Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quarta-feira, 23 de novembro de 2022
CAPS II – LIÇÕES DA CLÍNICA
O Caps II de Vitória da Conquista completa hoje 20 anos de existência. Ao longo de 12 anos de trabalho neste serviço, foram mil aprendizados.
Destaques:
-A psiquiatria pertence à Saúde Mental e não o contrário.
-Esse dado tem consequências importantes na organização do serviço e na produção da clínica.
-A clínica (psicopatológica) implica no cuidado. Precede o diagnóstico e o tratamento, sendo regida por uma ética.
-Trata-se da ética do Cuidado. Suas bases são a inserção social e a autonomia existencial do chamado portador de transtorno da mente.
-O modelo biomédico acasalado à herança manicomial deve ser substituído por técnicas de libertação das subjetividades.
-Um funcionamento da equipe técnica sem hegemonia psiquiátrica sustenta as práticas de construção de uma clínica em movimento.
A.M.
segunda-feira, 21 de novembro de 2022
domingo, 20 de novembro de 2022
PARA ALÉM DA ELEIÇÃO
O fascismo no Brasil pode ser visto como linha subjetiva presente em milhões de pessoas. No fim das contas, é o microfascismo que importa. Explícito ou camuflado, é um "afeto mortuário" que corresponde a mais ou menos 30% do eleitorado brasileiro (atuais pesquisas). Pode aumentar. Segmentos sociais progressistas subestimam o horror em marcha. As teses fascistas (por ex. a paranóia anti-comunista) são ridicularizadas. Mas funcionam sim, operam e possuem uma densidade existencial "sedutora" .Isso dá sustentação ao eu e às suas ações predatórias. Assim, o momento político é bem mais que o de uma eleição. O fascismo, mesmo derrotado (se for) retornará como um vampiro faminto.
A.M.
( escrito em 03 de agosto de 2022)
SOBRE O EROTISMO
Nunca devemos esquecer que, apesar da promessa de felicidade que a acompanhou , a paixão começa por introduzir a perturbação e a desordem. Até a paixão feliz introduz uma tão violenta desordem que a felicidade que comporta, antes de ser uma felicidade desfrutável, é tão grande que é comparável ao seu contrário, ao sofrimento. A essência da paixão é a substituição da persistente descontinuidade por uma maravilhosa continuidade entre dois seres.
(...)
G. Bataille - in O erotismo
A CIÊNCIA NEUTRA
Era idílico, sim. Naquele tempo, lembra-se, você podia ser um cientista sem sentir-se culpado; podia ainda acreditar que estava trabalhando para maior glória de Deus. Hoje em dia não lhe permitem ao menos o conforto de enganar-se a si mesmo. Você é pago pela Marinha e vigiado pelo FBI. Nem por um só momento lhe consentem que esqueça os seus verdadeiros objetivos.
A. Huxley in O Gênio e a Deusa
sábado, 19 de novembro de 2022
sexta-feira, 18 de novembro de 2022
O QUE É PENSAR?
É muito difícil o exercício de pensar. Não basta ter um cérebro, não basta ter conhecimento. O cérebro mente, o conhecimento às vezes entorpece. Antes, pensar é empreender uma espécie de raspagem no solo idealista das categorias platônicas e cartesianas. Entre outras doutrinas, e contra elas, pensar é partir... para além do cais... "seguir sempre a linha de fuga do vôo da bruxa." Esta frase do livro "O que é a filosofia?" (Deleuze e Guattari, 1992) coloca o pensamento no tempo infinitivo, aquilo que faz vivenciar na carne o tempo que não volta, a irreversibilidade. Ora, para onde, mesmo, estaria indo a bruxa? Sem retorno. Pensar é um ato corpóreo, visceral, material, inscrito como prática social numa maquinação desejante. Pensar é desejar. Não sendo isso, estamos e estaremos afundados no universo da representação das coisas (humanas e inumanas). Aí o pensamento não entra, ou só entra se for convertido aos códigos estáveis da razão, da consciência e do eu. É o caso do fascismo e dos seus delírios mortíferos.
A.M
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
DEVIRES
O paciente vive entristecido pela Grande Máquina. Sua alegria foi aniquilada em plena vigília. Do nada. Ninguém assume a autoria dos pequenos crimes. Eles são administrados em nome da paz de espírito. Ora, o espírito também caga. Avise aos últimos palhaços que a arte foi solapada em nome do ideal dos homens de branco. Ao que me consta, nada mudou no sulco das bocas. Elas falam rachando dentes. Mastigam auroras natimortas. Mas o Rosto carrega uma expressão justa, como negar? A bondade natural dos humanos. Ó Lovecraft, socorrei! Apenas uma cidade respirando um arco-íris, manda por favor... Não falo por mim. Por mim, ó... Falo pelo que não sou, falo por devires. Escutai a canção do mundo... Você dança? O paciente sucumbe à Ordem. Por favor, o senhor pode me dizer as horas? Já vai tarde o tempo dos mestres, com todo o respeito. Sonâmbulos da própria dor, como falar aos que não falam? A Grande Máquina é uma pequena dose de benefícios a curto e médio prazo. Ela se insinua na febre dos corredores infectos. Um susto, um sus. Tudo é contágio. Resistir à morte, querida, e fazer dessa vibração algo novo, será possível? Talvez um devir-amante imerso em trepadas millerianas. Bicho, perdoa o jeito canino: o que é necessário para viver por viver? Pacientes são pacientes demais. Armaduras químicas, lições de casa, manuais de sobrevivência, coisas simples, eles são normais. Eu queria um gosto de sol em você, em suas dores mais intensas e irremediáveis. Pena que a sombra dos quintais do passado anuncie sessões de tortura regadas à dinheiro. A entrega é às oito. Todos estarão lá, até o chefe da Facção Sinistra, aquele mesmo que começou a seduzir a multidão com truques de falar macio. Não tem jeito. Somos inocentes radicais.
A.M.
(maio/2011)
terça-feira, 15 de novembro de 2022
domingo, 13 de novembro de 2022
SEM ANESTESIA
O conceito de medicalização da sociedade é tributário do capitalismo industrial avançado. Possui um alcance planetário, na medida em que a tecnologia médica, sustentada pela idéia de progresso, avança como oferta de produtos a serem consumidos em meio ao estilo de vida contemporâneo. Tal estilo tem como base a produção subjetiva correlata à produção econômica. Ou seja, cada vez mais inexistem divisões entre os vários setores da vida social, fazendo desta uma mera extensão dos processos do capital (sempre mais lucro, mais domínio, mais controle e exploração...), no caso médico uma semiologia do organismo doente adaptada às necessidades de controle propedêutico pelos equipamentos de saúde. Daí as soluções de problemas sociais se afiguram através o uso da terapêutica médica precedida pelo diagnóstico cada vez mais estabelecido por imagens (exemplo da USG). A medicalização não é, pois, um fenômeno médico, pelo menos na sua origem, mas um produto do funcionamento científico das relações capitalísticas, totalizadas na figura subjetiva do consumidor-padrão. A medicina segue e “obedece” ao processo histórico-social porque ela mesma é uma forma social no sentido de uma instituição poderosa que emplaca um discurso humanitário às custas da produção-consumo de pacientes. Medicalizar é, pois, um ato político antes de ser técnico.
AM.
MELANCOLIA DO SIGNIFICANTE
A linha de fuga é como uma tangente aos círculos de significância e ao centro do significante. Ela será atingida por maldição. O ânus do bode se opõe ao rosto do déspota ou de deus. Matar-se- á e se fará fugir o que pode provocar a fuga do sistema. Tudo o que excede o excedente do significante, ou tudo o que se passa embaixo, será marcado com valor negativo. Vocês não terão escolha senão entre o eu do bode e o rosto de deus, os feiticeiros e os sacerdotes. O sistema completo compreende então: o rosto ou o corpo paranóico do deus-déspota no centro significante do templo; os sacerdotes interpretativos, que sempre recarregam, no templo, o significado de significante; a multidão histérica do lado de fora, em círculos compactos, e que salta de um círculo a outro; o bode emissário depressivo, sem rosto, emanando do centro, escolhido e tratado, ornamentado pelos sacerdotes, atravessando os círculos em sua fuga desesperada em direção ao deserto. Quadro por demais sumário que não é somente o do regime despótico imperial, mas que figura também em todos os grupos centrados, hierarquizados, arborescentes, assujeitados: partidos políticos, movimentos literários, associações psicanalíticas, famílias, conjugalidades... O retrato, a rostidade, a redundância, a significância e a interpretação intervém por toda a parte. Mundo triste do significante, seu arcaísmo com função sempre atual, sua trapaça essencial que conota todos os seus aspectos, sua farsa profunda. O significante reina em todas as cenas domésticas, como em todos os aparelhos de Estado.
G. Deleuze e F. Guattari, in Mil platôs, vol 2
