segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

TROMPAS DE CAÇA

A nossa história nobre e trágica 
como máscara de tirano 
não drama de acaso ou mágica 
nenhum detalhe de engano 
faz patético o amor 

E Thomas De Quincey emborcando 
ópio veneno doce e casto 
de sua Ana triste sonhando 
passemos pois tudo passa 
para trás me irei voltando 

Lembranças trompas de caça 
ecos no vento acabando 

G. Apolinaire

CASTAÑEDA E DON JUAN - RELATOS DE PODER

Se toda a nossa experiência do mundo é a recordação, então não é assim tão absurdo concluir que um feiticeiro possa estar em dois lugares ao mesmo tempo. Não é o caso do ponto de vista da percepção dele, pois, para experimentar o mundo, o feiticeiro, como qualquer outro, tem de recordar o ato que acaba de praticar, o acontecimento que acaba de presenciar, a experiência que acaba de viver. Em sua consciência, só há uma recordação. Mas para um estranho, olhando para o feiticeiro, pode parecer que o feiticeiro está representando dois episódios diferentes ao mesmo tempo. O feiticeiro, porém recorda-se de dois instantes únicos e isolados, porque a cola da descrição do tempo não o prende mais.

Existem três tipos de maus hábitos que usamos repetidamente quando nos defrontamos com situações desconhecidas na vida. Primeiro, podemos não levar em consideração o que está acontecendo ou já aconteceu, e sentir que nunca aconteceu. Isso é o método do fanático. Segundo, podemos aceitar tudo pelas aparências e sentir que sabemos o que se está passando. Esse é o método do devoto. Terceiro, podemos ficar presos a um fato porque não conseguimos desprezá-lo, nem conseguimos aceitá-lo totalmente. Esse é o método do tolo. O seu método? Existe um quarto, o correto, o método do guerreiro. Um guerreiro age como se nada tivesse acontecido, jamais, porque não acredita em nada, e, no entanto aceita tudo pelas aparências. Aceita sem aceitar e despreza sem desprezar. Nunca acha que sabe, nem sente que nada aconteceu. Age como se estivesse controlado, mesmo que esteja tremendo por dentro. Agir desse modo desfaz a obsessão.

Você deve cultivar a idéia de que um guerreiro não precisa de nada. Você tem tudo o que é preciso para a viagem extravagante que é a sua vida. A verdadeira experiência é ser um homem e o que conta é estar vivo; a vida é um desviozinho que estamos seguindo agora. A vida em si é suficiente, auto-explicativa e completa. Um guerreiro compreende isso e vive de acordo; portanto, pode-se dizer, sem presunção, que a experiência das experiências é ser um guerreiro.
(...)



domingo, 19 de janeiro de 2014

SOLIDÃO

Podia ser ela mesma, quando estava só. E era isto que precisava fazer com frequência: pensar. Bem, nem mesmo pensar. Ficar em silêncio; ficar sozinha. E toda a existência, toda a atividade, com tudo que possuem de expansivo, brilhante, vibrante, vocal, se evaporavam. Então podia, com uma certa solenidade, retrair-se em si mesma, no âmago pontiagudo da escuridão, algo invisível para os outros.

Virginia Woolf

ALBERT MARQUET


Um besouro se agita no sangue do poente.
Estou irresponsável de meu rumo.
Me parece que a hora está mais cega.
Um fim de mar colore os horizontes .
Cheiroso som de asas vem do sul.
Eis varado de abril um martim-pescador!
(Sou pessoa aprovada para nadas?)
Quero apalpar meu ego até gozar em mim.
Ó açucenas arregaçadas.
Estou só e socó.

Manoel de Barros

BALLET STAGIUM - 2007 e Quinteto Violado


sábado, 18 de janeiro de 2014

Algo existe

Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.

Emily Dickinson (tradução- Lúcia Olinto)
devires inomináveis

VIOLÊNCIAS DELICADAS

(...) Concebemos  a psiquiatria  antes de tudo como uma  instituição. É deste modo que ela empreende a pesquisa e o exercício da clínica, minorando sofrimentos e ajudando sujeitos a se reorganizarem psiquicamente. Mas é  também deste  modo que ela desenvolve e exerce práticas de segregação e violência. Por isso não é recomendável substancializá-la como sendo uma coisa nem  considerá-la possuidora de uma “ natureza”. Ela é, isto sim,  processo histórico-social inserido em formações  subjetivas concretas. Para  ser possível  enxergar  deste  modo, partimos de outro lugar do pensamento, ainda que estejamos no mesmo lugar, que é o da clinica  psicopatológica. Iremos ao que está   fora das coordenadas da  razão, o Aberto, para daí extrair acontecimentos, mesmo os menores, e, principalmente, quase imperceptíveis. Assim se  descobrem  mundos  subjetivos insupeitos de existir, e que produzem  realidades radicalmente  distintas  das  vigentes. É  o universo da diferença.
(...)
A.M.

WALTER HUGO KOURI - Amor voraz - 1984


MORRE O POETA ARGENTINO JUAN GELMAN

O autor foi um incansável lutador contra a impunidade no período da ditadura militar na Argentina

O escritor e poeta argentino Juan Gelman, vencedor de vários prêmios literários de grande reconhecimento e que viveu 14 anos exilado por causa da ditadura militar em seu país, morreu na terça-feira na Cidade do México, aos 83 anos, informou o Conselho Nacional para a Cultura e as Artes do México. 

O autor, que nasceu em Buenos Aires e morava na capital mexicana há mais de duas décadas, morreu logo após ter sido hospitalizado. A mídia local noticiou uma síndrome mielodisplásica, uma disfunção da medula óssea, como a causa da morte. 

Gelman teve sua obra reconhecida pelo prêmio Rainha Sofía de Poesia Iberoamericana e pelo Prêmio Cervantes, entre outras premiações. Em 1948, ele entrou na universidade de química, que abandonou para se dedicar à poesia e ao jornalismo em tempo integral. 

"Juan Gelman, poeta de alma mexicana, poeta maior, morreu. Meus pêsames ao seus parentes", escreveu o presidente do conselho para cultura e artes do México, Rafael Tovar y de Teresa, em sua conta no Twitter. 

Filho de imigrantes judeus ucranianos, Gelman foi um incansável lutador contra a impunidade no período da ditadura militar na Argentina, durante a qual um de seus filho foi sequestrado e assassinado. 

Após uma busca desesperada, o autor - que viveu no exílio entre 1975 e 1988 em cidades como Roma, Madri, Manágua, Paris, Nova York e Cidade do México-- encontrou sua neta desaparecido no Uruguai.. 
(...)

Fonte: Miguel Argell, Reuters
DEVIRES

(...) Tempere   a  gosma   da  saliva ácida.  Misture os  nomes pérfidos. Diga  que  os  ama. Penetre os  dogmas da   interioridade  mais preciosa. Finja que  está nas esporas dos cavalos   selvagens.  Só  para  assustar os néscios, dirija  para  a  amada  tudo que  você  sempre  sonhou. A condição  é  a de  que  não exista amada, mas  amadas.  Vista-se  de  você  mesmo,  contanto que  seja  você    o primeiro  a se  despir. Saia de   si. Vá para  outros  cantos, entoe  cantigas de parto prematuro no meio da mata.  Jogue  a   metáfora no lixo da linguagem douta. Isso basta. 

A.M.

ALEJANDRO CICARELLI