quinta-feira, 30 de junho de 2022

Of Any If And - William Forsythe (NDT 1 | Woven State)

POLÍTICAS  DA  HISTERIA


A psicopatologia do século XXI assiste à histeria não mais como uma entidade clínica, ao estilo dos tempos freudianos. Bem mais, o que hoje se observa são sintomas histéricos esparsos inscritos em corpos-organismos que a psiquiatria e saberes correlatos instituem sem cessar. Depressões, psicoses, manias, somatoses, anorexias e outras síndromes inomináveis, traçam um mosaico de sintomas que faz por estabelecer e preparar um campo nosológico "ideal" para o uso de psicofármacos. Trata-se de um máquina clínica funcionando na consciência do sofrimento psíquico, não só do paciente, mas dos que estão em torno (familiares, amigos, colegas, etc). A histeria não deixa dúvidas: o corpo que "não aguenta mais" (cf  David Lapoujade) é o corpo dos supliciados pela culpa, pelo ressentimento e pela vingança. Respiradores do ódio. Nesse mister a forma-religião (em destaque as cristãs) cumpre um papel milenar em aliança plena e feliz com as relações sociais capitalísticas. A política, distanciada e relegada às funções do Estado opressor, desaparece e reaparece como dor de existir em cada cidadão, mesmo e principalmente quando  não o admite.  Eis que o consumo das imagens-clichês da internet e similares emerge nas telas de um horror desejado à distância: Ucrãnia,  Amazônia, etc. O hiper-realismo...


A.M.

sábado, 25 de junho de 2022

Para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.


Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Måneskin - Beggin' (tradução)

poesia na veia


o capitalismo é de fato

um ser da morte

muito vivo



A.M.

MELANCOLIA  DO  SIGNIFICANTE

A linha de fuga é como uma tangente aos círculos de significância e ao centro do significante. Ela será atingida por maldição. O ânus do bode se opõe ao rosto do déspota ou de deus. Matar-se- á e se fará fugir o que pode provocar a fuga do sistema. Tudo o que excede o excedente do significante, ou tudo o que se passa embaixo, será marcado com valor negativo. Vocês não terão escolha senão entre o eu do bode e o rosto de deus, os feiticeiros e os sacerdotes. O sistema completo compreende então: o rosto ou o corpo paranóico do deus-déspota no centro significante do templo; os sacerdotes interpretativos, que sempre recarregam, no templo, o significado de significante; a multidão histérica do lado de fora, em círculos compactos, e que salta de um círculo a outro; o bode emissário depressivo, sem rosto, emanando do centro, escolhido e tratado, ornamentado pelos sacerdotes, atravessando os círculos em sua fuga desesperada em direção ao deserto. Quadro por demais sumário que não é somente o do regime despótico imperial, mas que figura também em todos os grupos centrados, hierarquizados, arborescentes, assujeitados: partidos políticos, movimentos literários, associações psicanalíticas, famílias, conjugalidades... O retrato, a rostidade, a redundância, a significância e a interpretação intervém por toda a parte. Mundo triste do significante, seu arcaísmo com função sempre atual, sua trapaça essencial que conota todos os seus aspectos, sua farsa profunda. O significante reina em todas as cenas domésticas, como em todos os aparelhos de Estado.

(...)


G. Deleuze e F. Guattari, in Mil platôs, vol 2

quarta-feira, 22 de junho de 2022

terça-feira, 21 de junho de 2022

Escuta em saúde mental


Escutar em saúde mental não é ouvir. Apenas.

O técnico em saúde mental tem orelhas enormes movidas a uma percepção delicada. 

Anda à espreita de novidades.

Contudo, em face da herança psiquiátrica, é muito difícil escutar. A psiquiatria não escuta. Mesmo que haja (raros) psiquiatras que escutem, isto se dá apesar da psiquiatria e não por causa da psiquiatria. Nesse mister ela é um horror.

Escutar passa essencialmente pelos afetos e perceptos. A psiquiatria não dispõe de uma teoria nem de um nem do outro. Como então estabelecer um vínculo com o “seu” paciente? Restou vampirizar sinapses cansadas.

Afetos do paciente, afetos do técnico. Perceptos do paciente, perceptos do técnico. Bons e maus. Construtivos e destrutivos. Esse é o jogo. 

Convém ao técnico em saúde mental não buscar ser juiz, policial ou professor. E saber que não julga, não pune nem salva.  Só tenta facilitar as coisas da existência.

A escuta é um conceito-chave em saúde mental.  Traz a pergunta: diante da loucura, o que é que eu faço? Que devo fazer? Uma ética.

A não-escuta reflete o mundo atual tecnológico. Ninguém escuta ninguém.

Assim, como acolher se não escuto? Como tratar se não escuto? Como cuidar se não escuto?

Expor-se às mil formas de ser/agir no mundo é a escuta em saúde mental. Nada fácil. 


A.M.

sábado, 18 de junho de 2022

CONCEITO DE FASCISMO

Numa democracia representativa é possível haver um extenso leque de opções político-ideológicas. Da extrema direita à extrema esquerda... muitos são os matizes... condição institucional para o jogo democrático. Isso é "normal" na democracia. No entanto, existe o fascismo e isso não é o normal do jogo. Não é, não segue as regras. Mas, afinal, do que se trata? Ninguém mais do que Félix Guattari furou o nervo da questão. Por isso ele fala de "microfascismos". Assim, a pesquisa sobre o tema incide na detecção de linhas fascistas funcionando na própria subjetividade, mesmo a mais bondosa, diga-se, plenamente inocente. Não é, pois, uma questão de consciência. O fascismo é algo interior que vem do exterior.  É preciso saber o que é isso. Do que se trata? São linhas existenciais tomadas de afetos (sentimentos, desejos) que seguem um processo voltado a obter um fim último onde apoiar crenças e valores: um líder, uma doutrina, uma teoria, uma religião, qualquer coisa. O que importa é que tal fluxo transcendente funcione como único e inquestionável sentido para a existência. Com Mussolini era assim. Com Hitler era assim. Com Stalin era assim.O que os diferencia são os vários contextos sócio-históricos. O que os aproxima é o apego à morte como grito de guerra. Morte ao Outro, morte à diferença, morte à singularidade, o ódio como modelo da vida. Isso é o fascismo, esse é o fascismo que nós brasileiros estamos vivendo. Enterrados e encerrados na cova dos trapaceiros da esquerda autoritária, nos restou o fascismo da direita como uma espécie de pseudo-salvação pífia. Como se não bastasse, a covid adora cortar respirações.


A.M. 

A teoria do fascismo em Deleuze e Guattari