Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 16 de julho de 2023
ISSO NÃO PÁRA
É uma triste coincidência que a agressão ao ministro Alexandre de Moraes e seus familiares por parte de um empresário bolsonarista, no aeroporto de Roma, tenha ocorrido quando João Cézar de Castro Rocha está lançando o livro "Bolsonarismo - da guerra cultural ao terrorismo doméstico" (Autêntica). Professor de literatura comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Castro Rocha se dedica há anos ao estudo das estratégias da extrema direita brasileira e na obra atual constata uma perigosa transformação. A agressividade dos bolsonaristas está passando do discurso para o enfrentamento físico
"O bolsonarismo passou do limite da possibilidade de convivência na pólis", afirmou o professor à coluna. "Ou nós reagimos agora ou as consequências para o futuro serão funestas".
A tese que o pesquisador defende no livro é que a extrema direita liderada por Jair Bolsonaro deixou de lado a narrativa da guerra cultural e passou ao confronto real, que acontece de várias formas. Como, por exemplo, a agressão ao ministro Moraes. É o que chama de terrorismo doméstico.
(...)
Chico Alves, UOL, 16/07/2023, 4:00 hs
sábado, 15 de julho de 2023
CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 1
A produção capitalística, em tempos atuais, se dá em escala planetária: a devastação da Terra. Por isso Félix Guattari criou o conceito de Capitalismo Mundial Integrado. O CMI significa a produção subjetiva e portanto material, ou o contrário, a produção material e portanto subjetiva. "Só existe o desejo e o social". Neste sentido, infere-se que o sistema capitalístico se afirmou e se afirma em tão amplas proporções por que domina e controla os indivíduos por dentro, produzindo subjetividades robotizadas (modos de pensar, sentir, perceber e agir) que giram em torno do valor-dinheiro como abstração concretizada em bens de consumo. A servidão imunda, consentida e querida: consome-se todo tipo de produto, incluindo sentimentos, valores, religiões, virtudes morais, notícias, doenças, conhecimentos, assistencialismos, espiritualidades, etc. Ora, em tal universo, o sentido é produzido sem cessar como o mundo mais desenvolvido, mais avançado já alcançado pelo Homem, o que é atestado pela tecnologia científica: olha aí a Inteligência Artificial. Sob tais condições, torna-se difícil pensar diferente, ou apenas pensar! Porque não há mais "um fora" do capitalismo. O sistema abarcou tudo, tomou tudo, invadiu tudo até as estruturas do inconsciente. Estamos de fato num mundo delirante (Marx destaca o "fetichismo miraculante" da mercadoria no início de "O Capital"). A Crença é para todos, atravessa países, cidades, continentes: uma busca enlouquecida pela felicidade no exercício diário do consumo faz do homem moderno uma engrenagem plástica (só há uma cultura...) da máquina do capital. Como resistir a tal insânia normatizadora, religião do capital, verdade revelada?
A.M.
sexta-feira, 14 de julho de 2023
O QUE NOS AMEAÇA
Para você, o acoplamento entre luta política e criação dá uma capacidade nova que busca a alegria. É isso ser “de esquerda”?
I.S. Segundo Gilles Deleuze, existe uma diferença de natureza entre esquerda e direita. A esquerda, de maneira vital, tem necessidade de que as pessoas pensem. Isso não quer dizer que elas façam teoria, mas que tomem em suas mãos, coletivamente, os assuntos que lhes concernem. No século XIX, é o que fez a classe operária quando criou as mutuais, as bolsas de trabalho. Já a direita tem necessidade de que as pessoas aceitem a ordem estabelecida, pouco importando qual seja, contanto que a respeitem. Os dispositivos que produzem a igualdade, portanto, são “de esquerda”. Às vezes, o que eles exigem é duro, mas aprender conjuntamente a estar à altura do problema posto, a não submetê-lo a generalidades, é um acontecimento criador de alegria. Quando vozes até então sufocadas e desqualificadas, reduzidas a resmungos, são transformadas em saberes articulados, o problema é mais bem colocado. Alianças inesperadas devêm possíveis. O que nos ameaça é a divisão e o ressentimento: a alegria é o contrário do ressentimento, e é ela que pode ser comunicada a outros. Seria preciso fazer com que ela fosse sentida em relatos que mostrassem como vieram à tona catálises, encadeamentos e aberturas de imaginação, quando tudo parecia bloqueado: “Se ali é possível, então aqui também pode ser!”
Isabelle Stengers, entrevista ao jornal parisiense L´Humanité, 15 de julho de 2013 (trecho)
terça-feira, 11 de julho de 2023
domingo, 9 de julho de 2023
O que é psiquiatria? parte 2
Uma especialidade diferente essa.
Tudo porque não apenas é especialidade médica, mas instituição.
Do ponto de vista epistemológico, ela está plugada às ciências biológicas e às ciências humanas. No primeiro caso, o organismo físico-químico. No segundo, a realidade social. Trata a realidade social como organismo físico-químico. Trocou as bolas.
É uma especialidade ancorada em pilares teóricos de naturezas diferentes. Vive num paradoxo.
Sua condição de ser uma especialidade pode ser ampliada para a de instituição social. É que a pesquisa lida com um universo simbólico no qual a própria especialidade está inserida.
Tal condição “institucional” normalmente é ignorada pelos psiquiatras e similares. Muito difícil que fosse diferente.
Como instituição ela codifica as pessoas. Daí, estas não precisam ser psiquiatras para pensar, sentir e agir como um.
Atrelada à visão biomédica do comportamento humano em suas alterações (o chamado transtorno) a psiquiatria estanca numa reflexão teórica rasa, onde não consegue sequer definir com precisão o que é uma psicose.
Em essência, esse é o fundo da "sua"epistemologia. Um conhecimento atolado na moral.
“Loucura”, conceito não-médico, converte-se ao de “transtorno mental”, termo naturalizado como distúrbio da mente igual à distúrbio do cérebro. A equação conceitual cérebro=mente estabelece, então, a partir da década do cérebro, a última do século XX , fortes razões científicas para um “admirável cérebro novo” que toma o lugar da psicopatologia.
Quanto ao aniquilamento desta última, há testemunhas: os pacientes.
Ai, então, a neurociência se fez impecável. Uma psiquiatria atual, acolhida como ciência do cérebro e surda à fala do sofrimento mental, conquistou o mercado.
No entanto, o cérebro mente.
A.M.
CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - IV
Como F. Guattari previu, vivemos tempos esquizofrênicos. Isso faz retirar do conceito de Capitalismo Mundial Integrado (Guattari, 1982) elementos teóricos contingentes e necessários a uma análise institucional. A produção social (econômica) estendeu-se à produção subjetiva (semiótica) como matéria prima, ou, como diz Foucault, biopoder. A vida passa a ser produzida, e com ela, tudo que parece imitá-la. Antigos códigos sociais (por ex., na Idade Média, o código teológico) cedem lugar à auto-dissolução numa espécie de esquizofrenização generalizada do corpo social (socius). Não há mais eu, mesmo que pareça. Há, sim, um eu voltado às logísticas de manutenção do cotidiano. É possível olhar em torno: o cenário de dissolução do Sentido é devastador. Indagações da alma ("estarei vivo?") atracam-se no território do corpo-imagem. Assim, pensar para além da simples cognição da realidade só se torna possível mediante a representação dessa realidade e não com e através dela. A realidade "real", o corpo das intensidade mundanas, cede a sua vez, seu número e seu lugar à teatralidade de um mundo em decomposição. Notícias de toda a parte chegam instantâneas. Registram as linhas subjetivas do consumidor (orgulhoso) de ordens implícitas. Sem saber, é o desejo encalacrado nas dobras da alma: o capital.
A.M

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