domingo, 18 de janeiro de 2015

A CHEGADA

Depois de ter cortado todos os braços que se estendiam para mim; depois de ter entaipado todas as janelas e todas as portas; depois de ter inundado os fossos com água envenenada; depois de ter edificado minha casa num rochedo inacessível aos afagos e ao medo; depois de ter lançado punhados de silêncio e monossílabos de desprezo a meus amores; depois de ter esquecido meu nome e o nome da minha terra natal; depois de me ter condenado a perpétua espera e a solidão perpétua, ouvi contra as pedras de meu calabouço de silogismos a investida húmida, terna, insistente, da Primavera.
(...)
Octavio Paz

BRASSAÏ




HAVERÁ UMA SAIDA PARA CHARLIE?

Na França, hoje, além de sermos todos Charlie, somos todos infelizes. Se Muçulmanos, sentimos a discriminação da parte dos franceses, as dificuldades de integração e a tentação de uma saída heroica para o infortúnio. A pior das saídas está retratada no ato terrorista de nossos irmãos que metralharam os chargistas do Charlie Hebdo.
Judeus, sentimos a discriminação secular, um ódio as vezes disfarçado, mas o risco permanente de sermos agredidos na escola, no trabalho, nas ruas e o risco maior de sermos assassinados num super mercado cacher, pelo simples fato de sermos judeus. Temos a oportunidade de mudar para Israel, mas já somos franceses, estamos aqui há gerações, mesmo antes dos aliados terem derrotado o nazismo.
Franceses, sentimos a deterioração da economia e uma incapacidade de retomar níveis compatíveis com nossos hábitos de consumo, de paz, de trabalho e de felicidade. Os imigrantes nos incomodam querendo produzir espaços culturais próprios e diferentes dos nossos. Querem a burca quando nossas mulheres não usam nem mais as boinas no inverno. Concorrem conosco na busca de empregos. Criam um clima ainda maior de instabilidade.
A até nós, turistas, nos sentimos infelizes, porque o infortúnio é uma língua internacional que não poupa as classe sociais, as diferenças de cultura, sexo ou idade. Cada um no seu gênero ou na sua condição sente o desconforto solto no ar.
Mas, se somos todos Charlie numa circunstância eventual de revolta, também somos todos Charlie numa circunstancia permanente de infelicidade. Se reagimos à primeira numa marcha esplendorosa, porque não reagimos à segunda numa atitude solidaria de reconstrução?
Não há uma saída para os muçulmanos, uma saída para os judeus nem uma saída para os franceses. Ou há uma saída para todos ou não há saída para ninguém. O mundo tornou-se um corpo de células muito próximas. Ou se entendem ou se destroem.

Jorge da Cunha Lima , presidente da Aliança Francesa, 17/01/2015

sábado, 17 de janeiro de 2015

CONTRA-CORRENTE

Na clínica da diferença em psiquiatria, o conceito de desejo "empurra" o processo terapêutico para um tempo de instabilidades existenciais. Isto significa considerar 1-a subjetividade como o mundo social que se expressa em sintomas clínicos; 2-o tempo como passagem, travessia, devir, irreversibilidade. Portanto, o que está "doente" é, antes, o mundo em que o paciente vive, o qual, na verdade, é ele mesmo. Este mundo é uma trama de instituições que dá forma e consistência afetiva à subjetividade. Produz sentido, mesmo o mais torpe. Daí ser preciso, com sabedoria, prudência e delicadeza, dissolvê-lo em prol de linhas desejantes voltadas à criatividade. Trata-se da Arte, não como monumento ou mercadoria, mas como estilo, singularidade, o "viver" para além dos códigos estabelecidos. Quem suporta?

A.M.

ALEXEY SLUSAR


PERFEITO

Amigo, não seja um perfeccionista. Perfeccionismo é uma maldição e uma prisão. Quanto mais você treme, mais erra o alvo. Você é perfeito, se se permitir ser.
Amigo, não tenha medo de erros. Erros não são pecados. Erros são formas de fazer algo de maneira diferente, talvez criativamente nova.
Amigo, não fique aborrecido por seus erros. Alegre-se por eles. Você teve coragem de dar algo de si.

Fritz Perls
DOBRAS SUBJETIVAS

(...) Entretanto, sou incapaz de dizer o que é que eu quero, apesar de ansiar pelo que eu espero de alguma forma secreta. Pois muitas vezes, e com frequência cada vez maior, à medida em que o tempo passa, dou comigo de repente a interromper minha andança, como se eu fosse paralisada por um olhar estranho e novo sobre a superfície da terra que conheço tão bem. Um olhar que insinua alguma coisa; mas que se vai antes de perceber seu sentido. É como se um riso nunca visto furtivamente se estendesse num rosto bem conhecido; por um lado dá medo, no entanto por outro ele nos faz um sinal.
(...)
Virginia Woolf

AMY WINEHOUSE - You Know I´m No Good


SEM PERDÃO

O brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, de 53 anos, foi executado na madrugada deste domingo (18) na Indonésia– 15h31 deste sábado (17), pelo horário de Brasília. O método de execução de condenados à pena de morte no país é o fuzilamento.
O instrutor de voo livre havia sido preso em 2004, ao tentar entrar na Indonésia com 13 quilos de cocaína escondidos nos tubos de uma asa delta. A droga foi descoberta pelo raio-x, no Aeroporto Internacional de Jacarta. Archer conseguiu fugir do aeroporto, mas duas semanas depois acabou preso novamente. A Indonésia pune o tráfico de drogas com pena de morte.
Além do brasileiro, foram executados na ilha de Nusakambangan, Ang Kiem Soe, um cidadão holandês; Namaona Denis, um residente do Malawi; Daniel Enemuo, nigeriano, e uma cidadã indonésia, Rani Andriani. Outra vietnamita, Tran Thi Bich Hanh, também seria executada em Boyolali, na Ilha de Java.
(...)
Fonte:Globo.com,,G1 em S.Paulo,18/01/2015,17:01 hs
TEMPO DE ASSASSINOS 

A criança é um personagem conceitual (Deleuze-Guattari). Ela usa a alegria, a velocidade, o inconformismo, a espontaneidade, a criatividade, e acima de tudo, o ateísmo, como linhas de potência. Por isso, e muito mais, é traída, espancada, humilhada e trucidada nos quatro cantos da Terra.

A.M.
SILÊNCIO

(...) Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!

Rubem Alves

NEDERLANDS DANS THEATER


FORÇAS

Há momentos em que a maior sabedoria é parecer não saber nada. Por isso, quando capaz, finja então ser incapaz; quando pronto, finja grande desespero; quando perto, finja estar longe; quando longe, façam acreditar que está próximo.

Sun Tzu
RIZOMA:O MÉTODO

(...) Princípios de conexão e de heterogeneidade: qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto, uma ordem. A árvore lingüística à maneira de Chomsky começa ainda num ponto S e procede por dicotomia. Num rizoma, ao contrário, cada traço não remete necessariamente a um traço lingüístico: cadeias semióticas de toda natureza são aí conectadas a modos de codificação muito diversos, cadeias biológicas, políticas, econômicas, etc., colocando em jogo não somente regimes de signos diferentes, mas também estatutos de estados de coisas. Os Agenciamentos coletivos de enunciação funcionam, com efeito, diretamente nos agenciamentos maquínicos, e não se pode estabelecer um corte radical entre os regimes de signos e seus objetos. Na lingüística, mesmo quando se pretende ater-se ao explícito e nada supor da língua, acaba-se permanecendo no interior das esferas de um discurso que implica ainda modos de agenciamento e tipos de poder sociais particulares. A gramaticalidade de Chomsky, o símbolo categorial S que domina todas as frases, é antes de tudo um marcador de poder antes de ser um marcador sintático: você constituirá frases gramaticalmente corretas, você dividirá cada enunciado em sintagma nominal e sintagma verbal (primeira dicotomia...). Não se criticarão tais modelos lingüísticos por serem demasiado abstratos, mas, ao contrário, por não sê-lo bastante, por não atingir a máquina abstrata que opera a conexão de uma língua com os conteúdos semânticos e pragmáticos de enunciados, com agenciamentos coletivos de enunciação, com toda uma micropolítica do campo social. Um rizoma não cessaria de conectar cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais. Uma cadeia semiótica é como um tubérculo que aglomera atos muito diversos, lingüísticos, mas também perceptivos, mímicos, gestuais, cogitativos: não existe língua em si, nem universalidade da linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoás, de gírias, de línguas especiais. Não existe locutor-auditor ideal, como também não existe comunidade lingüística homogênea. A língua é, segundo uma fórmula de Weinreich, "uma realidade essencialmente heterogênea". Não existe uma língua-mãe, mas tomada de poder por uma língua dominante dentro de uma multiplicidade política. A língua se estabiliza em torno de uma paróquia, de um bispado, de uma capital. Ela faz bulbo. Ela evolui por hastes e fluxos subterrâneos, ao longo de vales fluviais ou de linhas de estradas de ferro, espalha-se como manchas de óleo¹. Podem-se sempre efetuar, na língua, decomposições estruturais internas: isto não é fundamentalmente diferente de uma busca das raízes. Há sempre algo de genealógico numa árvore, não é um método popular. Ao contrário, um método de tipo rizoma é obrigado a analisar a linguagem efetuando um descentramento sobre outras dimensões e outros registros. Uma língua não se fecha sobre si mesma senão em uma função de impotência.
(...)
G.Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 1

DMITRY SPIROS