Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
O ensino da gramática
Rubem Fonseca
Você está triste?
Não sei. Talvez.
Tristeza dá câncer, sabia?
Pensei que dava verruga no nariz.
Estou falando sério.
Ultimamente você vive falando sério.
Quando eu brincava você reclamava.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
Você colocou vírgula depois de mar.
Estou falando, não estou escrevendo.
Mas na sua fala tinha uma vírgula depois de mar?
Não. Você está fazendo uma análise sintática e morfológica da frase?
Na frase há o uso da figura de sintaxe chamada elipse.
Chega. É por coisas assim que eu não quero mais viver com você.
Porque eu sei gramática e você não?
Entre outras coisas.
Não gosta mais de foder comigo?
Usarei uma elipse aqui. Ou melhor, uma zeugma.
Zeugma é um substantivo masculino.
Um zeugma, então.
Significando?
Que é fácil subentender.
Subentender por que você não gosta mais de foder comigo?
Precisamente. Pensa.
Estou pensando e não consigo.
Pensa em nós dois na cama.
Você sempre se manifesta pomposamente na hora do orgasmo.
Pomposamente? Explica.
Exibição de magnificência sensual. Mímica.
Mímica?
Mímica. Muito bem-feita.
Vou fazer as malas. Diga: já vai tarde.
Já vai tarde.
E esses olhos úmidos de lágrimas?
Mímica.
Acho que vou ficar mais um pouco.
Um pouco?
Uns dias.
Dias?
Pensando bem, uns meses. Mas você me ensina gramática durante esse tempo.
Então deixa de ficar triste.
Tenho uma razão. Já estou com câncer.
Jura?
Juro. Pulmão. O cigarro.
Meu amor, vou cuidar de você.
Mas antes me ensina gramática
Texto extraído de "Axilas e outras histórias indecorosas", de Rubem Fonseca, Editora Nova Fronteira - 2011
Rubem Fonseca
Você está triste?
Não sei. Talvez.
Tristeza dá câncer, sabia?
Pensei que dava verruga no nariz.
Estou falando sério.
Ultimamente você vive falando sério.
Quando eu brincava você reclamava.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
Você colocou vírgula depois de mar.
Estou falando, não estou escrevendo.
Mas na sua fala tinha uma vírgula depois de mar?
Não. Você está fazendo uma análise sintática e morfológica da frase?
Na frase há o uso da figura de sintaxe chamada elipse.
Chega. É por coisas assim que eu não quero mais viver com você.
Porque eu sei gramática e você não?
Entre outras coisas.
Não gosta mais de foder comigo?
Usarei uma elipse aqui. Ou melhor, uma zeugma.
Zeugma é um substantivo masculino.
Um zeugma, então.
Significando?
Que é fácil subentender.
Subentender por que você não gosta mais de foder comigo?
Precisamente. Pensa.
Estou pensando e não consigo.
Pensa em nós dois na cama.
Você sempre se manifesta pomposamente na hora do orgasmo.
Pomposamente? Explica.
Exibição de magnificência sensual. Mímica.
Mímica?
Mímica. Muito bem-feita.
Vou fazer as malas. Diga: já vai tarde.
Já vai tarde.
E esses olhos úmidos de lágrimas?
Mímica.
Acho que vou ficar mais um pouco.
Um pouco?
Uns dias.
Dias?
Pensando bem, uns meses. Mas você me ensina gramática durante esse tempo.
Então deixa de ficar triste.
Tenho uma razão. Já estou com câncer.
Jura?
Juro. Pulmão. O cigarro.
Meu amor, vou cuidar de você.
Mas antes me ensina gramática
Texto extraído de "Axilas e outras histórias indecorosas", de Rubem Fonseca, Editora Nova Fronteira - 2011
domingo, 23 de dezembro de 2012
A EXPERIÊNCIA POÉTICA
Quem sonda o verso escapa ao ser como certeza, reencontra os deuses ausentes, vive na intimidade dessa ausência, torna-se responsável por ela, assume-lhe o risco e sustenta-lhe o favor. Quem sonda o verso deve renunciar a todo e qualquer ídolo, tem que romper com tudo, não ter a verdade por horizonte nem o futuro por morada, porquanto não tem direito algum `a esperança, deve, pelo contrário, desesperar. Quem sonda o verso morre, reencontra a sua morte como abismo.
(...)
Maurice Blanchot - do livro O espaço literário.
Enviado por Ricardo Noblat - 23.12.2012 | 15h04m
POLÍTICA
A receita de veneno do comissariado
Elio Gaspari, O Globo
Lula e José Dirceu, bem como os comissários Gilberto Carvalho e Rui Falcão, mostraram-se dispostos a botar povo na rua para defender o que chamam de “nosso projeto”.
A ideia é tirar a nação petista do inferno astral em que se meteu com o ronco das praças. Deveriam pensar duas vezes. Talvez três, consultando-se com o senador Fernando Collor de Mello.
Em agosto de 1992, ainda na Presidência, acossado por denúncias de roubalheiras, ele foi à televisão e pediu ao povo que o defendesse, vestindo verde e amarelo no dia 7 de setembro. A garotada ouviu-o e saiu por aí vestindo luto, com as caras pintadas. Em dezembro, Collor renunciou à Presidência.
O que vem a ser o “nosso projeto” em cuja defesa o comissariado quer gente na rua? O pedaço dos dez anos de mandarinato petista que garantem popularidade a Lula e à doutora Dilma nada tem a ver com o infortúnio dos mensaleiros e dos jardins de Rose Noronha.
Há gente disposta a sair às ruas para defender muitas iniciativas realizadas pelo PT desde 2003, mas, se o comissariado acredita que conseguirá uma mobilização popular para proteger delinquentes condenados pelo Supremo Tribunal ou apanhados pela Polícia Federal, pode estar apostando numa radicalização suicida.
O repórter José Casado acompanhou três comícios de Lula durante a última campanha eleitoral. Viu-o nas praças de São Bernardo, Santo André e Diadema. Em cada uma delas, havia algo em torno de duas mil pessoas. Dois terços da audiência eram compostos por uma plateia que havia chegado em ônibus fretados por comissários.
Casado tirou uma prova perguntando a vendedores de água como ia a féria. Muito mal.
Se a ideia é botar povo na rua sem ônibus de prefeituras, dispensando a infraestrutura da Viúva, tudo bem. Se acreditam que podem usar esses recursos sem que ninguém perceba, enganam-se. Produzirão apenas mais situações escandalosas.
DISFARCES CARTESIANOS
(..) (...) O dualismo mente-corpo, em psicopatologia clínica, é “resolvido”pela presença do eu enquanto coordenador das ações subjetivas no mundo. Deste modo, a partir da indagação “quem fala?” insinua-se o eu enquanto modo de responder a interpelação psiquiátrica. No lugar do cérebro, o eu. Assim se produz o modelo do homem adequado às regras sociais. Isso leva à implicações diretas no funcionamento da clínica e na possibilidade de um bom encontro . Ao colocar o eu como básico à enunciação de si mesmo, não há condições para o Encontro. No seu lugar se instala o Exame psiquiátrico. É que o eu precisa de uma interação estabelecida sob uma base técnica, a qual, por sua natureza médica, contrai os elementos não-clínicos numa grade de significantes exatos. Pode ser uma tabela para medir o humor, por exemplo. Tudo vem e volta ao eu. Essa instância põe a psicopatologiacomo clínica neuropatológica onde o sintoma é considerado o incômodo a ser excluído, deletado. O dualismo mente/corpo se reproduz na prática. O movimento é o dos corpos visíveis o qual é barrado via fármacos. As imagens estariam na consciência, espécie de projeção do cérebro. Sobre as imagens, o controle passa a ser indireto, se é que há controle. De qualquer modo, a psiquiatria, nesse ponto, “passa a bola” à psicologia, à psicoterapia ou à práticas afins que deverão completar o serviço de desalienação, e, portanto, de volta do sujeito à realidade. Tais saberes, no âmbito do trabalho multidisciplinar em Saúde Mental, acabam por referendar um dualismo teórico que esconde relações de poder há muito tempo cristalizadas.
(...)
A.M.
DO LIMA...
“Em vários tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é alguém, alguém que vê por ele, interpreta as coisas por ele, está atrás dele, invisível!…”
Lima Barreto in Triste fim de Policarpo Quaresma
MENTE OU CORPO?
(...) (...)Correlata à consciência, a questão mente-corpo atravessa o pensamento clínico-psiquiátrico. Ela está ligada à pesquisa etiológica dos transtornos mentais. As teorias se fizeram a partir de um dado primário que é o da clínica, ou seja, da observação do paciente. Mas o conceito de alienação, vindo da filosofia, abstrai para a consciência o que se constata na prática. O paciente, em maior ou menor grau, está fora de si mesmo, padecendo de uma espécie de consciência alienada. Torna-se estrangeiro de si. Cabe a psiquiatria recolocá-lo no lugar dele, desaliená-lo. Esse fato percorre o século XIX sob o nome de alienismo. Num tempo pré-freudiano, a consciência abarcava todo o campo do que se chama “mente” ou “eu”, termos que acabam sendo sinônimos, pois atuam de modo idêntico. São requisitos nominais para ações médicas de examinar, tratar,reabilitar, julgar, etc...Se a consciência é considerada “mente”, ela é naturalmente posta em oposição ao corpo. Partindo da mente alienada, a psiquiatria intervêm sobre o corpo. Isso foi descrito exaustivamente por Foucault e outros autores em relação às práticas de repressão e tortura ao longo do século XIX. Dir-se-ia que a psicopatologia vai se constituindo como uma consciência sem corpo, ou uma mente sem corpo. Tal vazio foi preenchido com as pesquisas médicas à respeito da sífilis cerebral. O cérebro avariado seria ou deveria ser o corpo próprio à psicopatologia.
(...)
A.M.
MACONHA O CARALHO: LIBER (T) EM A ARTE!
Liberem a arte!
Para os pobres,
para os vadios,
para os desempregados,
para os malucos.
Liberem a arte
– Libertem a arte!
A arte dos chatos
A arte dos burros
A arte dos burgos
Presas em feudos
Presas em quadros
Presas em livros
Presa entre as presas do capital.
Pare de vender sua arte.
Plante-a, colha-a, dissemine-a,
Mas não se alimente dela.
A arte que saiu não volta.
A arte que saiu é livre.
A arte que saiu de você
Não reencarna em dinheiro.
A arte que saiu só quer ser arte.
Viva a arte e deixe a arte respirar.
Viva-a!, e deixe-a respirar.
Canção que ecoa, luz da poesia,
Nada disso é mercadoria.
Maconha o caralho:
liber(t)em a arte!
Sobre a Autora:
Érica Prado tem 17 anos, escreve no blog " A Decadência do Anjo".
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