quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Maki Namekawa plays Closing from MISHIMA

O QUE É A MENTE?  parte 2

1- Na clínica em psicopatologia (ou para além dela) é possível afirmar  que o delírio vem do social. Atribuir ao cérebro a origem do delírio não só é um equívoco etiológico como também um pretexto para que a psiquiatria atual atue como serva da máquina de poder disfarçada de ciência neurobiológica. 

2- A linha (percurso) do delírio do social até a forma de expressão num discurso individual torna-se possível porque a mente é um sistema conceitual aberto; abarca múltiplas realidades, determinações que efetuam uma variação contínua e subjetiva.

3-Desse modo, a pesquisa da mente é correlata à pesquisa do delírio; a questão da verdade está no miolo; mentes que acreditam em delírios?

4-Se a mente é o universo, o delírio também o é; exposta aos fluxos de signos de toda ordem ( sociais, pessoais, familiares, éticos, políticos, históricos, espirituais, etc) a mente é ela própria delirante mesmo que não esteja a delirar.

5-Observe: tudo pode estar nos trilhos ( uma marcha militar impecável, por exemplo) mas a depender de uma análise de perspectiva, tudo será delirante.

6-Eis aí a máquina do capital; ela codifica a experiência do universo em prol de um único sistema de valores econômicos e semióticos: o Deus-capital.

7-A linguagem vem de fora e produz a mente; o cérebro não produz a  linguagem: é o inverso; ele é uma condição para a expressão subjetiva:  reproduz , replica, informa e comunica; mas não pensa.

8-O pensamento, composto de afetos recolhidos do universo, é um pathos, ato de pensar, prática de corpo, fazedor de mundos.

9-Só que é muito difícil pensar; normalmente se pensa que pensa; nada, nada, só uma pálida representação de corpos.

10- Enfim, a máquina do capital, esperta e aliada da ciência e da tecnologia, refinou tudo; por isso a adoram.


A.M.


sábado, 5 de agosto de 2023

FURTIVO


Passeando num jardim inexistente

Encontrarás uma mulher ausente ...


Segue-a. Fala-lhe. Espera que ela te olhe,

Beija-lhe a mão antes que se desfolhe,


Depois, no ouvido, dize-lhe o que sentes,

Expressa-lhe, em palavras balbuciantes,


Com voz arfante e comoção sincera

A paixão que te faz tremer os dentes 


Dante Milano

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

VIAGENS DE MIGUEL

Miguel aprendeu a dizer Lua, "lúuua". Por sinal, ontem, ela estava bem cheia num céu límpo. Clareava até idéias obscuras. Miguel olhava e dizia: "lúuua, lúuua".Me puxou pela mão. Balbuciava sílabas viajantes. E lá nos fomos pelos mares da lua. Objeto dos românticos de todos os rincões, a lua é um devir, devir-lua. Miguel observa que ela é branca e leitosa.  Derrama sua luz sensual sobre corpos em transe. No caso de Miguel, contudo, não é bem o  "em transe", mas uma viagem sem forma pela noite adentro. Noite-mistério dentro de mim. Miguel e a lua me fazem lunáticos na terra, ou terráqueos na lua, tanto faz. O que conta é o vôo no mesmo lugar, seu rosto girando ao redor do infinito sem deixar de ser a distância até a lua. Medidas astronômicas? Ora, estas são medidas humanas, por demais humanas. Trata-se de outra coisa, fluxo metafísico que Miguel  me desperta. Sem medidas. Fomos dormir e a lua não. Miguel sorriu pois não queria dormir...sem ela.


A.M. ( em 30/09/2012)

terça-feira, 1 de agosto de 2023

O que é a mente?

1- A mente é um construto teórico criado com o fim de compreender/explicar as ações humanas.

2- Ela e o corpo possuem a mesma substância de origem; segundo Espinosa, essa substância é Deus.

3- No entanto,  a mente e o corpo se diferenciam como modos de expressão: a mente, o pensamento. O corpo, a extensão.

4- O combustível da mente são os afetos. Eles vêm do mundo através dos signos ( pessoas, instituições, lugares, acontecimentos, etc)

5- Há, pois, um encontro com os signos; pode ser positivo (aumento da potência de viver: a alegria) ou negativo (diminuição da potência de viver: a tristeza).

6- Assim, os afetos preenchem o pensamento. Não há pensamento sem afeto; consciência e racionalidade são efeitos, não causas.

7-Se os afetos (do mundo dos signos) são também o corpo, tudo que é mente é corpo; tudo que afeta o corpo afeta a mente e vice-versa. 

8 - Chegamos, então, a um monismo "existencial" da subjetividade.

9- Entre muitas,  há duas consequências de tal concepção: uma ética, a alegria; uma política, a contra-servidão.

10 - O ato de pensar é um exercício perigoso porque é imediatamente prático: dado um corpo, qual a sua potência?

domingo, 30 de julho de 2023

PODER ASSASSINO

O desejo é fluxo que se conecta com outro fluxo, com outros fluxos, e assim por diante, ao infinito.Ele é sempre agenciado (compõe-se de linhas múltiplas) mesmo que disso não se saiba. Quando é interrompido (impotência em desejar) dá-se uma cristalização, um endurecimento das suas linhas de funcionamento vital, em prol do que chamamos de poder. O poder assassina. Ele é regido e mantido pelo universo da representação. Ou seja, funciona como identidade da consciência e do eu, o que, em termos do campo social, chama-se de senso comum e bom senso. Estas categorias são formas sociais (instituições) operando na perpetuação do par Eu-Consciência. No mundo ocidental cristão, os modos de subjetivação tendem a girar em torno desse a priori do pensamento. Basta analisar a política vigente e suas formações metastáticas. Ora, se, como diz Deleuze, o senso comum identifica e reconhece, enquanto o bom senso prevê, não haverá lugar para a criação, para o novo, para uma outra política, exceto se trabalharmos com os paradoxos da linguagem. É aí onde a Poesia, a Arte e a Loucura se expressam e se afirmam como verdades móveis para uma nova terra.


A.M.

O Apanhador De Desperdícios | Poema de Manoel de Barros com narração de ...

Ética

DA SERVIDÃO À LIBERDADE

"Quem é espinosista? Às vezes, certamente, aquele que trabalha 'sobre' Espinosa, sobre os conceitos de Espinosa, à condição de isso ser feito com bastante reconhecimento e admiração. Mas também aquele que, não-filósofo, recebe de Espinosa um afeto, um conjunto de afetos, uma determinação cinética, uma pulsão, e faz assim de Espinosa um encontro e um amor."

Deleuze


Sabedoria Geométrica

Com certeza, a Ética, escrita por Espinosa, é uma das produções mais importantes da filosofia moderna! Contudo, escrita em latim e de maneira geométrica, é surpreendentemente difícil. Isso significa que axiomas, definições, demonstrações, corolários, proposições e escólios são usados na explicação. Sim, filosofia pensada e exposta com a linguagem da matemática. Talvez por isso tantos tropecem e desistam logo nas primeiras páginas.

Alguns diriam que a Ética não é para ser lida, mas estudada. Entretanto, outros dizem que ela é a encarnação da potência pura do pensamento prático, quente como o fogo! Deleuze, por exemplo, a considera o maior livro já escrito! Mas realmente, não é fácil passar por entre axiomas, definições e proposições sem algumas dificuldades. Por isso criamos esta série, e com ela, esperamos esclarecer um pouco mais o árduo percurso pela Ética.


(Escolhemos as obras de Nathalie Manquet para ilustrar nossa série)

OS PRIMEIROS PASSOS

Com nossos textos, esperamos pegar o leitor pela mão e guiá-lo para que as trilhas fechadas se tornem uma agradável caminhada. Na Ética, este caminho acelera passo a passo, passando pelos primeiros capítulos até chegar a velocidades surpreendentemente descomunais na quinta parte. Decerto, este livro é uma arma de guerra contra toda servidão, superstição, medo, isolamento, tristeza e niilismo.

Num primeiro momento, seguimos o caminho que começa em Deus e o conhecimento de sua natureza, em seguida passamos pela concatenação e a relação entre mente e corpo, tudo para finalmente deixar a servidão e alcançar a liberdade. O conhecimento dos afetos é inegavelmente a parte essencial deste percurso. E teremos como aliado a força do pensamento para regulá-los e moderá-los, buscando atingir uma perfeição cada vez maior.

"Devemos, pois, nos dedicar, sobretudo, à tarefa de conhecer, tanto quanto possível, clara e distintamente, cada afeto, para que a mente seja, assim, determinada, em virtude do afeto, a pensar aquelas coisas que percebe clara e distintamente e nas quais encontra a máxima satisfação”

Espinosa, Ética V, prop 4, corolário

A  ÉTICA NÃO É UM GUIA MORAL

Contudo, é sempre bom lembrar, o livro de Espinosa não é uma bíblia, muito menos um manual do cidadão de bem, e com certeza está muito longe de ser um livro de autoajuda. Em suma: A Ética é o livro dos homens livres onde a salvação transcendente torna-se uma salvação neste mundo, criando para si um novo modo de existir e se relacionar.

"Quem tenta regular seus afetos e apetites exclusivamente por amor à liberdade, se esforçará, tanto quanto puder, por conhecer as virtudes e as suas causas, e por encher o ânimo do gáudio que nasce do verdadeiro conhecimento delas e não, absolutamente, por considerar os defeitos dos homens, nem por humilhá-los, nem por se alegrar com uma falsa aparência de liberdade”

 Espinosa, Ética V, proposição 10, escólio


Extraído do site "Razão inadequada", visitado em 30/07/2023

sexta-feira, 28 de julho de 2023

EMIL NOLDE

 


O FUTEBOL, SEMPRE

O futebol é trágico. Trágico porque alegre, imprevisível, inexplicável, não se dobra ao modelo quantitativo do seu "acontecer", está além e aquém dos comentários rasteiros de apresentadores pífios, caçadores de audiências imbecilizantes, funciona na ambiguidade do futuro (quem vai vencer?), contém uma estética que precede toda racionalidade orgulhosa de si, trabalha com 90 minutos irreversíveis, joga com a sorte, idolatra o acaso, investe no puro talento, contempla e considera a competência técnica, flerta e se embriaga de arte, é arte, é arte, pura arte, completamente enlouquecedor para torcedores amantes da bola na trave, do verde-gramado, do contra-ataque mortífero, desdenha dos teóricos de carteirinha do jornalismo chifrin, sobrevive aos desmandos e corrupções dos poderes vigentes, surpreende nos minutos de acréscimos até os mais desconsolados e angustiados ou esperançosos torcedores, enfim, por isso e muito mais, o futebol é uma heresia santa, um dilúvio envolvente e enxuto, delírio de multidões, catarse sem igual,  orgasmo público ou apenas um gol sem preço no mercado (não existe gol feio), milhares deles, mesmo que não aconteçam, ainda que sonhados, o futebol é o esporte para além do esporte, uma metafísica encarnada na magia do drible, o gol de cabeça...um amor de criança.

A.M.

CAIR FORA

Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria alguma lugar para me esconder. Um lugar onde ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava como me deixava enojado. Pensar em ser um advogado, um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisa simples, participar de piqueniques em famílias, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalhador, Dia das Mães...afinal, é pra isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, voltar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.


Charles Bukowski

A direita radical pode voltar ao poder no berço do nazismo?