terça-feira, 16 de setembro de 2025

Eu sou o poeta do Corpo


Eu sou o poeta do Corpo

e sou o poeta da alma,

as delícias do céu

estão em mim

e os horrores do inferno

estão em mim

- o primeiro eu enxerto

e amplio ao meu redor,

o segundo eu traduzo

em nova língua.


Eu sou o poeta da mulher

tanto quanto o do homem

e digo que tanta grandeza existe

no ser mulher

quanta no ser homem,

e digo que não há nada maior

do que uma mãe de homens.


Canto o cântico da expansão e orgulho:

já temos tido o bastante

em esquivanças e súplicas,

eu mostro que tamanho

nada mais é do que desenvolvimento.


você já passou os outros,

já chegou a Presidente?

É pouco: até aí hão de chegar

e irão ainda mais longe.


Eu sou aquele que vai com a noite

tenra e crescente,

e invoco a terra e o mar

que a noite leva pela metade.

Aperte mais, noite de peito nu!

Aperte mais, noite nutriz magnética!

Noite dos ventos do sul,

noite das poucas estrelas grandes!

Noite silenciosa que me acena

- alucinada noite nua de verão!


Sorria, ó terra cheia de volúpia,

de hálito frio!

Terra das árvores líquidas e dormentes!

Terra em que o sol se põe longe,

terra dos montes cobertos de névoa!

Terra do vítreo gotejar da lua cheia

apenas tinta de azul!

Terra do brilho e sombrio encontro

nas enchentes do rio!

Terra do cinza límpido das nuvens,

por meu gosto mais claras e brilhantes!

Terra que faz a curva bem distante,

rica terra de macieiras em flor!

Sorria: o seu amante vem chegando!


Pródiga, amor você tem dado a mim:

o que eu dou a você, por tanto, é amor

- indizível e apaixonado amor!


Walt Whitman

sábado, 13 de setembro de 2025

VIAGENS DE MIGUEL

Miguel com 14 anos: tento acompanhar suas viagens azuis. A natureza o envolve em linhas fortes e sutis. Após breve silêncio,  fala que estava pensando se o mundo poderia ser de outro jeito. Como assim, Miguel? Ele decola a espaçonave do seu desejo pelo desconhecido. Move o corpo lépido, se ajeita no banco em que está sentado e se lança nas colinas de um pensamento em frescor incessante. Miguel marca presença no ar que eu respiro. Busco advinhar o ritmo das batidas do seu coração de estudante. E lá me vou numa doce aventura de afetos sem nome. Mesmo sem saber, ele me ensina o saber da minha história revisitada. Já fui Miguel, eu sou Miguel quando o encontro na saída da escola. E aêêêê rapaz!


A.M.


 


A ÙLTIMA SESSÃO DE MÚSICA

A ERA DO ÓDIO


1-Existe o “bolsonarismo”, ou seja, o fascismo à brasileira. Para facilitar a compreensão do argumento a seguir, usaremos o termo.

2-O bolsonarismo é uma cepa tropical do fascismo, doença psicossocial e política iniciada em 1922 na Itália.

3-No Brasil esta cepa assumiu características semiológicas peculiares. Há portadores sintomáticos espalhados por todos os cantos. Para tentar compreendê-los, usamos a referência clínica da psicopatologia.

4-Ele, o fascista, se julga uma boa pessoa (talvez seja de fato) amante dos valores do humanismo tipo senso comum. Linhas cristãs e mesmices do homem médio lhe compõem.

5-A atividade cognitiva costuma estar preservada. Nada de lesão cerebral ou disfunção dos neurotransmissores. Definitivamente, os neurocientistas  não o alcançam. Trata-se de um cidadão  normal.

6-O perfil social é o de classe média, habituada e identificada ao ritmo do consumo internético, veloz e massacrante. Ele não se importa. Até goza.

7-Apresenta ideação deliróide (quase delírio) ou delirante (delírio primário) com forte teor paranóide. Em um caso como no outro, “há um complô planetário em marcha”.

8-O seu objeto persecutório favorito alterna formas abstratas ( o comunismo, o esquerdismo) com formas concretas ( STF – Alexandre de Moraes, o “Xandão”). Sofre por isso.

9-Apesar da atividade cognitiva preservada, equivoca-se quando reduz a esquerda ao partido dos trabalhadores. E pior, ao Lula. Inútil contestá-lo. Há uma espécie de ideação endurecida que se afirma como verdade. 

10- Ora, "isso não teria problema", não assustaria ninguém se ele não usasse como combustível um ódio profundo e visceral à transformação social.



A.M.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

 O JOGO

A diferença não é redutível às categorias da representação. Assim objetivada, a sua crucificação é fatal. Comumente, acontece;  isso é o normal natural, naturalizado.  Ou seja, não há como acessá-la ( e principalmente vivê-la) conforme as ferrramentas do senso comum, do bom senso, do eu, da identidade, da individualidade, e para dizer numa palavra, da consciência. A diferença não é a consciência, ela não tem consciência. Trabalhar com ela, buscá-la, amá-la, mormente numa experiência psicoterápica ou em qualquer área da vida, é (ou deveria ser)  a prática do devir. O que é isso? Ora, o devir é o processo do desejo, o conteúdo do desejo. Daí não ter uma forma, não ser visível, não se fazer notar, exceto se estivermos num registro de sensibilidade para os afetos que circulam loucos. No entanto, quem suporta tantas intensidades urdidas pelo jogo dos acasos? 


A.M.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O QUE É ISSO?

A extrema direita no Brasil vem cursando com e através de linhas subjetivas delirantes. São afetos de destruição ocultos por fundamentalismos de toda ordem.

Não se sabe quando isso começa, mas é possível situar em 2018. Não que não atuasse antes, mas 2018 é o ano em que as fake news são alavancadas por uma candidatura à presidência que se tornou vitoriosa. Ou o contrário, tanto faz.

Existe hoje apenas o fato histórico da produção internética de uma visão de mundo marcada por valores antigos e autoritários.

No fundo, uma recusa "irracional"  à democracia burguesa se tece na intentona do golpe.

Dizemos "irracional" porque isso não se coaduna com o projeto socialista, ao contrário.

O delírio da extrema direita fabrica suas metástases. Entre elas uma erosão de sentido invade a ideia de democracia e normatiza a subjetividade individuada do cidadão de bem. Um eu à deriva.

Surge então a figura caricata do patriota delirante. E os lideres dessa corrente neo-fascista  se aproveitam. Extraem  mais-valia de prestigio e  o voto secreto para 2026.

Não há ideologia. Não há ilusionismos de classe, o que talvez dissesse uma análise marxiana. Ao contrário, tudo se passa naturalmente à luz do dia, levado pelo fluxo das mídias sociais. 

Algoritmos do terror.



A.M.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Tarkovsky quartet: "Le temps scellé: Mychkine"

Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.


Woody Allen

Onde anda a política

que muda?

Onde  anda a muda

que floresce?


A.M.