sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

NILS FRAHM - All Melody

A LUTA DE PEDRO


A última vez que Pedro Casaldáliga, o bispo do povo segundo seus numerosos partidários e o bispo vermelho para seus cáusticos inimigos, apareceu diante de uma multidão poucos esperavam vê-lo. Era julho de 2016 e não estava claro se dessa vez o religioso claretiano, de 88 anos, iria participar da Romaria dos Mártires da Caminhada, um evento quinquenal que ele criou em 1986, quando era bispo desta região selvática do Estado de Mato Grosso. A Romaria é realizada a 268 quilômetros de São Félix do Araguaia, o município onde ele vive, e não se sabia se aguentaria os incômodos de tamanha viagem. Mas havia aceitado a contragosto ir de avião, e não de ônibus, como até então costumava viajar pelo país (para ir, segundo suas palavras, "à altura do povo"), de modo que aí estava esse catalão, discretamente disposto a ver a cerimônia de inauguração. Banhado em aplausos e flashes de celulares, o morador espanhol mais célebre do Brasil não disse uma palavra. Em parte, pode-se imaginar, porque não tinha ido dar uma homilia; em parte, pelos estragos que foi causando em suas habilidades motoras o que ele chama de "o irmão Parkinson". Vendo-o, frágil, calado, prostrado em sua cadeira de rodas, qualquer coisa que tivesse dito teria soado como uma despedida.
Desde então, o mundo soube pouco dele, como ele do mundo. "A política local, a estatal ou a nacional, ele já não acompanha muito", admite por telefone o padre Ivo, um dos quatro agostinianos que se organizam para atender nas 24 horas do dia o bispo emérito em sua casa de São Félix do Araguaia. Mantêm-no em forma com a rotina: cuidados físicos pela manhã e leitura do correio –eletrônico ou tradicional– pela tarde. "Não responde todas as mensagens porque já lhe custa muito falar, mas as pessoas as mandam, cheias de carinho, sem esperar uma resposta. São quase como uma deferência", acrescenta Ivo.
Assim, meio custodiado e meio mistificado, faz aniversário esta semana um dos homens espanhóis mais admirados do mundo católico. Em sua casa de sempre em São Félix do Araguaia, um município de pouco mais de 10.500 habitantes ao qual só se chega depois de 16 horas de estrada de terra desde o aeroporto mais próximo, o de Cuiabá, capital do Mato Grosso. Aqui se encontra este sacerdote de Montjuïc desde que chegou ao Brasil como missionário em 1968, fugindo de uma Espanha congelada pelo franquismo. Em 1971 foi nomeado primeiro bispo da diocese e converteu sua casa, pequena, rural e pobre, na sede.
Foi entre essas quatro paredes que Casaldáliga começou a dar mostras de sua espetacular adesão aos ensinamentos do Evangelho, sobretudo o de se identificar com os mais desfavorecidos. E neste lado do Brasil selvático os mais desfavorecidos são centenas de milhares de camponeses sem-terra, pobres, analfabetos e oprimidos por coronéis e políticos. Assim, ele rezava missa para os moradores no quintal de sua casa, entre as galinhas, e à noite, deixava sua porta principal aberta para o caso de alguém sem casa precisar usar uma cama que sempre estava disponível. Andava de jeans e chinelos e tinha duas mudas de cada roupa. Quando tinha que se reunir com o Episcopado em Brasília, ia de ônibus, em uma viagem de três dias, porque era o meio de transporte de sua gente. Seu lema era inegociável: "Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar".
(...)

Tom C. Avendaño, El País, São Paulo, 15/02/2018, 23:24 hs

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

POLÍTICAS  DO  EU

"Tudo é político": tal frase expressa, sobretudo, a inserção física, visceral, dos modos de subjetivação nas relações entre forças. Estas constituem o poder em suas múltiplas máscaras, desde grandes representações sociais (por ex., o congresso nacional) até linhas desejantes nem sempre perceptíveis,  a chamada "pessoa humana". Isso, óbvio,  inclui as chamadas relações interpessoais. Há, pois, uma política da subjetividade compreendendo  o que o pensamento idealista chama de "mundo interior". Ora, o mundo interior é gestado, produzido de "fora", como nos ensina o desenvolvimento psíquico das crianças. Na prática social cotidiana é possível dizer que sempre nos deparamos, de algum modo, com o poder, pois são forças em relação o que se expressa em nós, o que nos constitui como humanos. Tal concepção teórica da política tem suas bases fincadas em autores como Maquiavel, Marx, Nietzsche, Spinosa,  Foucault, Deleuze,  Guattari, Stengers, entre outros .O que importa, no fim das contas, é buscar fugir da visão transcendente que retira o homem do mundo e promete recompensá-lo no céu. 

A.M

ADRIANA CALCANHOTO - O Nome da Cidade

Inefável

Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda…
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.

Sou como um Réu de celestial sentença,
Condenado do Amor, que se recorda
Do Amor e sempre no Silêncio borda
De estrelas todo o céu em que erra e pensa.

Claros, meus olhos tornam-se mais claros
E tudo vejo dos encantos raros
E de outras mais serenas madrugadas!

Todas as vozes que procuro e chamo
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo
Na minha alma volteando arrebatadas.


Cruz e Souza
BANCADA DA BALA


Impulsionada pelo surto de violência que tem no Rio de Janeiro sua principal vitrine, a bancada parlamentar da bala pressiona Michel Temer pela criação de uma nova pasta: o Ministério da Segurança Pública. E o presidente não descartou a hipótese de ceder à pretensão do grupo.

Abstraindo-se a obviedade de que a criação de um novo ministério não fará murchar as estatísticas da violência, a proposta esconde um elemento tóxico: a pasta da Segurança, a ser entregue a um deputado qualquer, absorveria em seu organograma pedaços estratégicos do Ministério da Justiça. Por exemplo: a Polícia Federal.

Num cenário de normalidade, a ideia de subordinar a engrenagem da PF a um parlamentar de qualificação duvidosa seria apenas temerária. Torna-se explosiva numa atmosfera em que o diretor-geral do órgão, Fernando Segovia, está na berlinda por ter sinalizado a intenção de arquivar inquérito estrelado por Temer.

É como se Temer, tendo feito uma opção preferencial pela temeridade, brincasse com um spray de gasolina na beirada de uma fogueira.


Do Blog do Josias de Souza, 15/02/2018, 05:59 hs

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

DAMIÃO MARTINS


Não se assuste porque no Brasil cada vez há mais desempregados, mais famintos e mais violência. Está provado que é o clima.


Millôr Fernandes
ISSO NÃO PARA

Um atirador foi detido nesta quarta-feira (14) após deixar feridos em uma escola em Parkland, na Flórida. Há pelo menos um morto, segundo disse o chefe do Departamento de Bombeiros, Dan Booker, ao jornal "Miami Herald".

A polícia de Coral Springs está pedindo que as pessoas continuem evitando a região da Marjory Stoneman Douglas High School.

Imagens de TV mostraram mais cedo diversos alunos deixando o prédio, escoltados por agentes da SWAT. Agentes do FBI também estão no local.

A Casa Branca informou que o presidente Donald Trump foi comunicado sobre o caso e está recebendo informações. O presidente postou uma mensagem sobre o assunto no Twitter. "Nenhuma criança, professor ou qualquer outra pessoa jamais deveria se sentir insegura em uma escola americana", escreveu.
(...)

Globo.com, 14/02/2018, há 5 minutos

MARCOS VALLE & STACEY KENT - Amando Demais

Mas o problema é que você, meu caro, nunca saberá nem eu lhe poderei nunca dizer como se traduz, em mim, aquilo que você me disse. Não falou turco, não. Eu e você usamos a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos nós de que as palavras, em si, sejam vazias? (...) Ao dizê-las a mim, você preenche-as com o seu sentido; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido. Pensávamos que nos entendíamos; de facto, não nos entendemos...
(...)

Luigi Pirandello


QUEM  SERÁ?

Embora o PT insista em manter o ex-presidente Lula como pré-candidato à presidência, o petista está cada vez mais longe da disputa, depois de condenado em segunda instância pelo TRF4. E sem seu nome entre os pré-candidatos, o cenário eleitoral fica ainda mais incerto. Segundo a última pesquisa Datafolha, disputam o segundo lugar a ex-senadora Marina Silva (Rede), o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) e o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT). Todos, atrás de Jair Bolsonaro (PSC), que lidera o pleito sem o ex-presidente petista no páreo.

Embolados, os três pré-candidatos terão que correr para passar na frente não somente um do outro, como de dois outros potenciais grandes adversários: o surgimento de um outsider, que pode se materializar na figura do apresentador Luciano Huck, por enquanto sem partido, e a rejeição da população à classe política. Sem Lula, até um terço dos brasileiros dispensa qualquer outro candidato e prefere anular ou votar em branco, aponta a mesma pesquisa.
(...)

Marina Rossi, El País, São Paulo, 14/02/2018, 10:36 hs

TOMÀS ROTGER


Unhas Sujas de Terra

No fundo do olho do pássaro
um resto de nuvem
acena um melancólico adeus

Enquanto brincamos na floresta
o lobo afia seus dentes
nos seios de nossa mãe

Escolhemos ser alguma coisa
e não conseguimos suportar
aquilo que escolhemos
Escolhemos ser algo mais
e nem ao menos sabemos
o que é algo que é mais

O céu se despede das penas
entoa um vento quase cinza
e agora somos nós os coveiros



Marcos Losnak
UNIDOS DA BARBÁRIE

A violência na Zona Sul do Rio durante o carnaval não poupa nem mesmo os idosos. Um flagrante registrado em Ipanema mostra uma idosa de 80 anos sendo rendida por assaltantes na frente de um prédio. Um dos criminosos dá uma "gravata" na vítima.

O caso ocorreu na terça-feira (13) na Rua Prudente de Moraes, uma das principais do bairro. A idosa voltava da padaria quando foi rendida por criminosos por volta das 6h50.
(...)

GloboNews, 14/02/2018, 07:00 hs