segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O QUE EXISTE

A subjetividade não existe. Ou melhor, não existe como Coisa, mesmo a mais valiosa. Isto quer dizer que ela não é redutível a um objeto sólido, visível, que obedece à construção de uma forma estável e eterna. Tampouco é detentora de uma natureza ou de uma essência última que traria a raiz-mãe dos seus segredos, como se estes fossem revelados à medida em que se adentrasse às linhas de expressão objetiva. Tais considerações conceituais remetem a uma concepção positivista, a qual, lastreada pelo progresso científico, aponta aos pesquisadores da clínica psicopatológica o alvorecer de uma verdade intocável. É o sonho delirante parido do casório do cristianismo com a ciência (a pessoa humana+o comportamento) que desemboca em nossos dias na face cruel da angústia encarnada na dor de existir: a depressão. Esta é anestesiada por remédios não apenas químicos (há milhões...) no consumo sedutoramente apavorante do circuito do capital. No fim, ao contrário do que dissemos ao início, a subjetividade é, isto sim, uma Coisa codificada segundo o enquadre teórico que a concebe. No entanto, bem mais ou bem menos que tal dado, que importam as teorias, as doutrinas, os dispositivos conceituais, as escolas científico-filosóficas, se ela é apenas uma peça bem azeitada às linhas de montagem nas indústrias da alma?

A.M.
BOLSO E HUGO: SEMELHANÇAS

Nas eleições presidenciais de 1998, 56% dos eleitores venezuelanos decidiram dar uma chance ao ex-militar Hugo Chávez, um antipolítico que prometia acabar com a "velha política" e a corrupção. O discurso inflamado e as convicções autoritárias de Chávez foram a estratégia acertada em uma eleição marcada pela ampla insatisfação com o sistema político tradicional e o desejo de ruptura. No ano seguinte, em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o então deputado e ex-militar Jair Bolsonaro chamou o líder venezuelano de uma "esperança para a América Latina." Foi além: "Gostaria muito que esta filosofia chegasse ao Brasil. Acho ele ímpar. Pretendo ir à Venezuela e tentar conhecê-lo”. De fato, apesar de declarar o chavismo como grande inimigo ao longo dos últimos anos, Bolsonaro compartilha várias características com o ex-presidente venezuelano.

Uma dos traços que o brasileiro tem em comum com o fundador do chavismo — e que não costuma ser lembrado — é uma conturbada relação com o mundo acadêmico e o pensamento crítico. Por exemplo, Bolsonaro já criticou a autonomia das universidades federais — garantida pela Constituição — e seu Governo fez ameaças de que instituições fazendo “balbúrdia” teriam suas verbas reduzidas, tendo como alvo principal as ciências humanas, área que supostamente teria forte influência de doutrinação marxista. Como um político da oposição venezuelana me disse durante minha recente visita a Caracas, "Bolsonaro é um aliado importante na luta contra a ditadura aqui, mas é claro que sua retórica me lembra a de Hugo Chávez."
(...)

Oliver Stuenkel, El País, 19/08/2019, 19:51 hs

GRANDES ESCRITOS


amor  ao  amar
quem deseja
acontece


A.M.
VIOLÊNCIA  CONTRA  PROFESSORES

"Um filme de terror." É assim que o professor Thiago dos Santos Conceição, de 32 anos, descreve os momentos de tensão que viveu no dia 18 de setembro de 2018, quando um grupo de alunos do 9º ano do CIEP Municipal Mestre Marçal, em Rio das Ostras, Rio de Janeiro, começou a hostilizá-lo durante uma aula de língua portuguesa.

"Tive muito medo. Pensei que fosse morrer", admitiu o docente que, por medida de segurança, se viu obrigado a pedir transferência para outro município.

Conceição não é o primeiro a sofrer violência física ou verbal em sala de aula. E, a julgar pelos números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ele também não será o último.

Segundo os dados mais recentes, de 2013, o Brasil lidera o ranking de violência escolar: 12,5% dos docentes brasileiros relataram ser vítimas de ameaças, xingamentos ou agressões ao menos uma vez por semana. A média mundial da organização que reúne 34 países é de 3,4%.
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André Bernardo, Época, 12/08/2019, 14:40 hs

Paris - Vintage Café - Lounge and Jazz Blends - More New Blends - HQ

Chegar ao centro, sem partir-se em mil fragmentos pelo caminho. Completo, total. Sem deixar pedaço algum para trás.

Caio Fernando Abreu
AS FORÇAS NÃO TEM FORMA: SÃO PODERES


O pensamento vem de fora: tal frase condensa algumas posições epistemológicas e políticas sobre 1- a relação do cérebro com a mente e com o mundo; o cérebro está no mundo (cosmos) e não o contrário. 2- a distinção conceitual entre cérebro e mente, já que o cérebro, em que pese a sua importância anátomo-fisiológica, é um processador dos fluxos de fora, e apenas (e é muita coisa)"dá linha"como diz Bergson. 3- o pensamento não é uma espécie de "secreção" do cérebro. Se assim fosse, de nada valeria o enunciado de que quando o cérebro "chegou" (bem entendido, um órgão)o universo já estava aí. Anti-humanismo. De um golpe, se você retira o universo, não sobra nada. Não há cérebro, pelo menos o cérebro que a medicina entronizou e nele investe como mercadoria de primeira. 4-as crenças, os juízos, os valores, os códigos sociais, os territórios de sentido, os afetos, tudo vem de fora porque tudo é força e da reunião das forças, surgem os poderes. 5-portanto, deste enunciado ("o pensamento vem de fora") desembocamos no "nosso" enfrentamento irrecusável com o poder; daí os modos de subjetivação serem modos de resistir ao poder, confrontar-se com ele talvez com a criação de algo singular. Devires! 6-De todo modo, a problemática em saúde mental, tanto para os usuários quando para os não-usuários atravessa o combate (explícito ou velado) com o poder. A clínica exemplifica isso, a clínica "exige isso".

A.M.

NDT in Japan 2019

domingo, 11 de agosto de 2019

Os filhos da época

Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.
Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já não dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.
Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos se tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.

Wislawa Szymborska

Tradução: Ana Cristina Cesar em colaboração com a polonesa Grazyna Drabik
A VERDADE DE CHERNOBYL

A primavera era sempre a época mais movimentada do ano para as mulheres que trabalhavam na fábrica de processamento de lã de ovelhas em Chernihiv, no norte da Ucrânia. E os meses de abril e maio de 1986 não foram exceção, com turnos de 12 horas para separar as pilhas à mão antes de serem lavadas e enfardadas. Só que as mulheres começaram a ficar doentes.
Algumas sofreram hemorragias nasais, outras reclamaram de tontura e náusea. Quando as autoridades foram chamadas para investigar, descobriram níveis de radiação na fábrica de até 180 mSv/hr. Hoje, em menos de um minuto qualquer pessoa exposta a esses níveis excederia a dose anual considerada segura em muitas partes do mundo.
A 80 km da fábrica ficava a usina nuclear de Chernobyl. Em 26 de abril de 1986, um reator da instalação sofreu uma explosão catastrófica que expôs o núcleo e jogou nuvens de material radioativo sobre seu entorno, como um incêndio incontrolável.
(...)

Por BBC, Globo.com, 10/08/2019, 19:55 hs

sábado, 10 de agosto de 2019

O ENCONTRO MARCADO

Numa prática clínica da diferença em psicopatologia, o conceito de Encontro é essencial. Ele diz respeito à chance de estabelecer ligações com os afetos que circulam livremente e/ou aprisionados pelas formas sociais (por ex., a de paciente "mental"). No caso da psiquiatria biológica, da terapia cognitivo-comportamental, das psicoterapias regidas pelo senso comum, das psicologias do bom senso, das terapias religiosas, das psicanálises edipianizantes, enfim, das agências psi normatizadoras, os afetos livres (devires) rodopiam no mesmo ponto subjetivo, endurecidos em sintomas prontos a serem eliminados. Há até pacotes comerciais disponíveis para resolução em apenas 3 meses. Confira. Caso haja êxito, vão-se os sintomas e com eles o desejo. Ao contrário, é preciso encontrar-se com o sintoma já que o Encontro é condição básica para 1-usar os afetos livres para fora da configuração subjetiva dita patológica; 2- desorganizar as formas sociais especializadas em infeccionar as forças ativas. Em ambos os casos, não se acha  uma bela alma, mas a crueza do real múltiplo. Estão e estarão aí todos os tipos de personalidades anormais que a psiquiatria conservadora engloba sob o código F.60. Ou as histerias, filhas freudianas convertidas ao século XXI e estranhas ao diagnóstico psicanalítico. Ou os pânicos urbanos gritando alto frente à dissolução das certezas do homem tecnológico. Ou as psicoses não especificadas em eus cindidos e aniquilados pelo tempo virtual. Ou corpos descarnados oscilando entre a autoflagelação e o suicídio enquanto formas de se sentirem vivos. O encontro hoje é, pois, um encontro sem rosto fixo, sem modelo, sem eu, sem consciência, mas ainda assim,e principalmente, um Encontro.

A.M.

TÁ NA RODA - Naná Vasconcelos e Barbatuques (Naná Vasconcelos/ Vinícius ...

A PARANÓIA BRANCA - II

Vive no alto da colina, em Plieux, pitoresco povoado na Gascogne, a terra de D'Artagnan. Da torre, ao longe, vislumbram-se os Pirineus. Poderia ser o refúgio de um dândi aristocrata. Ou o castelo do conde Drácula.
Renaud Camus, de 73 anos, foi há muito tempo um prolífico escritor cult, autor de dezenas de volumes de minuciosos diários, louvado em seu início por papas da intelligentsia francesa como Roland Barthes. Agora é quase um marginal no mundo cultural: publica os próprios livros porque não tem mais editora e ficou difícil encontrar sua obra nas livrarias. Mas suas ideias não são marginais. Camus se tornou “um ideólogo da extrema direita, um oráculo dos ambientes identitários”, como escreveu um ex-amigo seu, o escritor Emmanuel Carrère. E uma referência para o supremacismo branco global, incluído o mais violento. Sua teoria da grande substituição — le grand remplacement, em francês — inspirou terroristas como os que causaram a matança em duas mesquitas de Christchurch (Nova Zelândia) em 15 de março e num shopping center de El Paso (Estados Unidos) no último sábado.
“A grande substituição não é uma teoria”, disse ao EL PAÍS e a outros jornais, durante uma entrevista em maio no imenso salão que serve de biblioteca e escritório em seu castelo de Plieux. “É o nome para um fenômeno como a Grande Depressão, a Revolução Francesa e a Primeira Guerra Mundial.
(...)

Marc Basset, El País, Paris, 10/08/2019, 18:04 hs
Ritmos variados

Sabe, meu Cachoeiro, as coisas nem
sempre saem conforme o combinado.
Nessas ocasiões, apenas me lembro
que tenho um pinto enorme e tudo
parece um pouco melhor.
Os anos se passaram e pequenas
convicções se acumularam
num canto escuro do quarto.
Todos os boleros do mundo
soando juntos deveriam fazer
algum sentido, mas não fazem

Bruno Brum