domingo, 18 de setembro de 2022

confissão


eu teria sido puta

na maior boa vontade

faltaram-me os atributos

e também alguma audácia


(sempre achei as putas lindas

mas só faço amor de graça)



Líria Porto

Como identificar o fascismo? parte 3

Na experiência fascista está embutida a questão da verdade. Sob condições sócio-históricas e politicas muito amplas isso conduz o destino de milhões: o Estado, a Nação, o Povo, o Poder, várias transcendências... A clínica psicopatológica (oficial) diz: o fascismo não parece um delírio. Não parece, mas é um delírio que organiza o próprio juízo (não perdê-lo jamais) e ajuda o seu portador a produzir sentidos para a realidade atual do mundo. O fascista,  servo e devoto de formações sociais cristalizadas, é vizinho do paranóico, habitando o universo clínico da psiquiatria, mas sem ser notado. Funções cognitivas estão intactas. Ao exame de sanidade mental, doença zero. Então, identificá-lo passa por categorias psiquiátricas, mas necessita ir além, até onde as linhas desejantes confluam numa Verdade  absoluta. Rompe-se a fronteira com a forma-Religião, e os afetos fixam uma vibração egóica. Esta se reconhece como identidade poderosa e qualifica o fascista como portador de salvação política. Nas dobras da alma e na superfície da prática social, a tal identidade torna-se a verdade de cada um, ou seja, do indivíduo, ainda que o mais frágil. Pseudo-poder, universo privado, mundinho do eu. Assim se fecha o circuito da verdade, de uma verdade fabricada como território de sentido: isso é a vida, dir-se-ia... Caso ela desmorone, vem à tona a face suicidária do sentimento fascista, como Hitler o mostrou.


 A.M.

Humanidade


Humanidade posta perante gargantas de fogo,

Rufar de tambores, semblantes escuros dos guerreiros,

Passos através de um nevoeiro de sangue. Ressoa o ferro negro.

Desespero. Noite em cérebros tristes:

Aqui as sombras de Eva, a caça e o dinheiro encarnado.

Nuvens que a luz trespassa, a ceia.

Um silêncio suave habita o pão e o vinho

E aqueles ali reuniram-se. Doze em número.

À noite, gritam a dormir debaixo dos ramos da oliveira.

São Tomé mergulha a mão nas feridas.


 Georg Trakl



Menschheit


Menschheit vor Feuerschlünden aufgestellt,

Ein Trommelwirbel, dunkler Krieger Stirnen,

Schritte durch Blutnebel; schwarzes Eisen schellt,

Verzweiflung, Nacht in traurigen Gehirnen:

Hier Evas Schatten, Jagd und rotes Geld.

Gewölk, das Licht durchbricht, das Abendmahl.

Es wohnt in Brot und Wein ein sanftes Schweigen

Und jene sind versammelt zwölf an Zahl.

Nachts schreien im Schlaf sie unter Ölbaumzweigen;

Sankt Thomas taucht die Hand ins Wundenmal.


Georg Trakl

sábado, 17 de setembro de 2022

"Hino" ao Inominável

CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - II

Ao longo da discussão sobre a "tecnologia da imagem" e seus atravessamentos corporais, chegamos à análise da demanda em saúde mental. O corpo (não o corpo-organismo, mas o corpo-desejo) é atingido em cheio por imagens-de-imagens, imagens-clichês, fazendo da experiência de si uma experiência plugada aos fluxos semióticos vindos "de fora"mas que parecem vir de dentro". É que a forma das instituições sociais (cf Guattari e outros demonstraram) está interiorizada, subjetivizada num inconsciente que não mais passa por categorias edipianas. Importante registrar que tal tecnologia da imagem não é um mal em si, mas o território de sentido de uma verdade subjetiva. Esta se compõe de mensagens veiculada por equipamentos de poder. O homem moderno encarna, assim, um tipo de sonambulismo coletivo que a todos arrasta. A incrível aceleração da velocidade do tempo aniquila o Sentido. Efeitos práticos: na clínica, a psicose. Na política, o fascismo.

 

A.M. 

Amor Voraz, Walter Hugo Khouri - 1984

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Eu soube, enfim, que o amor está ligado a mim;

E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.

Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,

Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.


Rumi

 FALTAM 16 DIAS

FASCISMO À BRASILEIRA  

Sob uma ótica conservacionista ( e liberal) são demasiado simplórias as análises sobre o fascismo. Elas se sustentam na moral, em grande parte na moral cristã. Diz-se: coisa horrenda o grito de “viva a morte!”,  expelido da boca de cidadãos de bem, homens íntegros, pessoas humanas. Pensar assim é não pensar, é tão só “por a mão na consciência”, velho conceito teórico com usos  epistemológicos, filosóficos, psicológicos, psiquiátricos, políticos, entre outros, para interpretar a realidade. 

Ao se evadir de tal  grade moralista, é possível usar o desejo como conceito operacional. Ele está fora da órbita do eu.  O fascismo, então, será visto como construção desejante que nutre formas sociais  numa empreitada destrutiva. Isso move as superfícies de um mundo deísta.  Uma  máquina afetiva (a história o mostra) se interiorizou subjetivamente nos indivíduos (aos milhões) produzindo  sentidos para a vida. “Morrer pela pátria e viver sem razão”. Ora, não há o desejo puro  e sim um  composto de linhas subjetivas (forças) em prol da hegemonia institucional da servidão moderna.  O discurso final seria: “eu sinto, eu ajo, ...e aniquilo o que se move porque é sujo.” Ódio ao devir. 

Neste nó de desejos múltiplos, não há lugar para uma política dos corpos. O fascismo faz estancar o tempo. Rechaça as minorias porque o Novo assombra. Fiel à tradição da consciência ( a alma ), o corpo é considerado o  organismo que deseja a si mesmo como modo de existir único e total. Assim, a fratura exposta do nazifascismo (como no Brasil de hoje) é denegada em favor do si mesmo, do eu-e-eu, apêndice existencial familiar e utilitário. O rosto mortuário das classes médias se anuncia e se revela a nu. Que o mundo vá mal desde desde que eu me salve.  O sentimento fascista opera uma revolução às avessas. Um ar rarefeito de oxigênio racional infecciona os tempos midiáticos. Este é o limite político a ser ultrapassado nos ares do outubro vindouro.


A.M.  


sábado, 10 de setembro de 2022

PRAIA DA COSTA


 

COMO SER DE ESQUERDA (NO BRASIL) 

Não considerar a esquerda uma entidade, uma empresa, uma organização, um partido.

Nem mesmo um governo.

Percorrer a história do Brasil para destruir a "elite do atraso". Vomitar o tempo.

Descer aos porões do pariarcalismo: cultivar um estado permanente de horror e revolta.

Verificar os índices atuais de pobreza, miséria e fome. Sair das estatísticas do banco central. Entrar no inferno.

Amar as mulheres, não pelo que são, mas pelo que querem. 

Sentir as minorias (negros, indígenas, operários, crianças, gays, e tanto mais) como potências silenciadas.

Diferenciar justiça e ética. A escravatura foi legal. Espíritos sensíveis não escapam da vergonha...

Relativizar a ciência. Afinal, sem ela, não haveria Hiroshima ou os cálculos da Economia.

Como se cuidasse de si, trabalhar com  loucos,  autistas, artistas, deprimidos e suicidas.

Cultivar o Encontro, a espontaneidade e o ato criador. 

Esquecer Marx. Lembrar e usar seu texto de alma revolucionária. Cultivar a alegria simples e ingênua.

Ser psicodramático em pleno fascismo.


A.M.

Não me Venham com Metafísicas


o corpo e a matéria em prosa

aqui e agora

nada de primeiros motores

nada de supremos valores

isso fica para os filhos da pátria

nem francisco de assis nem santa teresinha

amai-vos uns sobre os outros

nada de temores e tremores

nem de noite escura da alma

a prosa é preferível

"sei de um estilo penetrante

como a ponta de um estilete". flaubert

é só isso


Sebastião Uchoa

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

 

LINHAS DO  INFINITO

Há um limite a partir do qual a diferença não se reconhece e não mais reconhece o mundo. Um horror tão extremo e definitivo se instala: ela, a diferença, torna-se pequena e frágil. Tudo o indica. Fala-se da história da humanidade: uma brochada cósmica. A diferença não mais reconhece aí a palavra "vida" por entre escombros da própria vida. Resta o império do medo reinando entre pessoas do mal que se acham do bem. Um dualismo pérfido. Portador de uma verdade, o monstro (sem forma) do Ressentimento assombra e contamina  o dia que nasce. Aborta as micro-revoluções internas dos sonhos azuis de uma criança. Nivela os afetos. Aniquila a política, escorraça a ética e enfeia a estética. Resta a melancolia ( como um drone) sobrevoar a paisagem de pessoas monstruosas ou de monstros pessoais. E os adornar. E os adorar. Idiotizados, o Império fascista os nutre com a carne fria da morte em vida. Mercadoria da alma. Tudo é disfarce. Anunciaram em rede nacional o apocalipse moderno. Mas algo resiste como a diferença...Algo resiste.


A.M.