quinta-feira, 12 de outubro de 2017

PARA O ACOLHIMENTO NUM CAPS

(...)
O paciente sem rosto, a vida subjetiva se mostrando às micro-sensibilidades que  circulam  entre o paciente e o psiquiatra. Escutar, escutar não  sob uma  grade edipiano-cerebral, mas à espreita do novo, do inesperado, do indeterminado, do bizarro. O acontecimento  é  uma linha  de perigo e também a passagem.  Examinar um paciente é encontrá-lo no seu  mundo, por mais longínquo que seja. Isso exige tempo, paciência e acima de tudo, ótimas condições de trabalho.Uma ética do Encontro precede toda técnica.A desnaturalização do paciente é  correlata ao desaparecimento do eu-psiquiatra.Este se torna outra coisa à serviço da  diferença,  uma  dobra existencial  que se desdobra em outra, em outras, em  outros.   

A.M.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

DORIA  DESPENCA

Dois dados chamaram especial atenção na mais recente pesquisa feita pelo Datafolha na cidade de São Paulo. Em pouco mais de nove meses de gestão, a aprovação do prefeito João Doria despencou nove pontos percentuais —foi de 41% para 32%. A grossa maioria declara que não votaria em Doria para presidente da República de jeito nenhum: 55%. Foi como se o eleitor recordasse a Doria que ele foi eleito para ser prefeito, não presidenciável.

Aconteceu com Doria um fenômeno muito comum entre os políticos. O sujeito acha que é uma coisa, mas sua imagem indica que ele já é outra coisa. O paulistano elegeu no primeiro turno, um homem de negócios supostamente avesso à corrupção, que prometia dissolver a ineficiência da prefeitura governando em ritmo empresarial. Por ora, não colou.

Doria criou a fábula do “não-político.” Mas seu comportamento fez os eleitores perguntarem para os seus botões: é ou não é um velho lobo da política, como tantos outros. Aos pouquinhos, o paulistano foi percebendo que as orelhas do prefeito são de lobo. O focinho é de lobo. Os dentes são de lobo. Ficou difícil para Doria sustentar a fantasia de que é uma vovozinha disfarçada.

Do Blog do Josias de Souza, 10/10/2017, 00:07 hs
As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade 

ANGELA RO RO - Simples Carinho


TEMPOS DE FASCISMO

(...)
Para quem não sabe, a série Handsmaid’s tale – que ainda não está sendo exibida no Brasil – fala de uma sociedade futura, dominada por fanáticos religiosos. Eles são contra os gays, contra as lésbicas, contra as feministas, contra a liberdade, contra o sexo, contra a cultura e contra a ciência. No inferno devocional criado por eles, as mulheres são submetidas pela violência a condições bíblicas de ignorância, obediência e servidão. A protagonista da série (a espantosa Elisabeth Moss, de Mad men) é mantida como uma espécie de animal doméstico por uma família poderosa, por ainda ser capaz de engravidar, enquanto a maioria das mulheres não consegue mais. Ela deve procriar com o chefe da casa, o comandante, sob o olhar vigilante e ciumento da mulher estéril dele.
(...)

Ivan Martins, Época, 04/10/2017, 06:01 hs

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Direito? O que é 'direito'? Uma linha pode ser direita, ou uma rua. Mas o coração de um ser humano?

Tennessee Williams

ALEXEY SLUSAR


A MEDICINA CURA? (VI)

A Medicina pode (e deve) ser considerada uma forma social (instituição e não organização) que se inscreve subjetivamente no modo como as pessoas, em geral, enxergam o mundo e a si mesmas. Obviamente, essa instituição, que tantos serviços prestou e presta a humanidade, deve ser respeitada, mas não reverenciada e/ou idolatrada. O conceito de progresso, que alimenta o positivismo científicista, constitui o motor da instituição médica. Ao longo da fabricação da crença única de que a medicina caminha para o topo das soluções dos problemas da humanidade, bem como critalizando a equação medicina=saúde como axioma da felicidade universal, a medicalização da sociedade faz por despolitizar os próprios usuários dos serviços de saúde. Eles se tornam meros consumidores das tecnologias médicas, ante as quais se dobram afetiva e intelectualmente, tal a complexidade crescente dos procedimentos, bem como a experiência-na-carne da ultra-fragmentação do organismo considerado doente. O especialismo autoritário se afirma como destino inelutável. Mas, e o SUS? No país do SUS, as necessidades mais elementares (alimentação, educação, emprego, habitação, segurança) à população serializada pelo abismo entre as classes sociais, são substituídas pela consulta meia-boca, simulacro da relação médico-paciente, esta sim a "essência"da prática médica.


A.M.


Obs.: Texto republicado
TUDO LEGAL

O cenário bucólico do interior do colorado de repente se transforma. Carros fuzilados, bonecos simulando gente ensanguentada, avisos de perigo. Tudo parte do show do Dragon Man, que se intitula o homem mais armado dos Estados Unidos.
O arsenal dele é impressionante: mais de 3 mil armas, de todos os tipos e tamanhos. Na porta de casa, três tanques de guerra e cerca de 90 veículos militares. Quatro bombas de quase meia tonelada, igual às que foram usadas na guerra do Vietnã e um item que ele faz questão de mostrar: um lança chamas.
Só metralhadoras o Dragon Man tem mais de 200. Todas funcionando, todas no nome dele. No Colorado, isso é perfeitamente legal. Uma pessoa pode ter quantas armas conseguir comprar.
"todo mundo ama armas. Meu pai amava, era um colecionador. É liberdade, é como a gente vive aqui”, diz ele.

Fantástico, Globo.com, 08/10/2017, 23:40 hs

domingo, 8 de outubro de 2017

Muitos ortodoxos falam como se fosse obrigação dos céticos contraprovar dogmas consagrados, e não dos dogmáticos comprová-los. Isso é, claro, um equívoco. Se eu sugerisse que entre a Terra e Marte há um bule de chá chinês rodando em torno do Sol numa órbita elíptica, ninguém seria capaz de contraprovar minha afirmação, desde que eu tenha tido o cuidado de acrescentar que o bule é pequeno demais para ser revelado até pelos nossos telescópios mais potentes. Mas, se eu prosseguisse dizendo que, como minha afirmação não pode ser contraprovada, é uma presunção intolerável por parte da razão humana duvidar dela, imediatamente achariam que eu estava falando maluquices. Se, porém, a existência do bule tivesse sido declarada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todos os domingos e instilada na cabeça das crianças na escola, a hesitação em acreditar em sua existência se tornaria um traço de excentricidade e garantiria ao questionador o atendimento por psiquiatras numa era esclarecida ou por um inquisidor em eras anteriores.
(...)

Bertrand Russell
DISCRETO

ninguém  notava
seu jeito reto
sua fisionomia de cera
suas ideias fixas 
seu nariz de pedra
sua ordem unida
sua identidade

mas em silêncio
sofria uma doença mortal

era  um  normal


A.M.
O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite apos noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes.
O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo.
(...)

Eduardo Galeano