sábado, 8 de julho de 2023

A IMAGEM SOBERANA

Impossível negar: a nível planetário, uma tecnologia da imagem veio para ficar. Ela compõe talvez a face mais concreta das "conquistas"da modernidade. Tudo é imagem. Um universo imagético tornou-se a própria subjetividade. Não a entidade-do-eu, não a consciência, não a  racionalidade, mas o processo da subjetivação veloz e incessante que nos afeta e nos constitui. O real é a cada dia mais artificial. A sensação subjetiva ("eu existo, eu penso") e a correlata certeza de quem sou, são hoje sustentadas pela realidade da imagem, pela verdade da imagem, pela concretude da abstração, enfim. Tal verdade, sem que eu perceba, passa a ser a minha verdade, mesmo a mais íntima. Devastação do pensamento e até do inconsciente representativo (freudiano). Caminhamos para o fim da divisão mundo interno-mundo externo.Nesse ponto, a referência à esquizofrenia é inevitável: há um estilhaçamento da subjetividade na esteira de uma profunda erosão do sentido. Aniquilamento da linguagem verbal, dissolução de crenças e valores, convite ao fascismo (via apologia dos arcaísmos) e demonização da mídia (via a ideação paranóica) mesmo nas ditas esquerdas. Em que ou em quem acreditar? Um gigantesco buraco ontológico compõe o reino encantado das imagens verídicas: telefone fixo, internet, rede social, celular, zap, televisão, cinema, vídeo, videogame, fotografia, etc, tanto faz. Imagens, imagens, tão só imagens devoram tudo, arrastam tudo,  designam tudo, significam tudo, inclusive eu aqui escrevendo e você lendo o artigo agora. No entanto, tal estado de coisas não é um mal em si. Pois, se somos dominados "por dentro" no mais fundo da interioridade psíquica, algo se anuncia naquilo que Nietzsche chama "a transvaloração dos valores". A alma em revolta pela criação de uma nova terra.


A.M.

Rehearsal Figures in Extinction [1.0] - By Crystal Pite with Simon McBur...

vai ver que o apocalipse

já aconteceu

e a gente nem percebeu


Nicolas Behr

O HUMOR DA CIÊNCIA

O humor é um signo importante na psiquiatria atual. Na semiologia clínica, ele é uma referência básica para se estabelecer um diagnóstico de "Transtorno do Humor" ou mais precisamente "Transtorno bipolar". Há até escalas para avaliar o Humor de 1 a 5 por exemplo. Ora, o humor é um componente dos fluxos afetivos que se inscreve no organismo ( daí o bioquimismo encruado) mas que tem origem no corpo desejante ou corpo das intensidades livres: corpo da loucura, não da psicose. Esse dado simples é denegado pela maquinaria psiquiátrica atual, o que torna o paciente um objeto fabricado ao gosto dos fármacos e congêneres. E mais, imobilizado como produção existencial, ainda que pareça tudo estar em ordem. Ou seja, assintomático. Não esqueçamos, porém, que se não há "sintomas" ( o humor está eutímico, etc) o próprio paciente passa a ser um.   Sintoma.

A.M.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

DISFARCE


o Estado é uma máquina

(sem metáfora)

por mais que a sua boca

sorria.


o Estado é uma máquina,

é isso aí.


não pergunte

onde anda a vida.

não questione o dia

nem fale de poesia.


o Estado é muito vivo,

pode escutar.


A.M

'Vou transferir a cracolândia pra lá', diz Silvio Santos a Zé Celso sobr...

terça-feira, 4 de julho de 2023

TEATRO POÉTICO: SÓ PARA LOUCOS

A linguagem poética constitui um território de significações que escapa às coordenadas da razão. Há um sentido a produzir. Desse modo, a busca de singularidades existenciais é facilitada pela aventura de se ler um poema e implicar-se a ele. O que isso quer dizer? Quer dizer formar e firmar conexões afetivas com um ou muitos pedaços do poema ou do poema como um todo, mesmo sabendo que não há todo. Não há todo porque as multiplicidades heterogêneas do texto nunca fecham um sistema ou tamponam um devir. O processo do desejo é irreversível. Ou seja, sem volta. A poesia é isso: multiplicidades do leitor se ligando a multiplicidades do poema na busca de... uma diferença. Ler um poema não é como ler um ensaio de sociologia, por exemplo, mas sim escutar os versos como se escuta uma música ou se sente no corpo as vibrações das cores de um quadro de Emil Nolde, ou no mesmo corpo e ao mesmo tempo o ritmo de um improviso de jazz, ou uma coreografia de Pina Baush, um gol de bicicleta... Poesia não foi e não é feita para interpretar porque ela já é uma interpretação ou mil, cem mil interpretações da realidade. Ou a própria realidade, a realidade em si-mesma. Quando se está apaixonado (isso deveria ser sempre) a poesia cobre e recobre as superfícies do mundo numa película fina de delicadeza, suavizando os pedregulhos das estradas mais longínquas e inóspitas. Tal como em "Asas do Desejo" (Wim Wenders, 1987), o anjo amante do tempo está transfigurado por avistar a trapezista no seu camarim, não por ele ser um anjo, mas por haver entrado num devir-humano, devir-mundo, devir-risco, devir-perigo, devir-paixão, devir-amar. 


A.M.

Netflix: 'Cuba e o cameraman' registra a história nua e crua de Cuba

Quando você ama minhas ideias,

Eu me sinto também abraçado.


Pedro Salomão

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O que é uma aula Gilles Deleuze

O que é psiquiatria? (1)


A psiquiatria é uma especialidade médica surgida na França em fins do século XVIII. Ai se dá a passagem (conforme Pinel) dos asilos aos manicômios.

No entanto, sua origem mais longínqua remete à existência de asilos no século VII (cultura árabe) e no século XVI (ocupação árabe na Espanha). Desde então passam a ser chamados de hospícios e se espalham pela Europa.

Sendo assim, a origem da psiquiatria se confunde com a origem dos asilos, dos hospícios e dos manicômios. Tudo se prepara para encolher as mentes.

A lógica dos asilos é o DNA da psiquiatria.

Já o século XIX, chamado século dos manicômios, dá origem aos hospitais psiquiátricos conforme o modelo atual.

São conhecidas as agressões e os horrores perpretados contra pacientes nos manicômios desse século. Foucault descreveu com detalhes as torturas científicas.

No Brasil, entre outros horrores, o hospital psiquiátrico de Barbacena é um registro histórico como modelo da barbárie consentida.

No período do estalinismo na União Soviética (1927/1957) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos. 

No período da ditadura brasileira (1964/1979)  presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.

A psiquiatria tem uma história pouco edificante.

No Brasil, veio a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial. Diferentemente, no campo da medicina não se tem notícia de alguma reforma cardiológica, pneumológica, nefrológica, etc.

De fato, trata-se de uma especialidade que pede  um método para além do biomédico.

A psiquiatria (psicopatologia) não dispõe de uma teoria dos afetos, apesar da extrema importância desse conceito para o trabalho clínico, ou seja, da gestação do vínculo com o paciente.

O paciente psiquiátrico muitas vezes não quer ser atendido pelo psiquiatra, sendo levado à força por familiares ou terceiros. Na clínica médica, não se tem notícia de tal recusa por vezes hostil e agressiva.

O objeto de pesquisa e intervenção clínica da psiquiatria é invisível, impalpável e abstrato. Chamado de “mente” , não há nada parecido em pesquisa médica. A mente não é o cérebro.

Nos hospitais psiquiátricos (ainda existem!) é muito comum pacientes fugirem. Por que fugiriam do tratamento? Em contraste, nos hospitais gerais (clínicos) isso não existe. Pelo menos, que se saiba.

A alta e a cura são dispositivos raros na psiquiatria clínica.

Sim, uma estranha especialidade essa.


A.M.

sábado, 1 de julho de 2023

Noturno nº 1


Nunca me sinto pobre,

ao contemplar as estrelas.


Qualquer doido

(eu)

possui

o latifúndio do céu.


Aguardente negra e gratuita

a noite me embriaga.


Sonho melhor

acordado.


Cassiano Nunes

Ensaios sobre a diferença - I

Em tempo capitais, a diferença parece inexistir. Do que se trata? O que se passa? O que se passou? Perguntas sem sujeito e sem resposta. Elas boiam num oceano vazio. O mundo atual é um mundo demasiado semelhante, demasiado igual. Torpe, raso, cínico.  Por toda a parte circulam mercadorias da alma exausta. A diferença percebe esse mundo estranho onde ela não mais se reconhece, exceto por um fiapo de vida solto nos infinitos da mente sofrida. Andei por lados contrários à racionalidade triunfante e a diferença se fez carne. Me perguntei ó idiota. Nada há mais a cobrar da consciência esclarecida. Fui à "igreja" dos homens de bem. Deus acabou seus dias como mercadoria e milagre.   Murchou a glória dos homens suaves. Não há mais homens... A diferença incorporou esse dado estatístico nas entranhas de um corpo intenso e intensivo.  Ainda bem que um coração exangue anuncia a prática da resistência... à infâmia, à vergonha e à morte...


A.M.