terça-feira, 21 de outubro de 2025

O  EXTERMÍNIO  DA  ALMA 

A alma não é o eu nem o cérebro. Este é objeto de neurocientistas,  neuro-cirurgiões finos, técnicos, artesãos de sinapses e neurônios aflitos, e por fim, alvo e vítima de psiquiatras estultos. Mas a alma também não é a das religiões. Ela pertence à natureza; é sua expressão ampliada sem fim. Isso assusta as caixas individuais subjetivadas em linhas de montagem do circuito industrial.  Daí as máquinas sociais da modernidade (visíveis ou não) fazem da alma uma coisa manipulável. Segundo Marx isso atingirá requintes de uma auto-micro-tortura como destino da humanidade. Uma Terra sem alma,  globalizada,  inteiramente livre para odiar.



A.M.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes.O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo. 


Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.


Eduardo Galeano

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

PARADOXOS DA LINGUAGEM

O desejo é fluxo que se conecta com outro fluxo, com outros fluxos, e assim por diante, ao infinito. Ele é sempre agenciado (compõe-se de linhas múltiplas) mesmo que disso não se saiba. Quando é interrompido (impotência em desejar) dá-se uma cristalização, um endurecimento das suas linhas de funcionamento vital em prol do que chamamos de poder. O poder assassina. Ele é regido e mantido pelo universo da representação. Ou seja, funciona como identidade da consciência e do eu, o que, em termos do campo social, chama-se de Senso Comum e Bom Senso. Estas categorias são formas sociais (instituições) operando na perpetuação do par Eu-Consciência. No mundo ocidental cristão, os modos de subjetivação tendem a girar em torno desse a priori do pensamento. Basta analisar a geopolítica vigente e suas formações metastáticas. Ora, se, como diz Deleuze, o Senso Comum identifica e reconhece, enquanto o Bom Senso prevê, não haverá lugar para a criação, para o novo, para a invenção de outra política, exceto se trabalharmos com os paradoxos da linguagem. É aí onde a Poesia, a Literatura, a Arte,  a Loucura se expressam e se afirmam como verdades móveis para uma nova terra.


A.M.

sábado, 11 de outubro de 2025

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

DIAGNÓSTICO: A QUEM SERVE?

O corpo não é o corpo. O corpo é a alma. Esta é a realidade evidente para um trabalho em saúde mental. O que interessa captar é a alma, ou seja, "a alma do corpo". Um corpo sem alma é um pseudo-corpo, organismo visível ao modo médico de capturar clientes. Para encontrar a alma, há que descolar o corpo do organismo. Ativar sensibilidades finas e anônimas. A alma funciona em dobras, linhas invisíveis e linguagens do silêncio. No universo da Escuta e do Encontro, quem trabalha com saúde mental trabalha com a alma do outro e de si mesmo. Faz do diagnóstico ( qualquer um ) motivo de riso para algemas inúteis.  


A.M.

domingo, 5 de outubro de 2025

DIREITA   DELÍRIO


A extrema direita no Brasil vem cursando com e através de linhas subjetivas delirantes. São afetos de destruição ocultos por fundamentalismos de toda ordem.

Não se sabe quando isso começa, mas é possível situar em 2018. Ou 2013? Não que não atuasse antes, mas 2018 é o ano em que as fake news são alavancadas por uma candidatura à presidência que se tornou vitoriosa. 

Existe hoje apenas o fato histórico da produção internética de uma visão de mundo marcada por valores antigos e autoritários.

No fundo, uma recusa à democracia burguesa se tece na intentona de um golpe de estado.

Assim o delírio da extrema direita fabrica suas metástases. Entre elas uma erosão de sentido invade a ideia de democracia e normatiza a subjetividade individuada do cidadão de bem. Um eu fica à deriva e o vazio da política se instaura.

Surge a figura caricata do patriota delirante. E os lideres dessa corrente neo-nazi-fascista se aproveitam. Extraem mais-valia de prestigio e promessas para, no caso brasileiro, um voto secreto em 2026. A insanidade dos canais da internet é vista apenas como progresso tecnológico e expressão da liberdade .

O delírio à céu aberto.   


A.M.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

MULTIPLICIDADES

Escrevemos "O anti-édipo" a dois. Como cada um de nós era vários, já era muita gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante. Distribuímos hábeis pseudônimos para dissimular. Por que preservamos nossos nomes? Por hábito, exclusivamente por hábito. Para passarmos despercebidos. Para tornar imperceptível, não a nós mesmos, mas o que nos faz agir, experimentar ou pensar. E, finalmente, porque é agradável falar como todo mundo e dizer o sol nasce, quando todo mundo sabe que essa é apenas uma maneira de falar. Não chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU. Não somos mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados.

(...)

G. Deleuze e F. Guattari in Mil Platôs, vol. 1