Em que sentido esta sincronização das emoções coloca a democracia em perigo?
A democracia é a reflexão comum e não o reflexo condicionado. Não existe opinião política sem uma reflexão comum. Mas hoje predomina não a reflexão, mas o reflexo. O próprio da instantaneidade consiste em anular a reflexão em proveito do reflexo. Quando me convidam para um debate na televisão, me dizem: “Que bom, você trabalha desde 1977 nos fenômenos da velocidade. Tem um minuto para explicar-me tudo isso”. Não é possível. Estamos diante de um fenômeno reflexo, mas a democracia reflexa é uma impossibilidade, não existe. A mesma coisa acontece com a confiança. As Bolsas estão em crise porque há uma crise da confiança. E por que há uma crise de confiança? Porque a confiança não pode ser instantânea. A confiança em um sistema político ou financeiro não é automática. A opinião também não pode ser instantânea. Então, os sistemas administrados pelos políticos, inclusive o sistema financeiro, são fenômenos que tendem para o automatismo. A automatização é o contrário da democratização.
Trecho de entrevista com Paul Virilio em 20/11/2010, concedida a Eduardo Febbro e publicada no site Instituto Humanitas Unisinos, acesso em 02/02/2026.
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