Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 17 de setembro de 2023
sábado, 16 de setembro de 2023
SEM ANESTESIA
O conceito de medicalização da sociedade é tributário do capitalismo industrial avançado. Possui um alcance planetário, na medida em que a tecnologia médica, sustentada pela ideia de progresso, avança como oferta de produtos a serem consumidos em meio ao estilo de vida contemporâneo. Tal estilo tem como base a produção subjetiva correlata à produção econômica. Ou seja, cada vez mais inexistem divisões entre os vários setores da vida social, fazendo desta uma mera extensão dos processos do capital (sempre mais lucro, mais domínio, mais controle e exploração...), no caso médico uma semiologia do organismo doente adaptada às necessidades de controle propedêutico pelos equipamentos de saúde. Daí as soluções de problemas sociais se afiguram através o uso da terapêutica médica precedida pelo diagnóstico cada vez mais estabelecido por imagens (exemplo da USG). A medicalização não é, pois, um fenômeno médico, pelo menos na sua origem, mas um produto do funcionamento científico das relações capitalísticas, totalizadas na figura subjetiva do consumidor-padrão. A medicina segue e “obedece” ao processo histórico-social porque ela mesma é uma forma social no sentido de uma instituição poderosa que emplaca um discurso humanitário às custas da produção-consumo de pacientes. Medicalizar é, pois, um ato político antes de ser técnico.
AM.
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
dependimentos demais
e tarefas muitas —
os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas não davam conta de iluminar o
silêncio das coisas anônimas —
passaram essa tarefa para os poetas.
Manoel de Barros
sábado, 9 de setembro de 2023
sexta-feira, 8 de setembro de 2023
O QUE É UMA PSIQUIATRIA MENOR? 3ª parte
Ela se divorciou da psiquiatria maior (neuro-biológica). Não sob tumulto ou oposição tipo "melhor ou pior", mas como linha prática e clínica produzida na relação com o paciente. Antes de ser técnica, uma aposta ética lhe move ao fazer o Cuidado cuidar.
A psiquiatria menor intervêm no universo oculto ou semi-oculto dos humilhados afásicos. Isso inclui os excluídos ao ar livre, os que vegetam, trastes familiares, párias da mente. Cárceres privados são só um exemplo.
A saúde mental é o objeto de pesquisa dessa psiquiatria (talvez inglória) que se deixa afetar por gritos de angústia, fobia e pânico e por delírios, alucinações de fim de mundo, apocalipse e suicídio.
Uma psiquiatria menor funciona, pois, em equipe, em grupo, no coletivo, mesmo quando o psiquiatra está só. Principalmente quando está só.
Ela não busca reconhecimento científico, intelectual, acadêmico, pretígio, poder, money. Opera no silêncio dos encontros, no risco das terapêuticas criativas e na loucura do mundo.
Não faz política porque em si mesma já é política, inteiramente política, dos pés à cabeça política e por isso mesmo cultiva alma clandestina e corpo guerreiro. Nem mesmo o grande abraço das camisas de força farmacológicas a intimidam.
Quando sente que o barco vai virar (ou já virou) sai a nado em direção a outros mares. Sem terra à vista.
A.M. (20/02/2022)
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
Primeiro levaram os negros, Mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, Mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, Mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Agora estão me levando. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.
Bertolt Brecht
SOBRE O ÓBVIO
Saúde mental não é saúde do cérebro. A mente não é um órgão. A mente é um construto teórico composto por mil processos afetivos e semióticos que circulam livres para o funcionamento dos códigos sociais. Mente é trabalho, família, política, saúde, escola, mídia, entre outras instituições. Assim, tal questão conceitual (simples mas essencial) estabelece condições de enunciação para a prática da psiquiatria e dos saberes chamados psi. Falamos da clínica e seus efeitos sobre as pessoas.
A.M.

