sábado, 18 de agosto de 2012

EDU LOBO e CHICO BUARQUE - Beatriz


O TEMPO DOS DEVIRES

A clínica da diferença em psicopatologia busca conectar elementos existenciais patológicos com os não-patológicos. Isto significa, antes de tudo, trabalhar com a noção de Contexto. Há uma trama de relações, linhas, signos, códigos, fluxos de toda ordem que se inscreve no tempo de Cronos, o da história pessoal e dos relógios. Há um endurecimento do presente. Ao contrário, o paciente pode ser visto como uma multiplicidade singular que se conecta com outras multiplicidades, inclusive aquelas do seu próprio "interior psíquico". Há muitos eus. Escapam de Cronos, e uma concepção do tempo como passado e futuro se afirma no presente dos corpos; é o Aion a que se refere Deleuze. Buscamos, então, saídas aos impasses existenciais atuais, ao invés de exumar representações fixas do passado.  Falamos  de uma clínica do Acontecimento. O acontecimento é o sentido a ser produzido. Qual o sentido (ou quais os sentidos) para a sua vida? A questão dos psicofármacos, tão debatida neste blog, constituirá  uma das multiplicidades em jogo, e por isso, não concebida como algo bom ou mau, mas enquanto um dado que favoreça e impulsione os devires (processos do desejo). Tarefa difícil, sabemos, tal é a medicalização  da sociedade . Mas, não impossível...

A.M.

HECTOR CARYBÉ

afrobrasil
poesia na veia- 9

estava em marte
quando o celular toca
desconhecido

lembrou que a terra
era azul

e não atendeu

A.M.
A ERA DO CINISMO

O uso exclusivo e disseminado dos psicofármacos diante de problemas sociais/existenciais faz por esvaziar as linhas do desejo.Ou seja, as forças desejantes vão sendo substituídas por forças de sobrevivência. Sobreviver, sobreviver ao custo da aparente morte do desejo.Na outra ponta das relações de poder, o Cinismo intensifica sua circulação impessoal e naturalizada, afirmando-se  como marca registrada do humanismo capitalista. A medicina psiquiátrica referenda tal cinismo e o  converte ao ideário clínico de ajuda ao paciente e à retórica oca das políticas de saúde mental.

A.M.

SILVIA MACHETE - Simplesmente mulher

LOUCURAS  GRUPAIS

(...) (...) A que interesses atende o  grupo? Pode  ser  o interesse do Estado, querendo   suas  apacs para justificar a assistência. O que  mais? O interesse da  sociedade como um todo e o seu  senso comum para saber como andam  (e o que  fazem ) com seus  loucos. Ao contrário, acreditamos que o  grupo deve atender aos  interesses da loucura. Entendemos esta como a conduta libertária avessa aos domínios do Estado e dos seus aparelhos  conexos. Nenhum romantismo. A loucura, na verdade, não tem e não vive de interesses. Ela vive do desejo, é o desejo espraiando-se em produções ao acaso dos encontros. Tal definição alcança o campo do impessoal. Portanto, não falamos do louco, mas da loucura que poderá se encarnar, aí sim, num suposto louco. Pois o desejo está em toda a parte onde se trabalha com o louco. Ressoa a questão: que linhas o desejo percorre ou, ao contrário,  estagna quando  o louco se diz  (ou dizem) que  ele  é doente? Por fim, a análise de um grupo técnico compreende  as linhas e as práticas que o desejo percorre. A equipe técnica é composta por linhas de desejo e práticas que lhe são  co-extensivas. Ela  demanda uma análise político-institucional das suas operações cotidianas.
(...)
A.M. - do texto Grupos e caos, a ser publicado

LOUIS ARMSTRONG - Cabaret


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

QUEM SUPORTA?

(...) (...) O poder  como  fundo  opaco, a aura da  felicidade  humanista de  servir ao próximo, o culto à ciência como artigo de fé, o respeito  contrito  à  academia, que mais será a ciência  do  cérebro? Deus  meu, livrai-nos de todo  o mal não explicável por  conexões cerebrais. Contudo, isso é  fácil de provar: não pense. Falemos  de outra  coisa: a traição.A política não é bem vista pelos  cientistas. Eles a desprezam  em favor de uma pureza  de princípios  e  métodos .Todos pelo  progresso. Um, dois, três, sigamos a população  serial  de  neurônios aflitos.A questão da psiquiatria, hoje, é a produção de um pensamento único e do acriticismo.  A ciência do cérebro apóia isso,  mas  ela não é a  psiquiatria. Um agenciamento neuro-psiquiatria  é uma  máquina de produzir  mentes. A busca da causa das  doenças  (quais?)  torna-se produção de causas,  portanto, de uma razão  médica . O sistema  límbico, reduto  dos  afetos, molda e é  moldado pelo que  está  fora. Não é possível ver a mente. Ela  compreende  relações e  fluxos que  precedem  coisas e  substâncias. Não existe  O poder. Existem forças dispersas querendo se afirmar. Oh  Nietzsche.
(...)
A.M.
poesia na veia-8

a poesia anda fora de moda
já que a realidade só conta
lamúrias cristãs

ao inverso, o verso fala manso
verdades sem rimas
anãs


A.M.




POÉTICA DA NATUREZA

(...) (...)Assim, a ciência se afirma hoje como ciência humana, ciência feita por homens e para homens. No seio de uma população rica e diversa em práticas cognitivas, nossa ciência ocupa a posição singular de escuta poética da natureza - no sentido etimológico em que o poeta é um fabricante - exploração ativa, manipuladora e calculadora, mas doravante capaz de respeitar a natureza que ela faz falar. 
(...)
I. Prigogine e I. Stengers - do livro A nova aliança - metamorfose da ciência

PINK FLOYD - Shine on you crazy diamond

O FUNDO SEM FUNDO

"Loucura" não é um conceito médico. Por isso, o modelo biomédico não dá conta da sua complexidade. O recurso a múltiplos saberes e práticas torna-se, pois, irrecusável.

A.M.
TODOS DELIRAM

(...) (...) O delírio  explode a transferência. A psiquiatria, munida  dos  fármacos, também   realiza um empreendimento reducionista. O alvo é o delírio como sintoma. Se riscarmos os  limites, o encontro dar-se-á com elementos que  extravazam o quadro da clínica psicopatológica, o que torna  possível a produção de uma clínica voltada  aos problemas reais do cotidiano. Neste  sentido, encontrar é ir ao não-patológico até então misturado ao patológico.  Desejar  é  encontrar   na  medida  em que o desejo produz  o real, realidade, realidades  e não fantasmas. Assim, ir além da clínica é não se aprisionar aos fantasmas que pululam nas categorias do pensamento da  representação. Este é o modelo do pensamento da psiquiatria e  dos  saberes  que  lhe  servem  de  apoio  teórico, operacional e político.
(...)
A.M.

SALVADOR SEM DOR