domingo, 17 de julho de 2011

DIANA KRALL

Conceito de personalidade?

Os Transtornos da Personalidade deveriam ter como ponto de partida o conceito de personalidade, por sua vez muito maltratado. Em geral, os psiquiatras estudam TP sem esboçar qualquer definição de personalidade. Nem propõem a escolha de uma das suas muito numerosas definições.

C. Sonenreich, G. Estevão e L. Altenfelder - Psiquiatria, propostas, notas, comentários

Fala, Bataille...

Para os burgueses, os operários comunistas são tão feios e sujos como partes sexuais e peludas, ou partes baixas; e cedo ou tarde vai haver uma escandalosa erupção, durante a qual vão rolar cabeças de burguês, nobres  e destituídos de sexo.
Desastres, revoluções e vulcões não fazem amor com os astros.
Os revolucionários e vulcânicas degradações eróticas são antagônicos do céu.
Como os amores violentos, dão-se à revelia da fecundidade.
À fecundidade celeste opõem-se os desastres terrestres que são imagem do amor terrestre sem condição, ereção sem saída nem regra, escândalo e terror.

G. Bataille - do livro O ânus solar

Poesia dia a dia

olho  muito  tempo o  corpo  de  um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas


Ana  Cristina César - do livro  A teus pés

sábado, 16 de julho de 2011

George Benson

O RETORNO À CLÍNICA

Em agosto/2011,  haverá, em Salvador,  a XII Jornada Baiana de Psiquiatria. O tema oficial , "O Retorno à Clínica",  suscitou   um recado  da Clínica... que   aproveito   para  transmiti-lo.
-Oh, Psiquiatria,onde andaste todo esse tempo? Por que voltaste?  Será que voltaste mesmo? Ou tudo  não  passa    de  uma cena (bem ensaiada)  do jogo corporativo?


Antonio Moura

Lembranças de um feiticeiro

Lovecraft faz com que seu herói atravesse estranhos animais, mas enfim penetre nas últimas regiões de um Continuum habitado por ondas inomináveis e partículas inencontráveis. A ficção científica tem toda uma evolução que a faz passar de devires animais, vegetais ou minerais, a devires de bactérias, de vírus, de moléculas e de imperceptíveis. O conteúdo propriamente musical da música é percorrido por devires-mulher, devires-criança, devires-animal, mas, sob toda espécie de influências que concernem também os instrumentos, ele tende cada vez mais  a devir molecular, numa espécie de marulho cósmico onde o inaudível se faz ouvir, o imperceptível aparece com tal: não mais o pássaro cantor, mas a molécula sonora. Se a experimentação de droga marcou todo mundo, até os não-drogados, é por ter mudado as coordenadas perceptivas do espaço-tempo, fazendo-nos entrar num universo de micropercepções onde os devires moleculares vêm substituir os devires animais.

Deleuze-Guattari - Mil platôs

PERDER TEMPO

Atualmente, que instituição não é solidária com uma leitura "racional" do capitalismo, que o relaciona com uma essência estável de onde resultaria a regra do seu desenvolvimento? (...) (...) Puro movimento de autodeterminação cujo termo, a subsunção total do social, é a verdade do começo, cuja consequência é o fundamento, cujo efeito é a causa.
(...) Diante do processo capitalista, a racionalidade científica aparece, então, como um álibi, um refúgio, a tentativa desesperada de cercar de definição aquilo que desfaz qualquer definição, de determinar através de relações, medidas e equivalências o poder demiúrgico que significa a transformação de todas as  coisas à sua imagem e semelhança.

Isabelle Stengers -  Introdução do livro  Contra-tempo

Debussy - ARABESQUE

"A Exuberância é Beleza" - William Blake

Sempre há excesso, porque a irradiação solar, que está na origem de todo crescimento, é dada sem contrapartida: o sol dá sem nunca receber; há então necessariamente acumulação de uma energia que só pode ser desperdiçada na exuberância e na ebulição.

Jean Piel - Introdução à George Bataille - A parte maldita


SE QUISER E GOSTAR

Bebi todo o meu estoque de cupons e depois vendi os vales do hotel por 50 cents pra outro pé-rapado. Tomei mais 5 chopes e fui embora.
Comecei a caminhar. primeiro pro lado norte. Depois pro leste. Aí de novo pro norte. No fim já andava ao lado dos ferros-velhos, onde tudo quanto era carro estragado ficava empilhado. Uma vez um cara me disse: "Cada noite durmo num carro. Ontem foi num Ford, anteontem num Chevrolet. Hoje vai ser num Cadilac".
Encontrei um portão fechado com corrente, mas a grade tinha sido forçada e eu era suficientemente magro pra passar pela fresta existente entre a corrente e o cadeado. Dei uma olhada lá por dentro até encontrar um Cadilac, não sei de que ano. Entrei no banco traseiro e dormi.
Deviam ser umas 6 da manhã quando acordei com os berros daquele garoto. Tinha cerca de 15 anos e estava com o bastão de beisebol de brinquedo na mão:
-Sai daí! Cai fora do meu carro, seu maloqueiro sujo!

Charles Bukowski - Fabulário geral do delírio cotidiano

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os anormais

Acho que podemos dizer, para situar essa espécie de arqueologia da anomalia, que o anormal do século XIX, é um descendente desses três indivíduos, que são o monstro, o incorrigível e o masturbador.

M. Foucault

ESCREVER...

Escrever é entrar na afirmação da solidão onde o fascínio ameaça. É correr o risco da ausência do tempo, onde reina o eterno recomeço. É passar do Eu ao Ele, de modo que o que me acontece não acontece a ninguém, é anônimo pelo fato de que isso me diz respeito, repete-se numa disseminação infinita.

M. Blanchot - O espaço literário

BICHO DE SETE CABEÇAS

Por que o cérebro mente?

O cérebro mente porque 1- ele não é uma organização anatômica estanque; ele muda, a depender das circunstâncias e dos estímulos (internos e externos).; 2- ele incorpora aquilo que se chama "mente" numa espécie de colagem e  reificação de neuro-pesquisas confortadoras do ego;3- ele se beneficia de uma publicidade midiática sensacionalista- cuide do seu cérebro para ser feliz; 4-ele não detém nem produz  a fala da semântica e do sentido, apenas obedecendo ordens neuronais codificadas; 5-ele é utilizado pelo pensamento conservador  como  ilha  de verdade epistemológica a compor modos de subjetivação apassivados; 6-por fim, a sua sofisticação sináptico-neuronal faz por prometer um mundo biopoderoso e ciente das vantagens da razão cínica.

Antonio Moura