Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 14 de novembro de 2021
sábado, 13 de novembro de 2021
O que é organização?
Uma organização social é um conjunto de pessoas (ou indivíduos) com objetivos comuns. Isso os une. A organização é um grupo ampliado. Entre seus objetivos práticos está contida a natureza do trabalho, não só remunerado. É na execução do trabalho que funcionam afetos.
Entre as organizações, há variadas estruturas jurídicas, bem como objetivos diversos. Consideramos nesse breve texto tão só o campo do serviço público em saúde.
Seja, pois, uma organização (ou serviço) em saúde mental. Os grupos que a constituem são por sua vez codificados em linhas institucionais (formas de relação social). Algumas delas seriam: divisão de trabalho, hierarquia, formação e função técnica, salário, servidor público, gênero, papel social, etc. A lista é extensa.
Desse modo, para além da organização visível, há níveis de funcionamento do serviço que não são captados a “olho nu”. É, então, possível considerar os grupos (subgrupos), as instituições e os afetos. Estes últimos são o combustível que faz andar (ou desandar ) a organização.
Eles são a produção.
Afetos remetem a pessoas. Entre elas, ou seja, na relação umas com as outras é onde se dá a prática diária do trabalho para obtenção dos objetivos propostos. Isso parece óbvio.
Entre pessoas é onde correm e escorrem fluxos de produção ou de antiprodução dos resultados.
Circulando sem parar, há, então, três correntes de afetos possíveis 1- atração; 2-repulsão; 3-indiferença. Elas se sustentam na função técnica. Você faz bem o seu serviço? As relações são técnicas e é nesse nível que alguém é atraído (gosto de trabalhar com você), sente repulsa (não gosto de trabalhar com você) ou é indiferente (para mim tanto faz).
É um quadro que apareceria explícito nas reuniões, conversas, discussões de casos e problemas do dia a dia do serviço.
Mas nem sempre. Há camuflagens.
É que a realidade das relações humanas é muito mais complexa. Dois elementos a fazem mutante, plástica e por vezes misteriosa. O primeiro diz respeito à mutualidade dos afetos. Uma atração pode não corresponder a outra atração e sim a um rechaço. Ou o inverso. Além disso, tal configuração pode mudar ( a atração pode se tornar indiferença ou um rechaço).
Há um processo do tempo institucional. Que não volta. Este é o dinamismo que nos leva ao segundo elemento da realidade, aquilo que está “escondido”, o invisível.
O conjunto das correntes afetivas que não se mostra, que não se explicita (por variados motivos) pode ser chamado de inconsciente institucional. Não no estilo freudiano como “a outra cena” mas como a cena real do cotidiano do serviço, onde e quando os afetos são a própria consistência do viver (um território) de se estar trabalhando com prazer, alegria, tristeza ou irritação, entre tantos afetos que “empurram” a produção.
Produção do trabalho como de si mesmo: a subjetividade.
A subjetividade do trabalhador é produzida pelo que ele trabalha, como e onde trabalha, com quem, por que, para que e para quem. Marx vive.
Voltando à realidade de um serviço público em saúde mental, a natureza do trabalho, ou seja, o que lhe dá valor e sentido é o cuidado ao paciente. As questões institucionais, subgrupais e afetivas, importantíssimas para esse cuidado, devem ser expostas e debatidas unicamente com esse fim, sob pena da equipe técnica se esfarelar como uma psicose coletiva de mau prognóstico: a pseudo-equipe.
Assim, só uma auto-avaliação e uma auto-criação permanentes encontram saídas para os impasses do serviço.
A.M.
sexta-feira, 12 de novembro de 2021
terça-feira, 9 de novembro de 2021
O que é arte em saúde mental?
Como foi dito, a saúde mental não é uma questão médica. É social. A medicina vem depois.
No entanto, o pensamento clinico costuma obedecer a ciência. Que comanda e prescreve.
Por toda a parte, técnicos de "branco", munidos de seringas e ampolas, mesmo que imaginárias, tentam escutar, acolher e cuidar. Tudo funciona a partir dessa consciência ética.
É parte do trabalho da equipe de saúde mental num serviço de atenção psicossocial.
Essa equipe lida com estranhas imagens (induzidas) das ruas: cérebros avariados, sinapses inquietas, neurônios aflitos, doidos varridos. Fantasmas reais assombram a Hora do acolhimento.
O acolhimento é um dispositivo técnico criado na história dos caps. Ele se baseia na ética da recusa à exclusão do paciente vindo dos tempos do manicômio. Tem uma feição de consulta ou triagem. Mas não é.
Daí, a questão da arte passa a ser hoje a escuta como miolo do acolhimento. Tal manejo só é possível se o técnico se separar do pensamento racional em direção ao pensamento da arte.
O pensamento da arte é um pensar livre.
O pensamento das sensações.
E nem é preciso que o técnico seja um artista. Basta que ele "viaje" (pelo menos na hora do encontro) do pensamento da ciência para o pensamento da arte: uma linha de criação se esboça como clínica do Novo.
Trata-se de uma sensibilidade, ou melhor, de mil sensibilidades vividas a partir das sensações que o paciente produz em nós.
A arte em saúde mental implica, pois, numa visão da clinica para além de toda moral julgadora.E de toda idolatria à ciência.
Experimente.
Escutar é arte, acolher é arte, cuidar é arte.
A.M.
CASA VAZIA
Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,
para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,
ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia
Alberto da Cunha Lima
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
domingo, 7 de novembro de 2021
O que é delírio?
Delírio é um dos principais sintomas em psicopatologia clínica. Numa visão biomédica, deve ser eliminado, como, por exemplo, se faz com uma dor de cabeça.
Ou ainda, segundo essa visão, remete a uma causa, a qual sendo eliminada, cessa o efeito (sintoma). Relação linear causa-efeito. A face tosca da "inteligência psiquiátrica."
Tanto num caso como noutro, a compreensão "do que é delírio" está falseada. Não conduz ao essencial que é cuidar do paciente. Leva apenas ao controle e à violência maquiada.
Mas, afinal, o que é isso, o delírio?
Delírio é uma vivência em que o juízo da realidade (de si e do mundo) está alterado. Mais profundamente significa dizer que uma outra realidade foi inventada. Trata-se de uma crença.
O que está em jogo então é a verdade. Pergunta-se: isso é verdade?
A questão da verdade abrange todos nós.A verdade vem de fora. Desde muito cedo nossos pais enfiam verdades em nossas mentes. Acreditamos, claro, sem questionar. E mais: a crença (qualquer uma) vem sempre acompanhada de um afeto. A crença na família, na escola, na pátria, em Deus, etc...
Delirar talvez seja acreditar no que ninguém ou poucos acreditam. A arte, a filosofia e a ciência fazem isso.
E por que surge o caráter patológico, ou seja, aquilo que conduz à busca de uma ajuda clínica? Lembremos que nem sempre o delirante quer ajuda. Isso é fácil de verificar.
De todo modo, o delírio em saúde mental remete a várias causas e formas clínicas. Os quadros mais graves são os que o paciente nem mais delira já que é o próprio delírio. São as psicoses por vezes chamadas de esquizofrenias.
A rigor, qualquer patologia mental pode apresentar delírio. Ou mesmo qualquer vivência mental não patológica ( desilusão amorosa, a morte de alguém querido, um trauma existencial) pode gerar um delirio.
O capítulo sobre delírio em psicopatologia é muito extenso. Convém destacar aqui o aspecto vivencial que o aproxima do normal ou do patológico.
Neste sentido o delírio do paciente pode estar próximo ao "delirio" do técnico que o acompanha. Esse fato nem sempre ocorre, claro, mas serve como linha comum do Encontro com a loucura, conforme exposto em texto anterior.
Concluindo, o delírio está em toda a parte onde há alguma crença. E sempre há. Ele compõe a realidade do mundo (veja a política...) e nem por isso risperidona e haldol lhes são prescritos. Só para delirantes cadastrados.
A.M.
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Paulo Leminski
sábado, 6 de novembro de 2021
O que é técnico em saúde mental?
Não existe uma Faculdade do “técnico em saúde mental”. É que não há identidade profissional... Como reconhecê-lo?
A formação do técnico em saúde mental se dá no Encontro com o paciente. Não no encontro com a pessoa do paciente, mas no encontro com a loucura do paciente. Isso faz toda a diferença.
Mais: no encontro com a loucura dele mesmo, o técnico.
Se há um Encontro, pois, é com a loucura.
É bom lembrar que “loucura” não é um conceito psiquiátrico. A psiquiatria (historicamente) humilhou e escorraçou a loucura.
Tentemos situar (apesar das dificuldades) esse conceito.
Loucura é uma realidade sem nome, dissolução do nome, frase desconexa, sem sentido, afeto estranho, conduta rota, mundo fora dos eixos.
Isso e muito mais, é loucura.
Curioso como a palavra pode ter significados opostos: 1- “Você não foi à festa. Perdeu. Foi uma loucura”. 2- “Meu amigo, não faça isso. É loucura.” No primeiro caso, “alegria, prazer”. No segundo, “ algo ruim, talvez suicídio.”
Entre os opostos, o nosso eguinho oscila como um pêndulo. Quem, pelo menos no pensamento e/ou no sonho, não experimentou loucuras?
O técnico em saúde mental só aprende a trabalhar lidando com isso (em si e nos outros), que no fundo é o mesmo: loucura do mundo.
Qualquer um pode entrar nessa “vibração louca sem estar louco”. É condição ética para escutar e cuidar do paciente. E nem é preciso que seja um técnico de nível superior. Às vezes é até melhor que não. Nesse campo de ação prática tão escorregadio, só sensibilidades finas interessam.
A.M.
PSIQUIATRIA: SAIR DE SI MESMA
Para ser possível pensar ( e não refletir sobre...) a Saúde Mental, é necessário fugir da psiquiatria como "concepção de mundo". Tal manobra conceitual só se torna possível abrindo-a aos fluxos de saber que estão fora, que são o fora, e com ela compõem agenciamentos produtivos de desejo. Desejo é produção. Tal é o caso da arte. Não como arte mercantil, monumental ou contemplativa, mas como expressão subjetiva de modos de viver. Mas não só a arte. Outros saberes, mil saberes circulam livres "à espera"de encontros com a clínica que travou a psiquiatria num nó neurobiológico e capitalistico. Seus compromissos políticos (às vezes implícitos e inconfessáveis) com agências de poder (Estado, Escola, Direito, Família, Polícia, Mídia, Mercado, etc), fazem dos possíveis encontros desencontros, ou simplesmente maus encontros. Sob tais condições, fazer uma psiquiatria da Diferença e não da Semelhança, e não da Academia, e não dos Remédios químicos, e não do Eu, e não da Verdade científica, implica em práticas isoladas e heteróclitas. Talvez sob camuflagem.
A.M.
quinta-feira, 4 de novembro de 2021
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa

