domingo, 8 de setembro de 2019

M, Valle, C.Fonseca, V. Cantuária, A. Cechinet e Dadi

Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora.

Caio Fernando Abreu
    
IMPACIENTE

Uma clínica da diferença em psicopatologia trabalha para que o paciente deixe de sê-lo. Importante: não é a busca da melhora, da cura, da readaptação ou inclusão social, da reabilitação profissional ou outros conceitos liberais muito vizinhos entre si. Encarar a diferença, ou melhor, encontrar o paciente enquanto diferença é considerar a priori que ele pode deixar de ser paciente. A utopia de tal assertiva dissolve-se num campo virtual de uma política das multiplicidades.Entretanto, antes que tudo isso pareça obscuro, é preciso dizer que as multiplicidades são o real de uma vida. Ao paciente costumam arrancá-la em prol de uma fabricação subjetiva de corpos-zumbis. Ou como trama poderosa urdida nos intelectos acadêmicos em direção a um encaixotamento da alma com verniz farmacológico. Ou, por fim, e talvez o pior, como objeto de lucro e prestígio para corporações profissionais.

A,M.

Fantasia. Hans van Manen. Netherlands Dance Theater.

CAVALEIROS DAS TREVAS

Ao se dizer chocado com o “homotransexualismo” (?) que identificou numa página de “Vingadores – A cruzada das crianças” e mandar recolher exemplares da história em quadrinhos na Bienal do Livro, o prefeito do Rio de Janeiro pareceu agir como um beócio, um néscio, um estulto. Afinal, favoreceu a ampla divulgação da cena de dois rapazes se beijando, exatamente a que afirmava ser danosa a crianças e adolescentes.

Marcelo Crivella foi um sacripanta. Mas, sobretudo, foi calculista. Sabia exatamente o que aconteceria e que seu nome seria comentado em todo o país e até internacionalmente, pois a HQ é da editora Marvel. Buscou se cacifar junto ao público/eleitorado conservador. Não quis perder terreno na corrida que vem sendo disputada no Brasil e que teve etapa quente na semana da pátria: a dos cavaleiros das trevas.
(...)

Luiz Fernando Vianna, Época, 98/09/2019, 12:01 hs
Há mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas correndo por aí com fósforos acesos.

Ray Bradbury
Depois de fazer sumir a plateia,
o mágico transforma a si próprio
em um grande cetáceo, se senta
à beira do palco e canta para o auditório vazio.
Ao final, se emociona e chora.


Bruno Brum

A GRANDE FEIRA - direção de Roberto Pires, 1961

sábado, 7 de setembro de 2019

BBMP

O Bahia segue em ótima fase no Campeonato Brasileiro. Na manhã deste sábado, mesmo num São Januário lotado, com 22 mil pessoas, o Tricolor de Aço derrotou o Vasco por 2 a 0 e chegou à sexta posição na tabela, entrando na zona de classificação para a Libertadores. Nino Paraíba e Gilberto, com um golaço, marcaram.
(...)

Globo.com, 07/09/2019, 13:06 hs
Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Fernando Pessoa    

SEXO NÃO É OBCENO, GUERRAS SÃO OBCENAS

RIO - A polêmica sobre a censura aos quadrinhos com um beijo gay, vendido na Bienal do Livro, teve mais uma reviravolta. O presidente do Tribunal de Justiça , Claudio de Mello Tavares,concedeu, no início da tarde deste sábado, liminar favorável à Prefeitura do Rio, cassando a decisão anterior que impedia o Município de "buscar e apreender" o livro "Vingadores — A cruzada das crianças" . A nova decisão da Justiça autoriza os fiscais da prefeitura a recolherem a obra da Marvel , que traz uma cena de beijo entre dois personagens masculinos, e qualquer outro tipo de publicação com conteúdo que aborda o que o prefeito 

Marcelo Crivella trata como "homotransexualismo" (sic). Os procuradores do município, que entraram com a liminar de sexta-feira, dia 6, às 23h, alegaram urgência na decisão por entenderem que o caso é "de grave lesão à ordem pública", impedindo a prefeitura de fiscalizar.

A decisão anterior do desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes, da 5ª Câmara Cível, suspendia inclusive a cassação da licença de funcionamento da Bienal. O procurador-geral Marcelo Silva Moreira Marques e o subprocurador Paulo Maurício Fernandes da Rocha também pediram que isso fosse revisto. Na sua fundamentação para o recolhimento do livro dos autores Allan Heinberg e Jim Cheng, a PGM ressalta a importância "da supremacia da lei, da família e do Poder Público Municipal, na proteção imperativa à criança e ao adolescente vulneráveis no segmento comercial aqui visitado (na Bienal)".

O argumento da pefeitura é de que a Bienal do Livro do Rio, por ser o maior evento literário do país, é uma oportunidade de aproximação dos seus autores com o público e que os livros considerados impróprios estavam sem plástico protetor e informações sobre o seu conteúdo . O pedido feito ao presidente do TJ alega ainda a necessidade de se preservar a "Família Carioca", o que seria competência do Município.
(...)

Vera Araújo, O Globo, 07/09/2019,15:54 hs

DIRIGINDO E BEBENDO

Já é agosto e eu não
leio um livro há seis meses
a não ser por um troço chamado A Retirada de Moscou
de Caulaincourt.
Ainda assim, estou feliz
andando de carro com meu irmão
e bebendo um pint de Old Crow.
Não estamos indo a lugar nenhum,
só estamos indo.
Se eu fechasse os olhos por um minuto
estaria perdido, contudo
eu poderia facilmente deitar e dormir pra sempre
na beira desta estrada.
Meu irmão me cutuca.
Para que algo aconteça, está por um triz.


Raymond Carver

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O QUE É UM TÉCNICO EM SAÚDE MENTAL

O conceito de "técnico em saúde mental" está em construção. Desse modo, é possível enumerar alguns elementos teórico-clínicos como referência. Vejamos: 1- A existência de um tal técnico está condicionada à visão de que a "saúde mental" excede os limites do saber biomédico. Ou seja, tratar a saúde mental de alguém implica em considerar o primado da realidade social em relação ao organismo dito doente. 2- Ao falarmos de realidade social, é preciso dizer que não se trata de "um depois" do organismo "doente", mas sim uma categoria-chave para compreender o próprio organismo, mesmo em afecções claramente orgânicas (um traumatismo crâneo-encefálico, por exemplo).3- O técnico dispõe, portanto, de uma concepção de subjetividade (aquele que fala) como sendo gestada no plano da sociedade. Mais ainda, como sendo a própria sociedade falando a nós por meio de algum transtorno mental, para se usar (num outro sentido) um termo-chave da psiquiatria. 4- Ora, se partirmos do social-em-nós, o técnico em saúde mental, para bem atuar, necessita, antes de tudo, escapar da órbita do especialismo, tornar-se um terapeuta, o qual, segundo a origem grega, é o que está para servir. 5- Não sendo um especialista, a sua linha técnica (intervencionista) busca extrair, captar,"roubar" do psicólogo, do psiquiatra, do enfermeiro, do assistente social, do professor de artes, e outros da equipe técnica (penso num Caps), fragmentos de saber que sirvam ao paciente como potência de viver e autonomia subjetiva e não como adaptação social para uma possível cura. Aliás, este termo da medicina é inútil e danoso para o trabalho em saúde mental. Em suma, são 5 características (há muitas outras...) que se interpenetram numa produção conceitual apenas esboçada. 

A.M.