segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

VIKTOR TSYGANOV


QUAL A  ÉTICA?

Há um dualismo político estreito e sórdido que põe Lula versus PSDB e vice-versa. Não trabalhamos (no pensamento) com essas categorias...até porque elas obstruem o pensar.

A.M.

O ensino da gramática

Rubem Fonseca



Você está triste?

Não sei. Talvez.

Tristeza dá câncer, sabia?

Pensei que dava verruga no nariz.

Estou falando sério.

Ultimamente você vive falando sério.

Quando eu brincava você reclamava.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Você colocou vírgula depois de mar.

Estou falando, não estou escrevendo.

Mas na sua fala tinha uma vírgula depois de mar?

Não. Você está fazendo uma análise sintática e morfológica da frase?

Na frase há o uso da figura de sintaxe chamada elipse.

Chega. É por coisas assim que eu não quero mais viver com você.

Porque eu sei gramática e você não?

Entre outras coisas.

Não gosta mais de foder comigo?

Usarei uma elipse aqui. Ou melhor, uma zeugma.

Zeugma é um substantivo masculino.

Um zeugma, então.

Significando?

Que é fácil subentender.

Subentender por que você não gosta mais de foder comigo?

Precisamente. Pensa.

Estou pensando e não consigo.

Pensa em nós dois na cama.

Você sempre se manifesta pomposamente na hora do orgasmo.

Pomposamente? Explica.

Exibição de magnificência sensual. Mímica.

Mímica?

Mímica. Muito bem-feita.

Vou fazer as malas. Diga: já vai tarde.

Já vai tarde.

E esses olhos úmidos de lágrimas?

Mímica.

Acho que vou ficar mais um pouco.

Um pouco?

Uns dias.

Dias?

Pensando bem, uns meses. Mas você me ensina gramática durante esse tempo.

Então deixa de ficar triste.

Tenho uma razão. Já estou com câncer.

Jura?

Juro. Pulmão. O cigarro.

Meu amor, vou cuidar de você.

Mas antes me ensina gramática


Texto extraído de "Axilas e outras histórias indecorosas", de Rubem Fonseca, Editora Nova Fronteira - 2011

domingo, 23 de dezembro de 2012

CHICO BUARQUE - Cotidiano



A EXPERIÊNCIA POÉTICA

Quem sonda o verso escapa ao ser como certeza, reencontra os deuses ausentes, vive na intimidade dessa ausência, torna-se responsável por  ela, assume-lhe o risco e sustenta-lhe o favor. Quem sonda o verso deve renunciar a todo e qualquer ídolo, tem que romper com tudo, não ter a verdade por horizonte nem o futuro por morada, porquanto não tem direito algum `a esperança, deve, pelo contrário, desesperar. Quem sonda o verso morre, reencontra a sua morte como abismo.
(...)
Maurice Blanchot - do livro O espaço literário.

Enviado por Ricardo Noblat - 23.12.2012 | 15h04m
POLÍTICA
A receita de veneno do comissariado
Elio Gaspari, O Globo

Lula e José Dirceu, bem como os comissários Gilberto Carvalho e Rui Falcão, mostraram-se dispostos a botar povo na rua para defender o que chamam de “nosso projeto”.
A ideia é tirar a nação petista do inferno astral em que se meteu com o ronco das praças. Deveriam pensar duas vezes. Talvez três, consultando-se com o senador Fernando Collor de Mello.
Em agosto de 1992, ainda na Presidência, acossado por denúncias de roubalheiras, ele foi à televisão e pediu ao povo que o defendesse, vestindo verde e amarelo no dia 7 de setembro. A garotada ouviu-o e saiu por aí vestindo luto, com as caras pintadas. Em dezembro, Collor renunciou à Presidência.
O que vem a ser o “nosso projeto” em cuja defesa o comissariado quer gente na rua? O pedaço dos dez anos de mandarinato petista que garantem popularidade a Lula e à doutora Dilma nada tem a ver com o infortúnio dos mensaleiros e dos jardins de Rose Noronha.
Há gente disposta a sair às ruas para defender muitas iniciativas realizadas pelo PT desde 2003, mas, se o comissariado acredita que conseguirá uma mobilização popular para proteger delinquentes condenados pelo Supremo Tribunal ou apanhados pela Polícia Federal, pode estar apostando numa radicalização suicida.
O repórter José Casado acompanhou três comícios de Lula durante a última campanha eleitoral. Viu-o nas praças de São Bernardo, Santo André e Diadema. Em cada uma delas, havia algo em torno de duas mil pessoas. Dois terços da audiência eram compostos por uma plateia que havia chegado em ônibus fretados por comissários.
Casado tirou uma prova perguntando a vendedores de água como ia a féria. Muito mal.
Se a ideia é botar povo na rua sem ônibus de prefeituras, dispensando a infraestrutura da Viúva, tudo bem. Se acreditam que podem usar esses recursos sem que ninguém perceba, enganam-se. Produzirão apenas mais situações escandalosas.









DISFARCES CARTESIANOS

(..) (...) O dualismo mente-corpo, em psicopatologia clínica, é  “resolvido”pela  presença do eu enquanto coordenador das ações subjetivas  no mundo. Deste  modo, a partir  da indagação “quem  fala?”  insinua-se o eu  enquanto  modo de responder a interpelação  psiquiátrica.  No lugar  do  cérebro, o eu. Assim se produz o modelo  do  homem adequado às regras  sociais. Isso   leva  à   implicações diretas  no  funcionamento da clínica e  na  possibilidade de um bom encontro .  Ao  colocar  o eu  como básico  à  enunciação  de  si mesmo,  não  há  condições para o Encontro.   No seu lugar se  instala o Exame psiquiátrico. É que o eu precisa de uma interação  estabelecida   sob  uma  base  técnica, a qual, por sua  natureza  médica, contrai  os elementos não-clínicos numa  grade  de significantes exatos. Pode ser uma tabela para  medir o humor, por exemplo. Tudo vem e volta ao eu. Essa instância põe a psicopatologiacomo clínica neuropatológica  onde o sintoma é considerado o incômodo a ser excluído, deletado. O dualismo mente/corpo se reproduz  na  prática. O movimento é o dos corpos visíveis o qual é barrado via  fármacos. As  imagens estariam  na consciência, espécie  de projeção  do cérebro. Sobre as  imagens, o controle  passa a ser  indireto, se é que há controle. De  qualquer modo, a psiquiatria, nesse ponto, “passa  a bola” à   psicologia, à psicoterapia ou à práticas afins  que deverão completar o serviço de desalienação, e, portanto,  de  volta do  sujeito à realidade. Tais saberes, no  âmbito  do  trabalho multidisciplinar  em Saúde  Mental, acabam por  referendar  um dualismo  teórico que  esconde relações  de poder há  muito tempo  cristalizadas.
(...)
A.M.

ELEGIA 1938 - CAETANO recita DRUMMOND


DO LIMA...

“Em vários tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é alguém, alguém que vê por ele, interpreta as coisas por ele, está atrás dele, invisível!…”  

Lima Barreto in Triste fim de Policarpo Quaresma

abri a porta
saí voando

não era sonho
estava amando


Nildão

ALINE CALIXTO - Opinião



o mensalão
arruína a flor genética 
saída da ética

deixa uma geração cínica
rindo de si mesma

A.M.

MENTE OU CORPO?

(...) (...)Correlata à consciência, a questão mente-corpo atravessa o pensamento clínico-psiquiátrico. Ela está ligada à pesquisa  etiológica dos transtornos  mentais. As teorias se  fizeram  a  partir de um dado primário que é o da  clínica, ou seja, da  observação do paciente. Mas o conceito de alienação, vindo da  filosofia, abstrai para a consciência  o que se constata na  prática. O paciente, em maior ou  menor grau, está  fora de si  mesmo, padecendo de uma espécie  de  consciência  alienada. Torna-se estrangeiro  de  si. Cabe  a psiquiatria recolocá-lo  no lugar dele,  desaliená-lo. Esse fato percorre o século XIX sob o nome de alienismo. Num  tempo pré-freudiano, a consciência  abarcava todo o campo  do que se  chama “mente”  ou  “eu”, termos  que acabam  sendo sinônimos, pois atuam  de modo  idêntico. São requisitos nominais para ações médicas de examinar, tratar,reabilitar, julgar, etc...Se a consciência é considerada  “mente”, ela é naturalmente posta em oposição ao corpo. Partindo da mente alienada, a psiquiatria  intervêm sobre o corpo. Isso foi descrito exaustivamente por  Foucault  e outros  autores em relação  às  práticas de repressão e tortura ao longo do século XIX. Dir-se-ia que a  psicopatologia  vai se constituindo como uma consciência sem corpo, ou uma mente sem corpo. Tal vazio  foi   preenchido com as pesquisas  médicas à respeito da  sífilis cerebral. O cérebro avariado seria ou deveria ser o corpo próprio à psicopatologia.
(...)
A.M.


MACONHA O CARALHO: LIBER (T) EM A ARTE!

Liberem a arte!
Para os pobres,
para os vadios,
para os desempregados,
para os malucos.

Liberem a arte
– Libertem a arte!

A arte dos chatos
A arte dos burros
A arte dos burgos

Presas em feudos
Presas em quadros
Presas em livros
Presa entre as presas do capital.

Pare de vender sua arte.
Plante-a, colha-a, dissemine-a,
Mas não se alimente dela.

A arte que saiu não volta.
A arte que saiu é livre.
A arte que saiu de você
Não reencarna em dinheiro.
A arte que saiu só quer ser arte.

Viva a arte e deixe a arte respirar.
Viva-a!, e deixe-a respirar.
Canção que ecoa, luz da poesia,
Nada disso é mercadoria.

Maconha o caralho:
liber(t)em a arte!


Sobre a Autora:
Érica Prado tem 17 anos, escreve no blog " A Decadência do Anjo".