Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
terça-feira, 28 de setembro de 2021
sábado, 25 de setembro de 2021
NENHUM MISTÉRIO - VII
Chega um momento em que as mãos
já não querem cumprir ordens.
Não pegam mais, não apertam,
e sim mordem.
Os olhos se cansam da luz,
os pés desprezam os pisos,
a mente rejeita todo e
qualquer juízo.
E o rosto — este velho disfarce
velhaco, por trás do qual
não há outra coisa senão
uma máscara igual,
o rosto nem mesmo se esforça
pra parecer que não é outro.
(Já, já não será mais preciso
fingir-se de morto.)
Paulo Henriques Britto
NEURÔNIOS AFLITOS
A relação psiquiatra-paciente está marcada pela história do poder psiquiátrico consolidado no século XX. Nos dias que correm, são muitas as suas máscaras, muitos os seus disfarces. Existe, por exemplo, a psiquiatria oficial com expressão mercadológica (publicitária, midiática) obtida através das associações da categoria (há muitos sites à respeito), a psiquiatria biológica em sua versão humanista ou a psiquiatria universitária operando pesquisas duplo-cego sob o manto epistemológico apaziguador da ciência "neutra". Essas e outras formações institucionais se nivelam numa crença comum: o paciente é um organismo individual (físico-químico) avariado. Resta ao psiquiatra prescrever remédios à mão cheia. E "consertá-lo". Isso garante ao profissional do "cérebro-mente" uma estabilidade existencial, para não dizer material, um status, um território de poder e uma respeitabilidade científica (?!). Antes da terapêutica adotada, invariavelmente psicofarmacológica, um cientificismo oculto lhe confere a fármaco-verdade. Por isso o ato de medicar se reveste de nuances quase sempre desconhecidas e é aceito, em geral, como benefício inquestionável.
A.M.
sexta-feira, 24 de setembro de 2021
Perplexidades órfãs – VIII
Depois de uma breve conversa (no caps) com um colega, saquei algo muito simples. Não queremos acolher porque não sabemos escutar. Técnicos sem técnica.
Setembro amarelo chegando ao fim. Mas os ipês continuam.
A cada hora chegam rumores de Brasília. Você ouve vozes? Não se assuste. Os canalhas passarão.
O vulcão das ilhas Canárias, sua belíssima cor sanguinolenta e a lava escorrendo. Parece uma mulher que se insi-nua.
O contra-cheque mensal ou a servidão ao capital como prato de comida (bóia). Esta é a oferenda macabra à sobrevivência. Agradeça, bicho.
Há muitos delírios na praça. Na escala e na escola dos horrores, o fascista é o da nota dez. Um crânio.
O pesadelo da humanidade nunca foi pior que o dos tempos internéticos. Tudo é uma questão de método. Intoxicados pela informação, corpos-zumbis, mentes suicidárias, lá vamos nós, contemporâneos do apocalipse.
Os fascistas não poupam sequer os autistas. Nem os adolescentes. Cuidado: por vezes se disfarçam de médicos ou educadores.
Não existe a criança como um ser puro. Existe a velocidade-criança em cada um. Os poderes estabelecidos sabem disso. E mandam porrada.
Amanhã vai dar praia, mesmo não tendo praia.
A.M.
INCERTEZAS
como deleuze pensa o mundo a partir da lógica da mudança, do devir?
em deleuze é difícil encontrar uma visão do mundo. o mundo é um cruzamento, é um ovo. ora, no mundo você tem as estruturas duras, você tem sistemas fortes, um capital financeiro dominante… mas há pulsações, há uma variabilidade permanente. é essa complexidade que impede que você impinja a ela uma visão de mundo que seja ou catastrófica ou conservadora, seja lá o que for. deleuze tem o mundo como uma indagação permanente a ser levada a cabo a cada encontro. é preciso, apesar de tudo, ter fé para que isso seja possível. essa crença deleuziana é um dos tópicos mais difíceis de se desvendar, pois não é uma crença simplesmente caudatária das crenças religiosas, é uma crença que leva você a perguntar pelas próprias razões e ainda ser possível acreditar no mundo, tendo sempre a mesma consciência que ele tinha quando desenvolveu as análises a respeito da obra de akira kurosawa – o mundo é uma problemática que vale a pena ser cuidada.
(...)
luis orlandi, entrevista a fernanda bellei em 19/01/2009 (extraido do site instituto cpfl/cultura)
quarta-feira, 22 de setembro de 2021
Nem tudo que tentei perdi. Restou
a intenção de ser alguém ou algo
que não se pode ser, mas só ter sido;
restou a tentação do nada, nunca
tão forte que vencesse esse meu medo
que é a coisa mais honesta que há em mim.
Sobrou também o hábito vadio
de me virar do avesso e esmiuçar
as emoções como quem espreme espinhas.
Mas nada disso dói; a dor é um ácido
que ao mesmo tempo que corrói consola,
é uma coceira que vem lá de dentro
e me destrói sem dignidade alguma.
Paulo Henriques Britto
terça-feira, 21 de setembro de 2021
Perplexidades órfãs - VII
O ministro da Saúde, Marcelo Quiroga, mostrou o dedo do meio ( com as duas mãos) para uma multidão de manifestantes contra Bolsonaro em Nova York. Teria sido mais elegante se ele mostrasse o dedo polegar, aquele que empurra o êmbolo da vacina anti-covid no braço dos brasileiros.
A verdade costuma ser produzida pelo poder já que o poder é mantido por forças. Assim, a mentira mais deslavada pode se tornar uma verdade. O discurso do presidente na ONU foi uma repetição do cercadinho de Brasília.
Os tempos políticos, em terras brasílicas, devem piorar. Trovões à caminho movimentam corações fascistas. A versão brasileira do fascismo é a pior de todas, desde 1922. Tem o nosso jeitinho.
O grande olho imaginário-delirante da presidência criou um uiniverso social paralelo para valores de rebanho.
No lugar de Deus, Belzebu costura sua linha silenciosa, traiçoeira, violenta e fake.
Saímos da política, entramos na política. Eternamente em berço esplêndido, ó pátria amada.
A.M
sábado, 18 de setembro de 2021
Perplexidades órfãs – VI
O caso Sashira: a monstruosidade humana a cru.
Setembro amarelou nos ipês da cidade.
No cotidiano de um Caps fluxos de loucura jamais adotam um rosto fixo. Circulam livres.
O sentido das depressões é não ter sentido.
O tempo tem passado tão rápido... cada vez mais, mais, mais. A hora da delicadeza não chega.
Existe a psiquiatria oficial, manicomial, comercial, normativa, acadêmica. Delícia traí-la.
O fascismo à brasileira prossegue sua volúpia pela morte. Sonhos adolescentes resistem.
Atenção: quando um paciente fala são mil vozes que falam. Elas vêm de outras terras, planetas desconhecidos, buracos do mundo.
Não existe o amor. Existe o amar.
O caso Sashira: é isso, um homem?
A.M.
quinta-feira, 16 de setembro de 2021
O SENTIDO DAS DEPRESSÕES
As depressões atuais se espalham num amplo espectro de acontecimentos, onde a etiologia (causa) e o quadro clínico (sintomas) são múltiplos. Desse modo, é essencial para uma clínica da diferença em psiquiatria ( um paradoxo!) não considerar as depressões no sentido biomédico. Dupla traição: trair a psiquiatria como especialidade médica e à psiquiatria como instituição (forma social). As depressões não são, pois, uma doença do cérebro, mesmo que este se mostre alterado em seu funcionamento. Ora, qualquer afeto produz efeitos sobre o cérebro, mesmo e principalmente um "bom" afeto, por exemplo, a alegria. Ela embriaga. Assim, na análise semiológica do Encontro com o paciente, as perguntas devem partir do Mundo para o eu, e não o contrário. De onde você veio, onde você vive, com quem vive, como vive, trabalha, como trabalha, em que acredita, amores, quais seus amores, etc. São linhas existenciais que mapeiam singularidades. Sim, talvez haja necessidade de um anti-depressivo...e se houver, será na contextualização de um tempo desejante. Ou seja, tudo pelo gosto de viver. Pena que as cronificações depressivas ( no Caps são tantas...) circulem e se mostrem cada vez mais explícitas. No entanto, como poderia ser diferente se a própria psiquiatria anda deprimida? Sinapses esgotadas... neurônios aflitos... angústia... A alma em colapso.
A.M.


