Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
sábado, 2 de setembro de 2023
quinta-feira, 31 de agosto de 2023
QUEM É POETA?
A experiência poética não é só a de quem escreve o poema, mas também a de quem o lê. Em tempos de tecnologia industrial avançada e aparentemente vencedora, a poesia ocupa um lugar de criação "menor" e por isso, maior. Maior só o menor, o ínfimo. Não no sentido de uma forma "pequena", mas o "sem forma", como nos espaços infinitesimais do filme "O incrível homem que encolheu" ( Jack Arnold, 1957). A experiência poética se dá num processo de criação subjetiva (bem entendido, no mundo) onde a violência feita à sintaxe e à semântica afronta o caos no próprio terreno que é o da semiótica. Produzir signos a-significantes talvez seja a função do poeta/leitor como aventureiro dos universos indizíveis. Por isso experimenta o gosto das paixões sem dono. Ler um poema é ligar-se ao poema numa linha de fuga existencial, nem que por um segundo. Zero para a possibilidade de interpretar ou compreendê-lo, ele, o sem-razão e sem-governo, o sem-sentido, o poema. O sentido é o que é produzido pelo leitor. Assim, a experiência poética é acessivel a todos. Basta sentir a pulsação das horas no coração da Terra. Não é fácil, mas vale a pena.
A.M.
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
Minha mulher e eu temos o segredo para fazer um casamento durar:
Duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida e um bom companheirismo. Ela vai às terças-feiras e eu, às quintas.
Nós também dormimos em camas separadas: a dela é em Fortaleza e a minha, em SP.
Eu levo minha mulher a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta.
Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento, "em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!" ela disse. Então, sugeri a cozinha.
Nós sempre andamos de mãos dadas...
Se eu soltar, ela vai às compras!
Ela tem um liquidificador, uma torradeira e uma máquina de fazer pão, tudo elétrico.
Então, ela disse: "nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar".
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Lembrem-se: o casamento é a causa número 1 para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento. Eu me casei com a "senhora certa".
Só não sabia que o primeiro nome dela era "sempre".
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas, tenho que admitir: a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: "O que tem na TV?"
E eu disse: "Poeira".
Luis Fernando Verissimo
terça-feira, 29 de agosto de 2023
CUIDADO: Zolpidem
A bancária Angélica Prado, 34, tem dificuldades para dormir desde a infância. Mas o diagnóstico de insônia crônica só veio em 2014, junto à recomendação de tomar zolpidem, um remédio indutor do sono. Esse foi o começo de uma relação problemática. Angélica desenvolveu dependência ao medicamento e em uma crise de abstinência tomou 85 doses de uma vez. Ao VivaBem, ela compartilha sua história e a jornada para deixar de usar o remédio.
(...)
Viva Bem, São Paulo, 29/08/2023, 04:20 hs
domingo, 27 de agosto de 2023
sábado, 26 de agosto de 2023
A NOITE É UMA CRIANÇA
Um amante e seu desejo percorrem as linhas tênues e invisíveis dos corpos, não só humanos. Um amante vive de acontecimentos na borda dos territórios de vida. Há sempre o perigo dele despencar num vazio brutal sem remédio. Mas os sons da estrada nua ou do mato chegam antes e tamponam o tal vazio com a música da natureza. Ela se incorpora ao amante como gosto de experimentar o deslimite das bocas num bar do fim do mundo. Um amante viaja em si, consigo mesmo, por si mesmo na imensidão do fora de si. Até que o dia amanheça sem culpa e fora do tempo.
A.M
quinta-feira, 24 de agosto de 2023
DEVIR-MULHER
Todo rosto é uma paisagem. Mulheres povoam o deserto sem oásis. Paixões são deixadas no caminho dos tuaregues. Encontrei passagens secretas. Me deixei ir. Dormi com as algas. Salguei nas entranhas. Escorri com a chuva. O tempo avisou: a hora nunca chega. É difícil encontrar uma mulher anunciando o vento, arrastando enseadas. Lá vem ela em plena manhã de sol. Olho seus olhos. Como posso achá-los senão através de uma “longa preparação”? Me perco em romances e imagens. Protelo encontros cruéis. Essa alegria tão alegre, dói. Onde achei mulheres de rosto cósmico, as expressões do mal foram do bem. Fui direto às que teceram vidas e camas em espaços quentes. Adornei veias com traços heróicos de coxas lisas. Olhos graúdos me ensinaram a nadar na secura dos lábios. Cabelos muito pretos cheiravam aos perfumes do orvalho. Eles enlaçavam a alma viajante das intensidades em brechas do desejo. Pongando no seu corpo, saí a passear por planícies infinitas. Isso me trouxe a alegria em pequenos potes. Quantas vezes naufragamos? Toda mulher é uma paisagem. Afirma as horas que chegam doadas em películas de ouro. Nada volta. Estou aqui. Um coração professa o anti-romantismo disfarçado de suavidades. Uma voz rouca ecoa musical. Estágio zero. Nunca se ama uma mulher, mas os seus signos enviados. Os nômades, os feiticeiros, os mágicos, acendem as tardes translúcidas e luzidias de Salvador: tudo arde, tudo treme na busca da anti-cura do desvario mais selvagem. As mulheres são melhores.
A.M.
terça-feira, 22 de agosto de 2023
domingo, 20 de agosto de 2023
SIGNOS DO AMOR
Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É tornar-se sensível a esses signos, aprendê-los (como a lenta individualização de Albertina no grupo das jovens). É possível que a amizade se nutra de observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma "alma": exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade dos seres amados, mas também à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado. É por essa razão que é tão comum nos apaixonarmos por mulheres que não são do nosso "mundo", nem mesmo do nosso tipo. Por isso, também as mulheres amadas estão muitas vezes ligadas a paisagens que conhecemos tanto a ponto de desejarmos vê-las refletidas nos olhos de uma mulher, mas que se refletem, então, de um ponto de vista tão misterioso que constituem para nós como que países inacessíveis, desconhecidos: Albertina envolve, incorpora, amalgama "a praia e a impetuosidade das ondas". Como poderíamos ter acesso a uma paisagem que não é mais aquela que vemos, mas, ao contrário, aquela em que somos vistos? "Se me vira, que lhe poderia eu significar? Do seio de que universo me distinguia ela?"
(...)
Gilles Deleuze in Proust e os signos
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