terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O PAPA SE IRRITA

O Papa Francisco se irritou depois de ser puxado por uma mulher nesta terça-feira (31) na Praça de São Pedro, no Vaticano. O pontífice, que cumprimentava fiéis reunidos, aparece com semblante indignado na filmagem que capturou o momento.

A mulher, vestida de preto, puxa Francisco no momento em que ele começa a se afastar da multidão, depois de estender a mão para tocar uma criança. O gesto abrupto pareceu causar dor, e Francisco dá um tapa na mão da mulher depois de algumas tentativas de se desvencilhar.
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Por G1, 31/12/2019, atualizado há uma hora
Se for dizer a verdade aos outros, faça-os rir, do contrário eles o matarão.

Oscar Wilde

MARTIN SCORSESE, O CINEMA

Se fosse uma partida de mus, um jogo de cartas bastante popular na Espanha, 2019 obteve quase as mesmas cartas que 2018, mas a cada envido (aposta) do ano passado, o atual lhe respondeu com mais apostas. E se a Netflix tiver problemas? Mais duas. E se os filmes de super-heróis devorarem os outros? Mais sete. E se o Leão de Veneza for polêmico? Mais 17. E se uma obra de alguma plataforma online ganhar o Oscar de melhor filme? Aposta total... as cartas serão reveladas em 9 de fevereiro.

Outro debate significativo, sobre se aquilo que uma plataforma digital produz é cinema, já foi concluído. Independentemente da forma (assim como nas salas de exibição não há apenas cinema, o cinema não é feito apenas para as salas de exibição), o conteúdo triunfa: o importante é a linguagem. Pelo menos é isso que os criadores já entenderam: Martin Scorsese, protagonista por duplo motivo deste 2019, foi produzido pela Netflix, e suas críticas não são por isso, e sim pelo efeito avassalador dos filmes da Marvel ― em geral, de super-heróis ― sobre as demais obras cinematográficas.

No The New York Times, o cineasta afirmou: “Em muitos filmes de franquias trabalham artistas autênticos, pessoas de talento. Sei que, se eu fosse mais jovem, se tivesse amadurecido numa época posterior, possivelmente me apaixonaria por esses filmes e talvez até quisesse fazer um. Mas cresci quando cresci, e desenvolvi um sentido sobre o cinema tão distante do universo Marvel quanto nós, na Terra, estamos de Alpha Centauri [...]. Para mim, para os cineastas que passei a amar e respeitar, o cinema consistia em uma revelação estética, emocional e espiritual. A chave estava aí: era uma forma artística. Nos filmes de Marvel não há revelação, mistério nem autêntico perigo emocional. Não há nenhum risco”. Ele alertou sobre o perigo real: o pouco espaço que o cinema de franquia deixa para os demais filmes nas salas de exibição.
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Gregorio Belinchón, EL País, Madri, 29/12/2019, 16:33 hs

domingo, 29 de dezembro de 2019

ALEXEY SHALAEV


ossada

o esqueleto que mora em mim
saúda o esqueleto de todo mundo

no fundo no fundo
somos muito parecidos

(pra quê orgulho?)


líria porto
MIL ENCONTROS

Em tempos idos, trabalhamos o conceito de Encontro a partir de Espinosa, Moreno, Martin Buber e Deleuze-Guattari. Estes autores compuseram uma espécie de matriz teórica para pensar o encontro, considerando-se o próprio encontro com eles. No entanto, para além de um cais seguro,outros autores foram conectados, formando um extenso rizoma onde e por onde linhas de pesquisa se tecem. Mais ainda além e aquém de tais conexões, o conceito de encontro passou a ser engendrado no devir da clínica em psicopatologia. Observamos: a cada processo terapêutico aparecem signos que enriquecem o conceito, tonando-o peça essencial na construção de uma prática-clínica da diferença. Alguns desse signos podem ser registrados como balizas existenciais numa aventura em plagas do novo, do indeterminado e do desconhecido. Mistério da subjetividade. Em primeiro lugar, o signo da loucura como o lugar do não-lugar das significações prévias. Deserto de valores, vazio de sentido. Em segundo, o signo da morte, da finitude, da perplexidade em face do fio tênue da vida atravessando os discursos. Em terceiro, a irreversibilidade do tempo que passa e não volta jamais, truísmo imbricado na economia psíquica, e por isso nem sempre valorizado. Em quarto, a inferência direta do fracasso monumental da estadia da humanidade na Terra e o seu pesadelo do qual não se desperta. Em quinto, a relação indissociável dos modos de subjetivação com as formas sociais expressas segundo a ordem do capitalismo aparentemente vencedor. Tais pontos de ancoragem do pensamento do encontro com a diferença podem e devem transmutar-se em mil linhas de intervenção prática na clínica psicopatológica, de onde se pode extrair a alegria de experimentar novos encontros. Sem garantias de poder, felicidade, sucesso,  dinheiro, prestígio, valores humanos, demasiado humanos, como diria o bigodudo alemão do século XIX.

A.M.

CORINGA - direção de Todd Phillips, 2019

sábado, 28 de dezembro de 2019

Qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Por isso, não deixe ninguém saber que você ama.

Nelson Rodrigues

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A PSICOPATOLOGIA AGONIZA

Um meu amigo vai ensinar psicopatologia para alunos do curso de psicologia. A universidade é pública. Disse-lhe que a psicopatologia atual, a que deveria servir de instrumento teórico-clínico à psiquiatria, agoniza. A psiquiatria biológica, amante e idólatra das sinapses cansadas e dos fármacos à mão cheia, já nem precisa da psicopatologia, exceto para registrar a depressão crônica que nos assola a todos, inclusive a própria psiquiatria. Também disse que se ele conseguir divorciar, separar a psicologia da psiquiatria, terá realizado um grande trabalho no semestre letivo. Os alunos, enfim, começarão a pensar.

A.M.

ANDRE KOHN


O SILÊNCIO QUE FALA

O presidente Jair Bolsonaro, conhecido por sua verborragia, manteve um incômodo silêncio, até o momento, sobre o ataque à sede da produtora do Porta dos Fundos, no dia 24 de dezembro. A tentativa de incendiar o local ocorreu após ameaças por conta de seu especial de Natal - um programa de humor sobre o aniversário de Jesus.

Da mesma forma, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, não se manifestou a respeito do caso - apesar do ataque representar uma afronta ao Estado de direito e à liberdade de expressão. Preferiu apoiar o indulto de Natal a policiais, defender sua visão do pacote anticrime, fazer propaganda pessoal e posar ao lado de uma estátua de Winston Churchil nas redes sociais.

Em um contexto de intolerância deflagrada, o silêncio da principal autoridade do país e de seu auxiliar para questões de direitos fundamentais, após um ataque terrorista, soa como anuência. Pior, como endosso. Esse silêncio se espalha como um vírus, infeccionando a democracia e oferecendo a fundamentalistas religiosos, fanáticos políticos, racistas, fascistas, incels, milicianos ou imbecis mal-intencionados a certeza da impunidade para que imponham mais medo.

Bolsonaro não precisa concordar com o Porta dos Fundos, mas proteger a democracia. O problema é a dificuldade em proteger algo do qual entende-se muito pouco.
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Leonardo Sakamoto, UOl, 27/12/2019, 04:36 hs

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Música surda

Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.


Dante Milano

O cérebro MENTE

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

SOBRE A DIFERENÇA

Pergunta-se o que é a diferença.  A diferença não é o indivíduo, não é a pessoa, não é algo fixo e estável onde se possa ancorar o corpo e a alma exaustos. Nem tampouco ver, assuntar, medir, pesar, adjetivar, qualificar. Ela não é do campo do substantivo nem do adjetivo, nada tem a ver com alguma substância dura, pétrea, imóvel, formatada em ideais de valor de troca. Nada a ver com a troca, pilar e essência do capital em seu cortejo mortuário. Ela não é o ser-diferente, até porque não há o ser. Não é o estranho-em-nós. Já somos de antemão  e suficientemente estranhos, estranhos a nós e ao mundo. Não há cálculos para identificá-la. Quando há, dão sempre errado, as contas não fecham, tudo se frustra e se decompõe. Ao inverso e bem mais além aqui mesmo, há somente corpos, corpos de corpos, corpos no interior de corpos, devires, processos, passagens, relãmpagos, vertigens, intensidades, frêmitos, respirações, ardores, ardências, viagens anômalas no mesmo lugar. Da diferença não se alimenta o narcisismo porque também não existe o narcisismo no seu universo, este sim, verso encantado, encantador e cantador em estradas desertas. A diferença é o bicho. Não tem forma, não é identificável pela percepção de representações exatas ou imagens-clichês. A diferença é o bicho na espreita. Percorre o mundo em linhas finas de sensibilidade. Com delicadeza foge de todos os dualismos, de todos os títulos, de todos os senhores, de todas as pátrias, de todas as pretensões e boas intenções da racionalidade, da consciência e do pensamento da autoridade, mesmo a mais admirável e mansa. Brinca com o poder, com a morte e com o amor. Faz disso a própria natureza do seu percurso invisível e silencioso pelos caminhos desconhecidos do encontro. Composta de multiplicidades ingênuas e  encravada na irreversibilidade do tempo, se tece e se faz inglória e pura. Mas quem a suporta?

A.M.