quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

DEVIRES 

O paciente vive  entristecido pela Grande Máquina. Sua alegria  foi aniquilada  em plena  vigília.  Do nada.   Ninguém assume  a  autoria dos pequenos  crimes.  Eles   são  administrados em nome da  paz  de espírito.  Ora, o   espírito  também caga.  Avise  aos últimos  palhaços  que  a    arte   foi  solapada em nome do ideal dos   homens  de branco.  Ao que  me consta, nada  mudou no sulco das  bocas. Elas falam rachando dentes.    Mastigam   auroras   nati-mortas.   Mas o   Rosto carrega  uma expressão justa, como negar? A  bondade natural dos  humanos.  Ó Lovecraft,  socorrei! Apenas uma   cidade  respirando um  arco-íris, manda por  favor...  Não falo por  mim. Por  mim, ó... Falo pelo que  não sou, falo  por  devires. Escutai   a  canção   do mundo... Você  dança?  O paciente sucumbe à  Ordem.  Por  favor, o senhor pode  me dizer  as  horas? Já vai  tarde o tempo dos  mestres, com todo  o  respeito.   Sonâmbulos da própria  dor,  como  falar  aos  que  não  falam? A  Grande Máquina é uma   pequena dose de benefícios a  curto e  médio   prazo. Ela  se  insinua na febre dos corredores infectos. Um susto, um sus.  Tudo é  contágio. Resistir à  morte,  querida, e fazer dessa vibração algo novo, será  possível? Talvez um devir-amante   imerso  em trepadas millerianas. Bicho,  perdoa  o jeito canino: o que  é necessário  para  viver por  viver?   Pacientes  são pacientes  demais.  Armaduras químicas, lições de casa, manuais de sobrevivência, coisas  simples, eles   são  normais. Eu queria um gosto de  sol  em você, em suas dores mais  intensas e  irremediáveis. Pena  que  a sombra dos quintais do passado  anuncie sessões de  tortura regadas à dinheiro. A entrega  é  às  oito. Todos estarão  lá, até o  chefe da  Facção Sinistra,  aquele  mesmo que  começou a seduzir  a multidão  com  truques de  falar  macio.  Não   tem jeito. Somos  inocentes radicais.


A.M.

67 milhões de brasileiros não terão um Feliz Ano Novo l Tales faria

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

 Anônimo


 Onde você estava no dia onze de agosto de mil

[novecentos e trinta e quatro?

No Natal de setenta e sete,

no inverno de mil duzentos e treze?

Onde você se encontrava na madrugada do dia


 [vinte para o próximo dia,

primeiro de janeiro do ano passado,

primavera de sessenta e nove

do século quarto?


Onde você passava quando já era tarde

e ninguém te chamava

naquela noite dos anos dourados?


Quando tudo acontecia e sumia sem deixar

[rastros, por onde você andava?


Bruno Brum

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

Luiz Melodia - Que Loucura (Sergio Sampaio)

CONCEITO DE SAÚDE MENTAL

O conceito de "saúde mental"  constitui a essência da prática de um caps. Mesmo que não esteja explícito e/ou não operacionalizado, é o que move (ou deveria mover) o trabalho técnico. Vamos tentar descrevê-lo em dez ítens (poderiam ser mil, cem mil...). 1-"Saúde mental" se refere a um bem estar subjetivo inserido no conjunto das circunstâncias (condições) que chamamos de mundo; "mental" não é "cerebral", ainda que o cérebro seja um órgão, digamos, nobre. 2- O mundo é composto de instituições (família, escola, religião, estado, casamento, etc) e daí a saúde mental é avaliada junto ao funcionamento das instituições presentes em cada caso. É um conceito singular e mutável. 3-A saúde mental inclui, engloba a saúde do organismo visível (sistema de órgãos) do qual a medicina se ocupa (rins, fígado, coração e demais). Este organismo é essencial, mas não não é o objeto da pesquisa e da clínica em saúde mental. 4- Como a psiquiatria é uma especialidade médica, é importante descolar o conceito de saúde da psiquiatria (bom funcionamento do cérebro e adequação aos códigos sociais) do conceito de saúde mental (produtividade social, laboral e autonomia existencial). Dito de outro modo, separar a "saúde do cérebro" da "saúde da mente". 5- O cérebro, óbvio, é um órgão visível, palpável, mensurável. A mente é invisível, impalpável e não mensurável. Quem disser que já "viu, palpou ou mediu" a mente pode estar sofrendo de algum transtorno. 6- A técnica em saúde mental é regida por princípios éticos que valorizam a potência de viver uma clínica das singularidades em cada caso. Dai o uso do diagnóstico como função terapêutica e não como essência cadastrada (CID-10). 7- A posição antimanicomial é apenas um linha de combate que inspira e compõe as práticas em saúde mental. Há outras que não dizem respeito aos muros do manicômio. São linhas invisíveis que combatem microfascismos. 8 - A saúde mental é uma saúde da alma no sentido de lidar com o sem-forma. Ou seja, trabalhar sem crenças a priori (preconceitos); não sabe quem é o paciente. Retira o conceito de exame e põe no lugar o de "Encontro" não só com a pessoa do paciente, mas com tudo que lhe rodeia, o determina e o coage. 9- Saúde mental é um conceito que opera situações essencialmente práticas interferindo numa vida e mais que isso, produzindo uma vida. Daí florescer numa ética do Cuidado em oposição às redes institucionais modernas envelhecidas no "cuidado integral". ( corações manicomiais são apenas um dos exemplos). 10 - Concluindo, promover a saúde mental é promover a auto-saúde mental. A implicação numa clínica psicopatológica aberta às determinações (causas) múltiplas do sofrimento mental é a base para um trabalho (duro) no dia-a-dia de um caps.


A.M.

PLANO DE VACINAÇÃO


 

E O BRASIL?

SPUTNIK V NA ARGENTINA


Buenos Aires — O presidente argentino Alberto Fernández e os governadores do país decidiram, neste sábado, começar a vacinar os profissionais de saúde com doses russas de Sputnik V em menos de 72 horas, na esperança de que seja a base para aliviar as consequências graves do coronavírus.

— A ideia é que quando chegar o outono (no hemisfério Sul) teremos o maior número de pessoas em risco vacinadas, essa é a minha meta — disse o presidente do país sul-americano ao final do encontro virtual que realizou a partir da Residência Olivos em Buenos Aires com os representantes políticos de cada jurisdição.


O GLOBO, com agências internacionais, 26/12/2020, 20:37 hs

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.


Woody Allen

NÃO VEM MESMO!


 

QUEM FALA O QUE

Psiquiatra biológico - Estamos do lado da ciência neuro-biológica  e das  tecnologias  de ponta. Falamos em nome delas. Trazemos os modernos avanços das pesquisas em neurociência, principalmente quanto aos processos da memória. Na verdade,  afirmamos com convicçâo e fé que  somos a própria ciência. Trazemos a verdade do conhecimento científico para poder ajudar os portadores de transtornos mentais. Fora disso, não há solução. Só o charlatanismo, a taumaturgia, o esquerdismo e o caos nos serviços de saúde mental.

Representante da Luta Antimanicomial - Sobre o discurso acima,  é do tipo "glace de bolo". Tem uma casca humanista e científica ornando sua aparência de bondade, mas que não resiste a uma análise crua dos fatos. Os fatos são o funcionamento da sociedade: a pobreza e a miséria brutais. Esse discurso quer mais é assegurar o status médico. Sua ética deriva disso. É a ética do capital. O declínio dos manicômios (ainda que incompleto) pouco muda as coisas. Permanece a ótica psiquiátrica (mesmo entre os não-psiquiatras) encravada no corpo do paciente e sustentada por alianças políticas com instituições poderosas: a medicina, o estado, a mídia, os laboratórios farmacêuticos, o grande capital, etc... 


A.M.

domingo, 20 de dezembro de 2020

A DIREITA NO PODER

A direita, desde os avoengos, existia quando alguém (não uma pessoa, mas um coletivo) sentia a necessidade de argumentar (ou sofria o pavor) em face dos processos do afeto ou seja, dos devires: o inconsciente, não dentro do cérebro mas como campo social. Esse fato tem um alcance histórico-social que compõe a "evolução" da humanidade, sem dúvida, um pesadelo que não acaba nunca. Assim, a direita começa desde sempre como aquilo que freia os devires. Usamos esse conceito no plural porque não existe um devir único, universal para todos. Pensar assim é contrariar a natureza dos devires, toda ela grávida de criação ilimitada num tempo irreversível. Os devires constituem então o real em si mesmo, compondo mil territórios, cem mil, milhões de funcionamentos da subjetividade em qualquer região do planeta. Ora, já que é impossível, numa análise dos signos do real (as linguagens) abarcar toda a amplitude desses tempos irreversíveis, resta operar um peneira no caos da existência e estabelecer alguma verdade potencial, atuante, fragmentária e alegre.Tais pressupostos filosóficos não são abstratos, e sim ferramentas que fraturam os aparelhos de tortura da direita, por exemplo, no campo psiquiátrico. Aí, neste campo complexo e essencialmente ético-político, a ideação tosca da clínica psicopatológica da psiquiatria atual se expõe servilmente ao funcionamento do capital (mais, mais lucro, mais poder, mais controle...), gerando monstruosidades éticas em nome de um conceito espúrio de saúde mental. De volta ao início desse breve texto, a direita traça a sua linha performática das boas intensões administrativas na esteira de um cientificismo à la Comte. O discurso da saúde coletiva (e do SUS, óbvio) é escorraçado como delírio incurável.


A.M.

LIVE do Caetano de Natal #LivedoCaetanodeNatal

sábado, 19 de dezembro de 2020

As coisas que te cercam, até onde

alcança tua vista, tão passivas

em sua opacidade, que te impedem

de enxergar o (inexistente) horizonte,

que justamente por não serem vivas

se prestam para tudo, e nunca pedem


nem mesmo uma migalha de atenção,

essas coisas que você usa e esquece

assim que larga na primeira mesa —

pois bem: elas vão ficar. Você, não.

Tudo que pensa passa. Permanece

a alvenaria do mundo, o que pesa.


O mais é enchimento, e se consome.

As tais Formas eternas, as Ideias,

e a mente que as inventa, acabam em pó,

e delas ficam, quando muito, os nomes.

Muita louça ainda resta de Pompéia,

mas lábios que a tocaram, nem um só.


As testemunhas cegas da existência,

sempre a te olhar sem que você se importe,

vão assistir sem compaixão nem ânsia,

com a mais absoluta indiferença,

quando chegar a hora, a tua morte.

(Não que isso tenha a mínima importância.)



Paulo Henriques Britto