quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

PAVEL MITKOV


O MONÓLOGO DA PSIQUIATRIA BIOLÓGICA

No exame do paciente, a psiquiatria biológica chama de sintomas positivos aqueles sintomas  expressos claramente. Ex.: diz o paciente: "eu sou o apocalipse". Por outro lado, sintomas negativos são os que não são expressos. O paciente se mostra negativista, mudo, olhar vago, não coopera, enfim. Ora, tal raciocínio é uma das maiores vergonhas da semiologia clínica em psicopatologia. Primeiro, porque não existe o não expresso. A  não expressão é uma expressão, assim como não existe o não afeto. O não afeto é um afeto. Segundo, porque a linguagem não é apenas verbal, podendo ser não-verbal, corporal, dramática, enfim, a-significante. Terceiro, porque baseada na não cooperação do paciente ("ele não se comunica") a psiquiatria justifica o uso indiscriminado de psicofármacos aparentemente para fazê-lo se comunicar. Ou seja, não tem diagnóstico, mas o paciente tem que falar, tem que dizer algo, tem que responder à interpelação psiquiátrica. Quarto, porque os modos de subjetivação não obedecem a uma lógica da consciência ou da racionalidade. Sendo assim, eles podem passar ao largo do olhar psiquiátrico. Ou até ameaçar o saber/poder psiquiátrico.Quinto, porque o exame tende a ser um fracasso da percepção médica em termos da realidade subjetiva, já que o paciente se apresenta como máquina que não funciona, mecanismo inerte, travado, entupido, quando sabemos que tudo está funcionando, talvez não do modo como a psiquiatria gostaria. Sexto, curiosamente, mas sem uma neuro-explicação, os psicofármacos costumam ser mais "eficientes" nos casos de sintomas positivos, enquanto que quanto aos sintomas negativos nada muda, nada melhora, exceto o rechaço cada vez maior à figura do psiquiatra remedeiro.

A.M.


P.S. - Texto ampliado e republicado.

MARINA LIMA - Criança

No lugar da árvore, o corpo.



Somos arbustos nus,

nós os dois aqui. deitados.



Os dedos a viverem ao contrário dentro da mão

(nós aqui somos arbustos invejados)



Pernas a ganharem força

braços deformados à laia de tronco de corpo

(nós a sermos folha, nós a sermos casca onde

pequenos bichos constróem o seu lar)



Nós, os bonitos arbustos

viemos os dois

da vagina da mesma árvore.



Inês Leitão
Em religião e política as crenças e convicções das pessoas são, na maioria das vezes, adquiridas de segunda-mão, e sem examinação, de autoridades as quais elas mesmas não examinaram a questão a fundo mas as adquiriram também de segunda-mão de outros não-examinadores, cujas opiniões sobre elas não valem um peido de peixe.

Mark Twain

AS INVASÕES BÁRBARAS, direção de Denys Arcand, 2003

No meu julgamento, o sexo foi mais bem entendido, mais bem expressado no mundo pagão, no mundo dos primitivos e no mundo religioso. No primeiro, era exaltado no plano estético; no segundo, no plano mágico, e no terceiro, no plano espiritual. Em nosso mundo, onde apenas o nível bestial impera, o sexo funciona num vazio.
(...)

Henry Miller
OS BRASILEIROS NÃO VIVEM, APENAS SOBREVIVEM

Um estudo do Grady Trauma, projeto ligado ao Grady Memorial Hospital e Emory University School of Medicine, de Atlanta, nos Estados Unidos, concluiu que 46% dos moradores de bairros pobres daquela cidade sofrem de transtorno do estresse pós-traumático. Essa desordem mental, normalmente associada a vivências de guerra, só há pouco passou a ser estudada também em populações civis submetidas à violência urbana. O índice é absurdamente maior que o identificado entre veteranos dos conflitos do Iraque (11%) e do Afeganistão (20%).

Agora, os pesquisadores estão analisando as implicações clínicas e psicológicas decorrentes desse transtorno, especificamente em populações infantis. Eles já descobriram que o cérebro das crianças expostas à violência urbana cresce mais rapidamente, o que as leva a ter dificuldades de aprendizagem e para construir relacionamentos afetivos e as tornam mais propensas a desenvolver depressão e se envolver com drogas. Atlanta, com 435 mil habitantes, é a oitava cidade mais violenta dos Estados Unidos, com 14,3 assassinatos por 100 mil habitantes.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que a taxa por aqui é de 29,9 homicídios por 100 mil habitantes, o dobro da média de Atlanta. Fortaleza, a capital mais violenta do Brasil, segundo o Atlas da Violência 2017, registra 78,1 assassinatos por 100 mil habitantes – cinco vezes mais que a cidade norte-americana. E a violência urbana não se encontra mais circunscrita a megalópoles, espalhou-se também pelo interior – no ranking, existem 12 cidades pequenas onde se mata mais, proporcionalmente, do que em Fortaleza...

Fruto do crescimento desordenado, fermentado pela ideologia do Brasil Grande, patrocinada pela ditadura militar e mantida ao longo dos governos democráticos, as cidades incharam sem qualquer planejamento. Em 1960, 55% da população brasileira vivia no campo – na década seguinte, 56% já moravam na cidade e hoje esse número alcança expressivos 84%. No entanto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), três em cada quatro habitantes dos centros urbanos sobrevivem em más condições, ou seja, não desfrutam de moradia adequada, não têm acesso a redes de água e esgoto e nem a coleta de lixo.

Aliado à falta de infraestrutura adequada, a ausência do Estado é evidente ainda na má qualidade da educação, da saúde e do transporte ofertados – o tempo médio de deslocamento no trânsito em São Paulo, por exemplo, chega a 173 minutos, conforme o Mapa da Desigualdade 2017, da Rede Nossa São Paulo. E, segundo dados do IBGE, metade de todos os trabalhadores empregados, em 2016, ganhava 85% do salário-mínimo, algo em torno de R$ 827,90, em valores de 2018. Uma realidade totalmente vulnerável à ação de traficantes de drogas e de milícias...

Um curioso levantamento realizado pela Folha de S. Paulo constatou que os Correios restringem ou não entregam produtos em quase um terço da cidade de São Paulo, que possui um índice de 17,3 assassinatos por cem mil habitantes, ocupando a penúltima posição no ranking das capitais mais violentas do Brasil. Os bairros mais afetados pela restrição parcial ou total (os moradores não recebem em suas casas itens como roupas, brinquedos e eletrônicos) localizam-se nas zonas Leste e Sul.

O Mapa da Desigualdade 2017 mostra que a expectativa de vida no Jardim Paulista, bairro de classe alta de São Paulo, é de 79,4 anos, enquanto no Jardim Ângela, zona Sul da cidade, é de 55,7 anos – uma diferença de 23,7 anos, a mesma que distingue um habitante da França, na Europa, de um outro de Zâmbia, na África...

Com quase 62 mil assassinatos e cerca de 47 mil mortos no trânsito por ano, oprimidos pela insegurança e pela impunidade, governados pela corrupção e julgados pela arbitrariedade, sem ver cumpridos os mais elementares princípios que regulam uma verdadeira democracia, a maior parte dos brasileiros não vive, apenas sobrevive. E, pior, sem esperança no futuro – não por acaso, um dos principais sintomas do transtorno do estresse pós-traumático.

Luiz Ruffato, El País, 10/01/2018, 10: 57 hs
Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

Nelson Rodrigues

SVETLANA TIKHONOVA


O AVESSO DO AVESSO

Em Hollywood, o movimento Time’s Up, apoiado por mais de 300 atrizes, conseguiu tingir de preto a cerimônia do Globo de Ouro, em protesto contra as agressões sexuais. Na França, um grupo formado por uma centena de artistas e intelectuais tomou nesta terça-feira a direção contrária ao assinar um manifesto criticando o clima de “puritanismo” sexual que o caso Harvey Weinstein teria desencadeado. O texto, publicado no jornal Le Monde, é assinado por conhecidas personalidades da cultura francesa, como a atriz Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a cantora Ingrid Caven, a editora Joëlle Losfeld, a cineasta Brigitte Sy, a artista Gloria Friedmann e a ilustradora Stéphanie Blake.

“O estupro é um crime. Mas a sedução insistente ou desajeitada não é um crime nem o galanteio uma agressão machista”, afirmam as autoras deste manifesto. “Desde o caso Weinstein houve uma tomada de consciência sobre a violência sexual exercida contra as mulheres, especialmente no âmbito profissional, onde certos homens abusam de seu poder. Isso foi necessário. Mas esta liberação da palavra se transforma no contrário: nos intima a falar como se deve e nos calar no que incomode, e os que se recusam a cumprir tais ordens são vistos como traidores e cúmplices”, argumentam as signatárias, que lamentam que as mulheres tenham sido convertidas em “pobres indefesas sob o controle de demônios falocratas”.

Entre as promotoras do manifesto estão personalidades que já haviam expressado opinião oposta a esse movimento, quando não abertamente contrárias a certas lutas do feminismo. Por exemplo, a filósofa Peggy Sastre, autora de um ensaio intitulado A Dominação Masculina Não Existe, ou a escritora Abnousse Shalmani, que em setembro assinou um artigo onde descrevia o feminismo como um novo totalitarismo. “O feminismo se transformou em um stalinismo com todo seu arsenal: acusação, ostracismo, condenação”, disse na revista Marianne. Por sua vez, a jornalista Élisabeth Lévy qualificou como “abjeto” o movimento iniciado com rótulos como #MeToo ou #balancetonporc (“denuncia teu porco”). Em um tom mais moderado, Deneuve também se opôs a este fenômeno no final de outubro. “Não acho que seja a forma mais adequada de mudar as coisas. O que virá depois? Denuncia tua puta? São termos muito exagerados. E, sobretudo, acho que não resolvem o problema”, declarou na época. Também Millet, crítica de arte e autora do relato autobiográfico A Vida Sexual de Catherine M., se opôs repetidamente a um feminismo “exacerbado e agressivo”.
(...)

Álex Vicente, El País, Paris, 09/01/2018, 18:37 hs
EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS - 2  (*)

A emergência psiquiátrica é uma situação clínica que legitima o modelo biomédico num momento agudo. Isso é uma obviedade. No entanto,  tal como nas situações psicossociais em que esse modelo fracassa, a emergência psiquiátrica tende a ser mal diagnosticada, mal atendida e mal encaminhada. Vamos por partes. O que está em jogo é o comportamento do paciente, na medida em que ele incomode ao que está em torno (familiares, amigos, vizinhos, colegas, instituições, etc). Assim, o diagnóstico psiquiátrico (apressado) faz por homogeneizar tudo: histerias, psicoses, intoxicações por drogas, tentativas de suicídio, demências, pânicos, fobias, tantos e variados diagnósticos que não mudam o objetivo essencial da intervenção médica: o controle. O paciente psiquiátrico mete medo porque desarruma os códigos sociais vigentes e interpela a medicina. Por exemplo, em geral os médicos, mesmo psiquiatras, detestam a histeria, ou as e os histéricos, usando o epíteto depreciativo de "piti". Isso é antigo. A histeria desconcerta o olhar pretensamente científico da medicina. No entanto, desde finais do século XIX um médico atípico de Viena já tematizava a histeria. Hoje, as práticas médicas não mudaram á respeito.  Sendo assim, numa emergência psiquiátrica é essencial estabelecer uma hipótese diagnóstica segundo um olhar psiquiátrico, mas também segundo um olhar psicossocial para ser possível separar o que é do que não é da psiquiatria. O atendimento e o encaminhamento (sinônimos) do paciente dependem disso, o que discutiremos no próximo texto sobre o assunto.

A.M.


(*) Dedicado ao Hospital Afrânio Crescêncio/ Vitória da Conquista/Ba.
A qualquer hora, o que se chama vida
pode mudar da água pro vinho. Ou vice-
-versa. Cada palavra proferida —
uma sentença grave, uma tolice —
pode retornar feito um bumerangue
capaz de destruir o que encontrar.
E nada que se funde em carne e sangue
escapa dessas bólides de ar:
o amor e demais estados de graça,
reputações, ações, fazendas, gado,
longos corredores, salas de espera —
tudo à mercê do que afinal não passa
de ar comprimido, aos poucos exalado,
que logo se dissipa na atmosfera.


Paulo Henriques Britto

NOITE VAZIA, direção de Walter Hugo Khouri, 1964

O NOVO É UMA COISA MUITA ANTIGA

Há no projeto presidencial de Jair Bolsonaro uma insustentável teatralização do novo. A bordo do seu sétimo mandato parlamentar, o candidato apresenta-se como uma fulgurante novidade, única alternativa radical contra os maus costumes. Ajudou a apertar o nó que asfixiou o mandato de Eduardo Cunha. “Com a coerência de sempre”, votou duas vezes a favor da abertura de processos criminais contra Michel Temer. A teatralização da ética tornou-se escancarada no instante em que o capitão sentou praça no Partido Social Liberal, o PSL.

Dono de uma bancada nanica, o PSL compôs a milícia parlamentar de Eduardo Cunha. Seus dois deputados, o líder Alfredo Kaefer (PR) e Dâmina Pereira (MG) acompanharam o ex-presidente da Câmara até a beira do abismo. O mandato de Cunha foi interrompido por 450 votos a 10. Alfredo agarrou-se na beirada, optando pela abstenção. Dâmina pulou no precipício, votando a favor de Cunha.

No apreciação das duas denúncias criminais contra Temer, a bancada do PSL, engordada pela presença do suplente de deputado Luciano Bivar (PE), presidente nacional da legenda, juntou-se à ala dos coveiros da Câmara. Bivar, Alfredo Kaefer e Dâmina Pereira ajudaram a enterrar as acusações, impedindo o Supremo Tribunal Federal de converter Temer em réu, o que levaria ao seu afastamento do cargo.

Na sexta-feira, Bolsonaro e Bivar divulgaram uma nota conjunta. Nela, escreveram: “É com muito orgulho que o PSL recebe o deputado Jair Bolsonaro e sua pré-candidatura à Presidência da República. Outrossim, é com muita honra que o deputado se sente abrigado pela legenda, e muito à vontade em um partido onde existe total comunhão de pensamentos.”

Ogulhoso de seu passado militar, Bolsonaro costuma dizer que, eleito, proverá “ordem e progresso” aos brasileiros. Movimenta-se no palco, porém, como administrador de um regresso. Ou informa de onde vem a “comunhão de pensamentos” que o uniu ao PSL ou desfilará pelo palco de 2018 com um discurso desconexo.

Segundo colocado nas pesquisas, o capitão do social-liberalismo faz pose de contraponto extremo do general do PT. Sapateia sobre a derrocada moral de Lula, o favorito, sem olhar para o próprio rastro. Noutros tempos, era o petismo que rodopiava em cena como símbolo da nova moralidade. Em 2005, foi apanhado no mensalão. Em 2014, foi pilhado no petrolão. Ou seja: no Brasil, o novo é uma coisa muito antiga.

Do Blog do Josias de Souza, 07/01/2017,20:14 hs