Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
PRODUÇÃO SUBJETIVA MIDIÁTICA
O jornalismo é uma bomba aspirante-premente que, recebidas de todos os pontos do globo, cada manhã, são, no mesmo dia, propagadas a todos os pontos do globo no que elas têm ou parecem ter de interessante ao jornalista, tendo em vista o objetivo que ele persegue e o partido de que é a voz. Suas informações, em realidade, são impulsos gradativamente irresistíveis. Os jornais começaram por exprimir a opinião, inicialmente a opinião local de grupos privilegiados, uma corte, um parlamento, uma capital dos quais reproduziam os mexericos, as discussões, os discursos; acabaram por dirigir e modelar a opinião quase a seu bel-prazer, impondo aos discursos e às conversações a maior parte de seus temas cotidianos.
Não se saberá, não se imaginará jamais até que ponto o jornal transformou, enriqueceu e nivelou ao mesmo tempo, unificou no espaço e diversificou no tempo as conversações dos indivíduos, mesmo dos que não lêem jornais, mas que, conversando com leitores de jornais, são forçados a seguir a trilha de seus pensamentos de empréstimo. Basta uma pena para pôr em movimento milhões de línguas (...)
Gabriel Tarde - do livro A opinião e as massas
SERVIDÃO VOLUNTÁRIA
As equipes técnicas em saúde mental tendem a adotar uma atitude de reverência passiva em torno do psiquiatra, mesmo que este seja um completo idiota. O que etá em jogo é o papel técnico-profissional e o lugar de poder exercidos como dado natural. As consequências do fato para a pesquisa sobre a loucura e na relação de atendimento ao paciente, são desastrosas, para dizer o minimo. As origens desta excrecência institucional são evidentes. Basta pensar um pouco à respeito...
Antonio Moura
CAUSA E EFEITO
Sobre este espelho - e o nosso intelecto é um espelho - passa-se qualquer coisa de regular, sempre uma certa coisa se segue a outra - é o que chamamos, quando o percebemos e queremos dar-lhe um nome, causa e efeito, insensatos que somos! Como se tivéssemos compreendido e pudéssemos compreender qualquer coisa! Não temos senão imagens de causa e efeitos! E esta representação imaginada impede justamente de perceber uma relação mais essencial do que a sucessão!
F. Nietzsche - do livro Aurora
A LINHA DO RISCO
Devir é expandir-se, diferenciar-se. Não há, contudo, um suporte institucional para tais ações. Elas arriscam no vácuo o recado de uma novidade incerta. O paciente sem rosto, a vida subjetiva se mostrando às micro-sensibilidades que circulam entre o paciente e o psiquiatra. Escutar, escutar não sob uma grade edipiano-cerebral, mas à espreita do novo, do inesperado, do indeterminado, do bizarro. O acontecimento é uma linha de perigo e também a passagem. Examinar um paciente é encontrá-lo no seu mundo, por mais longínquo que seja. Isso exige tempo, paciência e acima de tudo, ótimas condições de trabalho [1]. Uma ética do Encontro precede toda técnica. A desnaturalização do paciente é correlata ao desaparecimento do eu-psiquiatra [2]. Este se torna outra coisa à serviço da diferença, uma dobra existencial que se desdobra em outra, em outras, em outros (...)
FRANCIS BACON e o Papa
PINTAR AS FORÇAS
Tudo está, então, em relação com forças, tudo é força. É isso que constitui a deformação como ato de pintura: ela não se deixa reduzir a uma transformação da forma, nem a uma decomposição dos elementos. E as deformações de Bacon são raramente coagidas ou forçadas, não são torturas, apesar do que se diz: ao contrário, são as posturas mais naturais de um corpo que se reagrupa em função da força simples que se exerce sobre ele, vontade de dormir, de vomitar, de se virar, de ficar sentado o mais tempo possível, etc.
G. Deleuze - do livro Francis Bacon - lógica da sensação
domingo, 19 de fevereiro de 2012
PRODUÇÃO DE CONSUMO
O circuito do capital compreende a produção e o consumo de produtos (mercadorias) como linhas de montagem amalgamadas em subjetivações incessantes. Isso implica em dizer que produção e consumo vivem juntos. Um exemplo simples é o dos psicofármacos. A produção de psicofármacos necessita do consumo de psicofármacos. Ora, quem os consome? O paciente, óbvio. Então, produzir o consumo, produzir o paciente, ou mais precisamente, produzir uma subjetividade-paciente é essencial para manter o circuito de troca em permanente funcionamento. Existe uma saída?
Antonio Moura
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