se trata das poderosas organizações extrínsecas, nem dos bandos estranhos: o Estado  torna-se o único princípio que faz a partilha entre sujeitos rebeldes, remetidos ao estado de natureza, e sujeitos dóceis, remetendo por si mesmos à forma do Estado. Se para o pensamento é interessante apóiar-se no Estado, não é menos interessante para o Estado dilatar-se no pensamento, e dele receber a sanção de forma única, universal. A particularidade dos Estados é só um fato; do mesmo modo, sua perversidade eventual, ou sua imperfeição, pois, de direito, o Estado moderno vai definir-se como "a organização racional e razoável de uma comunidade": a única particularidade da comunidade é interior ou moral (espírito de um povo), ao mesmo tempo em que sua organização a faz contribuir para a harmonia de um universal (espírito absoluto). O Estado proporciona ao pensamento uma forma de interioridade, mas o pensamento proporciona a essa interioridade uma forma de universalidade: "a finalidade da organização mundial é a satisfação dos indivíduos racionais no interior de Estados particulares livres". É uma curiosa troca que se produz entre o Estado e a razão, mas essa troca é igualmente uma proposição analítica, visto que a razão realizada se confunde com o Estado de direito, assim como o Estado de fato é o devir da razão. Na filosofia dita moderna e no Estado dito moderno ou racional, tudo gira em torno do legislador e do sujeito. É preciso que o Estado realize a distinção entre o legislador e o sujeito em condições formais tais que o pensamento, de seu lado, possa pensar sua identidade. Obedece sempre, pois quanto mais obedeceres, mais serás senhor, visto que só obedecerás à razão pura, isto é, a ti mesmo... Desde que a filosofia se atribuiu ao papel de fundamento, não parou de bendizer os poderes estabelecidos, e decalcar sua doutrina das faculdades dos órgãos de poder do Estado. O senso comum, a unidade de todas as faculdades como centro do Cogito, é o consenso de Estado levado ao absoluto.

  3. Gilles Deleuze e Félix Guattari in Mil platôs, vol.5