Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 8 de setembro de 2019
IMPACIENTE
A,M.
Uma clínica da diferença em psicopatologia trabalha para que o paciente deixe de sê-lo. Importante: não é a busca da melhora, da cura, da readaptação ou inclusão social, da reabilitação profissional ou outros conceitos liberais muito vizinhos entre si. Encarar a diferença, ou melhor, encontrar o paciente enquanto diferença é considerar a priori que ele pode deixar de ser paciente. A utopia de tal assertiva dissolve-se num campo virtual de uma política das multiplicidades.Entretanto, antes que tudo isso pareça obscuro, é preciso dizer que as multiplicidades são o real de uma vida. Ao paciente costumam arrancá-la em prol de uma fabricação subjetiva de corpos-zumbis. Ou como trama poderosa urdida nos intelectos acadêmicos em direção a um encaixotamento da alma com verniz farmacológico. Ou, por fim, e talvez o pior, como objeto de lucro e prestígio para corporações profissionais.
A,M.
CAVALEIROS DAS TREVAS
Ao se dizer chocado com o “homotransexualismo” (?) que identificou numa página de “Vingadores – A cruzada das crianças” e mandar recolher exemplares da história em quadrinhos na Bienal do Livro, o prefeito do Rio de Janeiro pareceu agir como um beócio, um néscio, um estulto. Afinal, favoreceu a ampla divulgação da cena de dois rapazes se beijando, exatamente a que afirmava ser danosa a crianças e adolescentes.
Marcelo Crivella foi um sacripanta. Mas, sobretudo, foi calculista. Sabia exatamente o que aconteceria e que seu nome seria comentado em todo o país e até internacionalmente, pois a HQ é da editora Marvel. Buscou se cacifar junto ao público/eleitorado conservador. Não quis perder terreno na corrida que vem sendo disputada no Brasil e que teve etapa quente na semana da pátria: a dos cavaleiros das trevas.
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Luiz Fernando Vianna, Época, 98/09/2019, 12:01 hs
sábado, 7 de setembro de 2019
BBMP
O Bahia segue em ótima fase no Campeonato Brasileiro. Na manhã deste sábado, mesmo num São Januário lotado, com 22 mil pessoas, o Tricolor de Aço derrotou o Vasco por 2 a 0 e chegou à sexta posição na tabela, entrando na zona de classificação para a Libertadores. Nino Paraíba e Gilberto, com um golaço, marcaram.
(...)
Globo.com, 07/09/2019, 13:06 hs
SEXO NÃO É OBCENO, GUERRAS SÃO OBCENAS
RIO - A polêmica sobre a censura aos quadrinhos com um beijo gay, vendido na Bienal do Livro, teve mais uma reviravolta. O presidente do Tribunal de Justiça , Claudio de Mello Tavares,concedeu, no início da tarde deste sábado, liminar favorável à Prefeitura do Rio, cassando a decisão anterior que impedia o Município de "buscar e apreender" o livro "Vingadores — A cruzada das crianças" . A nova decisão da Justiça autoriza os fiscais da prefeitura a recolherem a obra da Marvel , que traz uma cena de beijo entre dois personagens masculinos, e qualquer outro tipo de publicação com conteúdo que aborda o que o prefeito
Marcelo Crivella trata como "homotransexualismo" (sic). Os procuradores do município, que entraram com a liminar de sexta-feira, dia 6, às 23h, alegaram urgência na decisão por entenderem que o caso é "de grave lesão à ordem pública", impedindo a prefeitura de fiscalizar.
A decisão anterior do desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes, da 5ª Câmara Cível, suspendia inclusive a cassação da licença de funcionamento da Bienal. O procurador-geral Marcelo Silva Moreira Marques e o subprocurador Paulo Maurício Fernandes da Rocha também pediram que isso fosse revisto. Na sua fundamentação para o recolhimento do livro dos autores Allan Heinberg e Jim Cheng, a PGM ressalta a importância "da supremacia da lei, da família e do Poder Público Municipal, na proteção imperativa à criança e ao adolescente vulneráveis no segmento comercial aqui visitado (na Bienal)".
O argumento da pefeitura é de que a Bienal do Livro do Rio, por ser o maior evento literário do país, é uma oportunidade de aproximação dos seus autores com o público e que os livros considerados impróprios estavam sem plástico protetor e informações sobre o seu conteúdo . O pedido feito ao presidente do TJ alega ainda a necessidade de se preservar a "Família Carioca", o que seria competência do Município.
(...)
Vera Araújo, O Globo, 07/09/2019,15:54 hs
DIRIGINDO E BEBENDO
Já é agosto e eu não
leio um livro há seis meses
a não ser por um troço chamado A Retirada de Moscou
de Caulaincourt.
Ainda assim, estou feliz
andando de carro com meu irmão
e bebendo um pint de Old Crow.
Não estamos indo a lugar nenhum,
só estamos indo.
Se eu fechasse os olhos por um minuto
estaria perdido, contudo
eu poderia facilmente deitar e dormir pra sempre
na beira desta estrada.
Meu irmão me cutuca.
Para que algo aconteça, está por um triz.
Raymond Carver
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
O QUE É UM TÉCNICO EM SAÚDE MENTAL
O conceito de "técnico em saúde mental" está em construção. Desse modo, é possível enumerar alguns elementos teórico-clínicos como referência. Vejamos: 1- A existência de um tal técnico está condicionada à visão de que a "saúde mental" excede os limites do saber biomédico. Ou seja, tratar a saúde mental de alguém implica em considerar o primado da realidade social em relação ao organismo dito doente. 2- Ao falarmos de realidade social, é preciso dizer que não se trata de "um depois" do organismo "doente", mas sim uma categoria-chave para compreender o próprio organismo, mesmo em afecções claramente orgânicas (um traumatismo crâneo-encefálico, por exemplo).3- O técnico dispõe, portanto, de uma concepção de subjetividade (aquele que fala) como sendo gestada no plano da sociedade. Mais ainda, como sendo a própria sociedade falando a nós por meio de algum transtorno mental, para se usar (num outro sentido) um termo-chave da psiquiatria. 4- Ora, se partirmos do social-em-nós, o técnico em saúde mental, para bem atuar, necessita, antes de tudo, escapar da órbita do especialismo, tornar-se um terapeuta, o qual, segundo a origem grega, é o que está para servir. 5- Não sendo um especialista, a sua linha técnica (intervencionista) busca extrair, captar,"roubar" do psicólogo, do psiquiatra, do enfermeiro, do assistente social, do professor de artes, e outros da equipe técnica (penso num Caps), fragmentos de saber que sirvam ao paciente como potência de viver e autonomia subjetiva e não como adaptação social para uma possível cura. Aliás, este termo da medicina é inútil e danoso para o trabalho em saúde mental. Em suma, são 5 características (há muitas outras...) que se interpenetram numa produção conceitual apenas esboçada.
A.M.
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