segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Classical Violin

admirável

cérebro novo

mente

sem parar


A.M.



" Qual a relação do pensamento com a terra?"


                     – Deleuze e Guattari, O que é a Filosofia?, p. 84


O conceito só pode ser criado em um plano de imanência, o plano de imanência só pode ser traçado por um personagem conceitual, o personagem conceitual habita um plano, se desloca sobre ele extraindo conceitos. Tudo está amarrado, conceitos, planos e personagens não existem um sem os outros. Este é o objetivo de Deleuze e Guattari, criar uma Geofilosofia!

Por que Geo-filo-sofia?

GEO – Plano de Imanência – o solo absoluto, onde todas as forças se somam e se cruzam, a terra como grande territorializante e desterritorializante, com seus movimentos sísmicos, onde planos se fazem, se desfazem, se sobrepõem. Não é à toa que os planetas (incluindo o planeta Terra) derivam da palavra planétes, que significa viajante, errantes (nômades?)

PHILIA – Personagem Conceitual – aquele que preza pelo conceito bem feito, que junta e desjunta componentes para formá-lo. O amigo, mas ao mesmo tempo o rival, aquele que coopera na criação, mas ao mesmo tempo efetua destruições! Legisla, cria e destrói valores. Conexões e desconexões, carrega consigo um martelo para quebrar ou pregar.

SOPHIA – Conceitos – A sabedoria propriamente dita, o resultado do plano de imanência bem traçado e dos personagens conceituais andando pelo plano. Os conceitos são componentes que se condensam, que se coagulam, que insistem. Basta um acontecimento para que eles possam ser utilizados ou precisem ser atualizados. Não se trata de uma Verdade nas alturas ou nas profundezas, conceitos são sabedoria que cria uma superfície, que se torna consistente, são velocidades infinitas tornadas sustentáveis.

Se o objetivo de Deleuze no livro “O que é a Filosofia?” era falar concretamente, então aí está! Não poderia ser mais claro! A filosofia é, para a dupla de autores franceses, uma Geo-Filosofia. Ela nos protege do caos de maneira muito mais efetiva que a opinião, a contemplação, a discussão, a reflexão. A geofilosofia é a afirmação da potência do meio!

(...)


Rafael Trindade, do site Razão inadequada, acessado em 27/10/2025



domingo, 26 de outubro de 2025

TULIPAS ETERNAS


 

A  anti-escuta - 2


Num certo contexto de análise, não se trata aqui da acuidade auditiva. Isso é assunto de técnicos especializados.

Trata-se de outra coisa: "escuta" como sensibilidade social.

Ou, pode-se dizer, de uma percepção do mundo que vaza das linhas endurecidas da chamada pessoa humana, invenção cristã.

A Escuta é a percepção sensível e sensitiva do Outro no campo de um coletivo planetário.

A chamada pessoa não existe se não como forma estável e necessária à conservação da vida. É sua expressão reativa.

Reativa às  mil vulnerabilidades egóicas.

A Escuta é um agenciamento que atravessa o macrocosmos em direção ao microcosmos e vice-versa.  

Iso significa dizer que a Escuta não é apenas se colocar no lugar do Outro, mas tornar-se o Outro numa tarefa inglória e arriscada.

Na civilização moderna, prenhe da pulsão de morte disfarçada de Vida, não parece haver lugar ou tempo para a Escuta, ao contrário.

Daí as doenças...


A. M.

The Sheltering Sky-On The Hill-Ryuichi Sakamoto

conheci

uma mulher

amante da leitura 

da vida


há quanto tempo

isso não acontece?


uma miragem

no deserto do corpo

ou simples imagem

do céu

que nos protege?


não há

como calcular

custos e benefícios


nesse feitiço



A.M.


Mathis Picard Solo Piano from the Yamaha Studio in NYC | WBGO #jazz #pia...

sábado, 25 de outubro de 2025

MÉDICOS

CP: Mas a sua relação com médicos e medicamentos mudou a partir daí. Você teve que ir a médicos e tomar remédios regularmente, o que foi uma obrigação! Ainda mais você que não gosta muito de médicos.

GD: Não é uma questão pessoal, pois eu conheci muitos médicos encantadores. Mas é um tipo de poder ou a forma como eles manipulam este poder que me parecem detestáveis. Voltamos ao que já falei. É como se a metade das letras comportasse o todo. A maneira como manipulam o seu poder é detestável. Como médicos, eles são detestáveis. Tenho um profundo ódio, não pela pessoa dos médicos que, em geral, são encantadores, mas pelo poder médico e pela maneira como usam este poder. Mas uma coisa me deixou feliz e, ao mesmo tempo, é o que os chateia. Os médicos trabalham cada vez mais com aparelhos e testes, em geral muito desagradáveis para o paciente e que parecem não ter interesse algum, a não ser o de confirmar o diagnóstico. Mas se são médicos talentosos, estes já sabem o diagnóstico e estas provas cruéis só vêm reforçá-lo. Eles fazem uso destas provas de uma forma inadmissível. O que me deixou feliz foi que, sempre que eu tive de passar por um daqueles aparelhos, meu fôlego era fraco demais para ser registrado pela máquina. E quando tiveram de me fazer um… Não sei mais como se chama, mas é um exame do coração que não conseguiram fazer.

CP: Uma ecografia.

GD: Sim, é isso, e tive de passar por este aparelho aí. A minha alegria foi vê-los furiosos naquele momento. Acho que eles odeiam o pobre paciente neste momento. Eles aceitam errar o diagnóstico, mas não aceitam que alguém não possa ser visto pela máquina. Além do mais, eles são muito incultos. Eles são muito… Como diria? Quando eles se metem na cultura, é uma catástrofe. A classe médica é uma gente estranha. O que me consola é que ganham muito dinheiro, mas não têm tempo para gastá-lo ou aproveitá-lo, pois levam uma vida extremamente difícil. É verdade que os médicos não me atraem muito. É claro que isso independe da personalidade deles, mas quando exercem a sua função, tratam as pessoas como cães. Aí, há de fato uma luta de classes, pois se o paciente é rico, eles já são bem mais educados. Menos em cirurgia, que é um caso à parte. Mas os médicos precisariam de uma reforma, pois há de fato um problema.

(...)

Extraído de "O Abecedário" in Machine Deleuze, acessado em 25/10/2025

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O  EXTERMÍNIO  DA  ALMA 

A alma não é o eu nem o cérebro. Este é objeto de neurocientistas,  neuro-cirurgiões finos, técnicos, artesãos de sinapses e neurônios aflitos, e por fim, alvo e vítima de psiquiatras estultos. Mas a alma também não é a das religiões. Ela pertence à natureza; é sua expressão ampliada sem fim. Isso assusta as caixas individuais subjetivadas em linhas de montagem do circuito industrial.  Daí as máquinas sociais da modernidade (visíveis ou não) fazem da alma uma coisa manipulável. Segundo Marx isso atingirá requintes de uma auto-micro-tortura como destino da humanidade. Uma Terra sem alma,  globalizada,  inteiramente livre para odiar.



A.M.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes.O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo. 


Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.


Eduardo Galeano

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

PARADOXOS DA LINGUAGEM

O desejo é fluxo que se conecta com outro fluxo, com outros fluxos, e assim por diante, ao infinito. Ele é sempre agenciado (compõe-se de linhas múltiplas) mesmo que disso não se saiba. Quando é interrompido (impotência em desejar) dá-se uma cristalização, um endurecimento das suas linhas de funcionamento vital em prol do que chamamos de poder. O poder assassina. Ele é regido e mantido pelo universo da representação. Ou seja, funciona como identidade da consciência e do eu, o que, em termos do campo social, chama-se de Senso Comum e Bom Senso. Estas categorias são formas sociais (instituições) operando na perpetuação do par Eu-Consciência. No mundo ocidental cristão, os modos de subjetivação tendem a girar em torno desse a priori do pensamento. Basta analisar a geopolítica vigente e suas formações metastáticas. Ora, se, como diz Deleuze, o Senso Comum identifica e reconhece, enquanto o Bom Senso prevê, não haverá lugar para a criação, para o novo, para a invenção de outra política, exceto se trabalharmos com os paradoxos da linguagem. É aí onde a Poesia, a Literatura, a Arte,  a Loucura se expressam e se afirmam como verdades móveis para uma nova terra.


A.M.