quarta-feira, 2 de setembro de 2020

CUIDADO COM AS VACINAS

As futuras vacinas contra a covid-19 não protegerão todas as pessoas que as receberão. Ter 100% de eficácia é sempre um sonho, mas é possível que algumas das primeiras vacinas contra o novo coronavírus estejam tão distantes desses 100% que seria melhor até mesmo não ter nada, como adverte agora um grupo de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Nenhuma das 33 vacinas experimentais que já estão em fase de testes em humanos demonstrou a sua segurança e eficácia por enquanto. “Existe o perigo de que as pressões políticas e econômicas para introduzir rapidamente uma vacina contra a covid-19 possam provocar a introdução generalizada de uma vacina que na verdade seja muito pouco efetiva, por exemplo, que só reduza a incidência em 10% a 20% a incidência da covid-19”, alertam os especialistas, entre eles a médica colombiana Ana María Henao, coordenadora do Plano de Pesquisa e Desenvolvimento de Diagnósticos e Vacinas da OMS. O Governo de Donald Trump prometeu iniciar a administração da vacina nos EUA já em outubro, bem a tempo para a reta final da campanha para a eleição presidencial de 3 de novembro.
(...)
El País, Manuel Ansede, 01/09/2020, 14:14 hs

LENY ANDRADE

terça-feira, 1 de setembro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 5
17 de agosto de 2010

Antes de trabalhar num Caps, já me interessava operar uma clínica em saúde mental,  bem mais e muito fora da psiquiatria bio-manicomial. Ora, se descolarmos a saúde mental da psiquiatria ( ou a mente do cérebro) obteremos suportes conceituais para existir tal clínica.  Ela é a clínica psicossocial. Na prática seria o Caps em sua expressão mais "perfeita". Nos atendimentos (poucos nessa época) eu seguia dois eixos técnicos: 1-buscar uma etiologia (causa) multifatorial dos transtornos; 2- estabelecer uma (ou até mais que uma) hipótese diagnóstica que servisse como função terapêutica e não como controle do outro.  Isso era  básico no exercício da clínica (o Encontro). E para  ser possível levar esses dois eixos ao trabalho multidisciplinar, (óbvio que eu não estava sozinho)  precisava dos demais técnicos. Dito de outro modo,  me concebia como membro técnico incorporado à equipe. Não o contrário como acabei verificando depois. Trabalhei com pacientes a partir das observações individualizadas no prontuário. A letra fria. O Caps (enquanto técnica de cuidado) a mim então se mostrou amputado do exterior, do socius, da instituições, do mundo. Não faltava atenção, colaboração e empenho dos técnicos, sim, mas  não impedindo que o velho modelo do organismo mental/cerebral doente prevalecesse como princípio e regra do trabalho clínico. Um indício de que algo mais profundo e grave ocorria com o dispositivo Caps II se esboçou na minha mente.

A. M.

Stop-Motion - Sol León & Paul Lightfoot (NDT 1 | Start Again)

Modo de amar – XV
(A boca – A rosa)

Entreabre-se a boca
na saliva da rosa

no raso da fenda
na fissura das pernas

Entreabre-se a rosa
na boca que descerra
no topo do corpo
a rosa entreaberta

E prolonga-se a haste
a língua na fissura
na boca da rosa
na caverna das pernas

que aí se entre-curva
se afunda
se perde

se entreabre a rosa
entre a boca
das pétalas


Maria Teresa Horta

domingo, 30 de agosto de 2020

O desespero eu aguento.
O que me apavora é essa esperança.

Millôr Fernandes

Da Servidão Moderna (Legendado PT-BR) 01/05

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 4
26 de julho de 2010


Com o nome ruidoso de "equipe técnica multidisciplinar" a proposta do Caps adentrava à vivência subjetiva do novo psiquiatra. Contudo, percebi que se não havia admissão (acolhimento) de novos pacientes, também não havia ação técnica integrada da equipe nem tampouco perspectiva de alta para os cadastrados no serviço.  O antigo manicômio, sem dúvida, ali havia freado a prática dos seus horrores, mas a alternativa de produção de outras clínicas de cuidado ao paciente (ou usuário) não constituia a ordem do dia, ou sequer uma agenda de projetos institucionais inovadores. Encontrei o Caps burocratizado em torno de um ideário abstrato que escondia o modelo biomédico, ainda vigente e tóxico. A reverência à psiquiatria como "visão de mundo" marcava a descrição dos comportamentos ditos patológicos. Tal funcionamento clínico talvez haja criado condições para futuras cronificações, não só de muitos pacientes, mas do serviço como um todo. Ao meu redor, a cordialidade dos colegas não evitava que eu entrasse numa solidão clínica aparentemente incurável.

A.M.  


RECEITA DO PODER

RIO - Obras e política social. A receita, tão conhecida na política brasileira, foi adotada pelo presidente Jair Bolsonaro nas viagens que tem feito pelo país. Para surfar a onda da popularidade trazida pelo auxílio emergencial, cujo efeito rendeu sua maior aprovação em um ano e meio de governo, segundo o Datafolha, o presidente intensificou visitas em cidades do Norte e Nordeste, numa agenda que incluiu inauguração de obras feitas por antecessores.

Desde abril, Bolsonaro tem priorizado locais onde o benefício de R$ 600 tem mais peso. Dos 23 municípios visitados desde abril, dez estão no Norte e Nordeste — sete viagens foram feitas de junho até agora. No Nordeste, especialmente, pesquisas apontam que o presidente tem avançado sobre a base lulista. No roteiro presidencial, pelo menos um em cada três habitantes está recebendo o auxílio. Em alguns casos, chega à metade da população.

Além do benefício, Bolsonaro vem aproveitando a conclusão de obras iniciadas em gestões anteriores — o aporte financeiro e o avanço nas intervenções em seu mandato foi mínimo. A estratégia é fazer do pacote assistencial e da entrega de empreendimentos uma marca do governo. Uma das obras inauguradas foi o Eixo Norte do projeto de Transposição do Rio São Francisco, iniciado em 2007. Depois de Lula, Dilma e Temer, foi a vez de o atual presidente deixar seu nome na placa, mesmo tendo avançado apenas 1% na execução do projeto, hoje em 97,49%, e pago R$ 675 milhões dos mais de R$ 10 bilhões investidos.
(...)

Pedro Capetti, G1, 30/08/2020, 04:30 hs

sábado, 29 de agosto de 2020

LOUI JOVER


10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 3
5 de maio de 2010

Com três semanas de trabalho fiz uma proposta à gerência: apresentar em reunião de equipe um texto da minha autoria sob o título: "Afetos esquizofrênicos". A proposta foi aceita de imediato. Era um escrito de página e meia. Eu gostava dele. Providenciei cópias para todo o grupo. Um método: ele consistia em distribuir (no momento da reunião) cópias para leitura prévia. Buscava usar o conteúdo para afetar o grupo e deflagar uma discussão coletiva. Afinal, se eu estava "chegando" no serviço, sentia a necessidade de saber como os colegas pensavam (e sentiam) o problema das psicoses, em especial, da esquizofrenia."Processos fisico-químicos não contém o significado da realidade, muito menos o sentido (...) (...) A psiquiatria desconhece o esquizofrênico (...)" Eis um fragmento do artigo. A apresentação se deu numa quarta-feira cinzenta e fria (inverno chegando...) mas nada houve de discussão. Houve sim um silêncio constrangedor inundando a sala e os rostos. E quem dissesse que o texto era muito teórico e por isso difícil. Mas a surpresa maior chegou após a reunião quando uma colega psiquiatra me falou à boca pequena: "concordo com tudo que você escreveu". Pensei cá pra mim: por que ela não falou para o grupo?

A.M.

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa


Paulo Leminski

10 ANOS DE CAPS:  RELATOS DO TEMPO - 2
12 de abril de 2010

A geografia do Caps II era composta por um corredor em "L"que fazia parte de uma antiga enfermaria (desativada) do Hospital Estadual Crescêncio Silveira. Ao longo do corredor estavam a recepção, a sala de espera dos pacientes, a sala da coordenação, a sala do médico, dos psicólogos, das assistentes sociais, da farmacêutica, salas maiores destinadas a oficinas terapêuticas (entre as quais, talvez pelo maior número de pacientes, a oficina de arte era destaque) e por fim, no desvio à direita, a sala da enfermagem e a copa-cozinha. Do lado de fora, à direita, uma área verde, não utilizada em atividades do Caps, permanecia como paisagem. Tal descrição é necessária porque o espaço interno restringia os pacientes à deambulação (ir e vir) num corredor único, o que fazia, óbvio, por lembrar um hospital. Mas o número de pacientes em nada congestionava a circulação, ao contrário. Logo fiquei sabendo que, por razões administrativas estavam suspensas as admissões (acolhimentos). Assim, pelo menos no início, um ar institucional, digamos, estagnado, preenchia o cotidiano dos atendimentos e das oficinas disponíveis. 

A.M.