domingo, 18 de junho de 2023

The Sheltering Sky-On The Hill-Ryuichi Sakamoto

Pensar o delírio : linhas da diferença - II

6 - Segundo a psiquiatria, o delírio é um sintoma e por isso deve ser eliminado; esse é o modelo biomédico vigente desde o século XIX e permanece nos dias de hoje sob o respaldo das neurociências.

7-As implicações com a clínica psicopatológica são muito evidentes; para um cérebro em mau funcionamento, substâncias químicas são usadas para atuar nos processos físico-químicos e daí eliminar, ou pelo menos reduzir a gravidade do delírio.

8- O antigo modelo biomédico se reveste na atualidade de axiomas que mapeiam o delírio em prol da adequação às normas e aos códigos sociais; nesse sentido a sociedade é vista numa posição extra-territorial. Ou seja, nada tem a ver com a produção do delírio. 

9-Em termos epistemológicos a psiquiatria se debate num dualismo cérebro/mente, já que há delírios com origem orgânico-cerebral ( demências senis) e outros sem qualquer vestígio de origem cerebral ( histerias dissociativas).

10-A contradição vivida pela psiquiatria clínica ( cérebro versus mente, organismo versus psíquico) em nada ameaça o seu prestígio social, já que ela, antes de ser uma especialidade médica, é uma instituição social interessada em manter o seu lugar de poder ( status quo).

A.M.


O que é um Rizoma? (legendado) - Alexander Kluge e Joseph Vogl, Prime Time

Pensar o delírio: linhas da diferença - I

1-Delírio é tema complexo. É que diz respeito à "verdade" e por conseguinte à linguagem.

2-Ele atravessa a ciência, a filosofia, a arte e saberes não codificados e não reconhecidos pelo establishment vigente.

3-É um objeto de estudo transdisciplinar. Significa dizer que não apenas deve ser investigado por múltiplas disciplinas, como estão abolidas as fronteiras entre elas.

4-A medicina, tendo a psiquiatria como seu representante oficial e operador prático (clínico) sequestrou  o delírio para o âmbito das patologias mentais.

5-Para "pensar" o delírio, o método rizomático de Gilles Deleuze e Félix Guattari (descrito no primeiro capítulo de "Mil Platôs") atende a necessidade de captar as multiplicidades que compõem a produção de um delírio.

A.M.



sexta-feira, 16 de junho de 2023

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO 


Eu sou um homem fechado.

O mundo me tornou egoísta e mau.

E a minha poesia é um vício triste,

Desesperado e solitário

Que eu faço tudo por abafar. 


Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,

Com o teu passo leve,

Com esses teus cabelos...


E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender

nada, numa alegria atônita...


A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil

Aonde viessem pousar os passarinhos.



Mario Quintana

quarta-feira, 14 de junho de 2023

O FUNCIONAMENTO

O desejo funciona em linhas múltiplas.  Certamente há uma ambiguidade inscrita no seu "interior". O desejo é produção que não cessa e não remete a um sujeito como origem. Ao contrário,  o sujeito é efeito, consequência, às vezes sequela. Tudo se complica porque há um liame do desejo com o tempo que passa e não volta: a irreversibilidade. Da clínica à política, passando por mil searas humanas, o desejo-produção constitui uma ética do aumento da potência ou ao inverso, redução da potência de existir. Entre os extremos, pululam  linhas existenciais (relações entre corpos) por onde o desejo escorre, se afirma ou se esvai.  Essa é a condição de possibilidade para o surgimento dos afetos, tristes ou alegres. Na clínica psicoterápica, o avanço para a liberdade do singular. Na política, a luta coletiva encravada na subjetividade, mesmo a mais individual. Em ambos os casos, o que está em jogo (ou em perigo) é a diferença. 


A.M.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

E quando nos beijávamos...

E eu perdia a respiração e, entre suspiros, perguntava: Em que dia nasceste? E me respondias com voz trêmula: Estou nascendo agora...


Mia Couto

domingo, 4 de junho de 2023

PSIQUIATRIA DAS SINAPSES


O deprimido vive o "endurecimento" do presente.O passado lhe condena e o futuro lhe ameaça. Resta o presente como uma espécie de rechaço ao devir. A depressão é um anti-devir, tentativa (obviamente)  fracassada de fazer parar o tempo que é irreversível.  Desse modo, a Depressão se instala e se espalha nas "células da alma" . Circula por todas as partes onde o devir coagula.  O meio são as instituições molares, formas sociais enrijecidas: eu, escola, direito, polícia, família, estado, religião, etc. Não se vive, não se cria, não se brinca, não se dança, não se sente, mas se sobrevive. O organismo físico-químico, devidamente fabricado, mensurado e comercializado pelo biopoder médico, funciona em cada uma dessas instituições. Couraças musculares (Reich) alimentam-se do consumo automático de uma subjetividade quimicamente induzida. Isso constitui e entroniza o mercado dos anti-depressivos à mão. A terrível profecia (A. Huxley) de um admirável mundo novo se cumpre.


A.M.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

VIAGENS DE MIGUEL

Miguel é um dos meus amores. Tenho muitos, múltiplos, heterogêneos e imprevisíveis. Claro, Miguel é dos mais intensos e próximos. Ele me toca, afeta as "minhas" profundezas mais superficiais, ou seja, solicita mais pele, pele de pai, pele de companheiro, pele de amigo e cuidador. Miguel é belo e imprevisível. Sua natureza apolínea, e ao mesmo tempo dionisíaca, afronta as pulsões mais elementares. O Mundo é o seu mundo. Vive nos e dos paradoxos de uma infância brilhante e solar, sorri ao cosmos, cumprimenta os passantes, diz "oi" ao desconhecido, se faz notar. Ele é a pura expressão. Oh, Spinosa! Miguel antes me chamava de antonio e deu pra me chamar de pai. No entanto, gostaria de lhe dizer (e digo!) que não quero ser pai e sim uma partícula da natureza de onde ele, a Vida, veio. Sim, tudo é muito simples. Miguel é doce, sensível e ao mesmo tempo cruel nas exigências para agora e ontem. Assim, faço como posso (ou não...) para atendê-lo, estar com ele, amá-lo, enquanto consigo traçar formas de prudência para o viver em sociedade. Que não é fácil...

A.M.

(postagem original em 5 /6/2016)