quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

AUTO-ENTREVISTA (excerto) - 30/08/2007

P-O seu  discurso  é contra  a psiquiatria?
R-  De modo  algum. A  psiquiatria  jamais  é  recusada   em sua  contribuição  científica  e tecnológica.  Trata-se de  outra  coisa. Ela é, isto sim, interpelada e  posta  no seu  “devido  lugar”,  submetida  às  injunções sócio-histórico- político-econômicas. Buscamos  retirar  o caráter de essência  intocável do  saber  psiquiátrico e    conectá-lo  com  saberes múltiplos vindo de áreas  heterogêneas. Assim, talvez  seja   possível “oxigenar” as concepções e  as  práticas   psiquiátricas  sobre os  transtornos mentais. Essa  é  a idéia.

P- Como  você    vê  o  uso  dos  psicofármacos  em patologia  mental?
R-Considero uma opção  terapêutica  muito  útil  na  medida  que sejam observados  critérios  clínicos como a ética,  o diagnóstico, as  circunstâncias  do  atendimento, a relação de poder  médico-paciente, entre  outros.

P-  Na sua  proposta,  há um uso insistente  do termo “subjetividade”. Por  quê?
R- Na verdade, a  subjetividade  em Saúde  Mental costuma  ser  considerada a  partir do que  a psiquiatria, enquanto  instituição hegemônica, estabeleceu. Ou seja, haveria   uma “subjetividade-doente mental”   vista   como  fato    natural. Tudo  gira  em torno desta  premissa, inclusive  os  que  lidam  com o paciente e  o próprio  paciente.  Eles   passam a ser  psiquiatrizados.  No entanto, outras  subjetividades  existem, pelo  menos  virtualmente, esperando apenas condições para se afirmarem. E tal  afirmação  só  virá   com  práticas  sociais concretas.

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

Coisa que não acaba  no mundo é gente besta e
pau seco.


Manoel de Barros

SLAVOJ ZIZEK E A ECOLOGIA

A CRIANÇA E A PSICANÁLISE

Até que ponto o desejo e a sexualidade de uma criança estão distanciados de Édipo, não se corre o risco da sabê-lo. Vejam o pequeno Hans. A psicanálise é um assassínio de almas. A gente se faz analisar dez anos, cem   anos e, quanto mais dura, menos se terá tido ocasião de falar. Ela é feita para isso (...)

G. Deleuze  in  Quatro proposições sobre a psicanálise
A DOBRA SUBJETIVA

A experiência de  ensinar é antes a experiência de aprender com os signos. Antecedendo à  partição significante-significado, o signo procede a uma  violência constitutiva dessa experiência. Forçar a pensar, como diz Deleuze, é criar um campo tanto mais rico na emissão de signos. A função de professor dobra-se e desdobra-se na sua presença-ausência, descolando-se dos conteúdos e fazendo destes o móvel das práticas do pensar. A subjetivação deixa de ser centrada numa pessoa, seja a do professor, seja a do aluno, e constitui-se como ato de pensar por fragmentos do real.  Um pensar estilhaçado, atravessando campos do saber,  tal como um pássaro  bicando aqui e acolá os materiais necessários à produção de conceitos. Ou  de afetos e funções, se pensarmos como um artista ou como um cientista, respectivamente. Isso conflui numa subjetividade  contra-subjetiva, ou seja, exposta para fora de si, não totalizada, não totalizável e inscrita na superfície dos corpos humanos e inumanos. Trata-se de singularizações móveis do processo do desejo. O muro é a linguagem douta, técnica, rochedo invisível mas  doloroso às invenções não cadastradas do pensar. O caráter redutor, reducionista e por vezes fascista da linguagem leva-nos à dimensão do conhecimento imaculado. Como diz Nietzsche, “em algum canto longínquo do universo difundido no brilho de  inumeráveis  sistemas solares, houve certa vez uma estrela na qual animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o minuto mais arrogante e mais ilusório da “história universal”, mas não foi mais que um minuto. Com apenas alguns suspiros da natureza a estrela se congela, os animais inteligentes logo morrem”.Esta fábula  traz para a experiência do aprendizado as velocidades infinitas do caos-cosmos. Daí, como trabalhar o discurso com um contra-discurso ou sem o discurso ou para além do discurso?  Como ultrapassar o discurso normalizante e moralizador da pedagogia vigente e embutida  nas práticas de ensino? Como  seguir o rumo  de  territórios invisíveis, mesmo à mão, e de paisagens vertiginosas,  mesmo à luz da razão?   Como fabricar universos de sentido sem cair numa  indiferenciação  subjetiva estéril, também chamada   “porra-louquice”?  Ora, o aprendizado é, antes, a produção (não o produto) do Encontro. Afetar e ser afetado, nos termos de Spinoza, é a densidade própria à dobra subjetiva referida acima, e que situamos como sendo a multiplicidade. O aluno é esta multiplicidade que vaza  e se expande para fora do papel-aluno disposto na série escolar . Obter uma boa nota nos exames, passar de ano ou de semestre, ser aprovado etc, são componentes do papel. Contudo, a depender  do uso feito na produção do Encontro, tornam-se uma caução para o conhecimento bem comportado e estável.  O que chamamos  de “devir-aluno” é  pois  o processo do Encontro mestre-aluno  na dimensão impessoal das multiplicidades. O mestre torna-se outra coisa que não ele. O aluno torna-se outra coisa que não ele.  As linhas do aprendizado passam pelo vôo da bruxa  até onde (?) ela irá. São abertas conexões ilimitadas  às sensibilidades em curso. É criado um campo de intensificaçào da  experiência do Encontro entre multiplicidades. Na prática, isso quer dizer: não faça como eu;  faça comigo  até experimentar em você  o gosto pela novidade e pelo risco de pensar com os próprios neurônios, mesmo que estas células recolham de longe o que as faz mover, respirar, funcionar (...)

Antonio Moura - do livro Linhas da diferença em psicopatologia

CLÁUDIO ULPIANO - NA CONTRA-CORRENTE

FORMAS DE DOMÍNIO

Presumimos que as pessoas influenciem outras para melhorar suas próprias vidas. O interesse da pessoa que coage é evidente: ela compele o outro a ficar à sua mercê. O interesse intrínseco da pessoa que evita a coerção é mais sutil: muito embora o negócio do comerciante seja a satisfação das necessidades do seu cliente, sua motivação básica, como reconheceu Adam Smith, ainda é o interesse próprio. Não obstante, as pessoas alegam frequentemente que estão coagindo o outro para satisfazer as necessidades dele. Pais, padres, políticos e psiquiatras tipicamente assumem essa postura paternalista, face a seus beneficiários (...)

Thomas Szasz - do livro Cruel compaixão

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

IMPRESSÕES À PROVA
                                                        

O psiquiatra viaja  em mundos  distantes. Arrisca  saltos no abismo em patologias vistas de perto. Quem é você?  Que se passa?  Mete-se no tempo das noites loucas do Santa Mônica   . Tão longe  estão, quanto  intactas e livres. Houve  um tempo que não passou e passou. Nutre-se de paradoxos. Faz rir.  O psiquiatra lembra  que não há mais tempo. A hora esgotou-se como seringa descartável. O tempo deixou de ser um espaço , mesmo que de dança. Não mais  que ontem,  o tempo-passagem    embriaga e dissolve   espaços. As palavras soam bobas. Situações  densas se quebram. O psiquiatra  se desloca pelos campos verdes  do pensamento, aspira blocos de manhãs. Elas ardem na pele dos seres que  ficavam. Café da manhã  com  luz queimando os olhos. O dia  se avizinha.  Prontuários entre canções  de ninar.  Manhãs insistem.  Plantões voltam sempre, deitam no plantonista que se  esvai em sofrimentos deliciosos. É hora de dormir com a  manhã. Antes,  a insônia compunha os  insanos.  O círculo da velha juventude  e a gargalhada  dos pacientes seguiu  os passos de um tempo a se fazer.  Agora.  Nenhuma crença move   o passado.  Não há falta.  Um corpo  muda e permanece na pele do sol que  queima o filme   de remédios na veia. Dois dois.  O psiquiatra trabalha  sem  saber de si. Os olhos da loucura  arregalam  a manhã para além dos muros. Ele sabe  que não sabe o instante seguinte, ou onde estará o companheiro Marx. Marx! Marx! Suas pesquisas incluem a dor de existir tão profunda quando a  aparência dos que vivem das  batidas incertas do mundo. Alguma coisa empurra o humor não psiquiátrico para uma  alegria suspensa no ar. Sem garantias.  Companheiros de textos  constroem  em sua carne espiritual,   infinitos à  mão. Entre si    olham  retinas ainda não cansadas pelos ardis da miséria. Uma máquina de fazer o cosmos  no mais rente ao  chão, se esboça. O psiquiatra fala do passado para construir  pedaços dispersos de memória vã.  Sem retorno.

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

MINHA VIDA - LULU SANTOS

QUEM?

"O inconsciente se estrutura como uma linguagem". Claro. Mas por quem? Pela família, pela escola, pela caserna, pela fábrica, pelo cinema e, nos casos especiais, pela psiquiatria e pela psicanálise (...)

F. Guattari - in O divã do pobre

MONET

SOLIDÃO POVOADA

Talvez eu tenha brilhado com todas as minhas luzes, um bom momento, sem me dar conta. Apesar disso há alguma coisa de modificado. A noite não é como de costume. Não é porque eu não veja estrelas, é raro que uma estrela se mostre lé em cima, no estreito céu que posso ver. Não é porque não veja nada, nem mesmo a grade, isso me tem acontecido com frequência. Não é também devido ao silêncio, é um canto silencioso à noite. E sou meio surdo. Não é a primeira vez que procuro escutar em vão o rumor das cachoeiras (...)

S. Beckett - do livro O inominável

A LITERATURA COMO RISCO

Andrei Biely - escritor russo (1880 -1934)
                                   
A MÁQUINA BINÁRIA

                                                           
Antes da pessoa do professor e do aluno existe a máquina binária do ensino obrigatório que estabelece as condições organizacionais para  aprender e ensinar. Diz-se o que é aprender e o que é ensinar, e esse enunciado implícito é aceito como um fato natural. A boa vontade de um professor em ser um bom mestre (=passar os conteúdos), bem como a disposição do aluno em aprender(=acumular os conteúdos), não significa que o pensamento esteja presente. Não significa também que haja criação ou produção de conhecimento, mesmo que o ensino esteja acoplado a alguma pesquisa. Há outras variáveis em jogo.  Tais variáveis  vêm da instituição educacional e superpõem-se  sobre o ensino, sobre o ato de ensinar, como se ensinar e educar fossem a mesma coisa. Educar remete à Educação, à forma-Educação, poderosa instituição milenar que se reproduz  em práticas escolares; este é  o seu ponto de aplicação talvez mais efetivo,  a  superfície de inscrição do desejo de saber, aí onde a materialidade da aula  encontra  uma  expressão acabada e direta. Ou seja: o professor é quem ensina porque sabe; o aluno é quem aprende porque não sabe.
É a máquina binária professor-aluno   funcionando em toda a parte onde existe escola. Não  se trata, pois, de considerar as pessoas, boas intenções  etc,  ao jeito humanista de ver as coisas.  A máquina produz as pessoas, ou melhor, as pessoas   são peças que se ligam umas às outras para a produção de subjetividades em série, prontas para o Mercado. Isto não significa que, em termos da experiência do professor e da experiência do aluno, haja uma passividade em relação ao que acontece em torno. Pelo contrário, a pessoa, tendo  um  universo de  representações e  imagens ao seu dispor, mormente quando estimulada  pela atividade intelectual, acredita estar agindo, quando é agida. Acredita estar controlando, quando é controlada. Acredita estar mandando quando é mandada. Tudo ocorre num campo invisível, onde só as forças tem acesso e funcionam em regimes subjetivos ou de subjetivações. A pessoa é o indivíduo e este é o sujeito, num encadeamento natural  para que  o ato de ensinar/aprender  se faça sem problemas. Esta  máquina está ligada a outras máquinas, isto é,  a instituições:  são formas sociais, cristalizações de processos, outrora, talvez, de criação. A escola, a educação, o eu, a avaliação, a aula,  a divisão público/privado, entre outras, são formas sociais que, como trilhos dispostos sobre o caos, orientam o rumo do ensino e do aprendizado  para  um objetivo maior, transcendente, e por isso, intocável: o acúmulo de conhecimento.
Um desejo de ensinar e um desejo de aprender se conjugam para estabelecer a superfície do Encontro professor-aluno. Como dissemos , a superfície é uma máquina, na medida em que antes das pessoas, estão as instituições.  Elas se imiscuem numa produção incessante de consumo. Consumir o ser. Ser alguma coisa para o mercado. Esta é a regra que vem de fora mas que está dentro da máquina. É o seu próprio combustível. Pelo menos, em tempos de hoje, o Mercado é a lei das visibilidades expostas na vitrine das técnicas: quem serei amanhã? como sobreviverei? A visão do mestre como sacerdote, e da educação como o lugar da salvação, foi  devorada  pelo  Mercado onipresente. Daí,  falar da máquina binária requer falar  da máquina ternária, onde se insinuam relações de troca e mais profundamente relações de poder. Um lugar espera o professor com o script marcado, tanto mais, ou quanto mais ele inove ou queira inovar métodos e técnicas em sala de aula. A sala de aula é  o rosto do mercado travestido em rigor pedagógico; este disfarça o rigor mortis do desejo.  Nestas condições, ser professor é seguir a pedagogia da falta, para a qual falta  conhecimento ao aluno, falta responsabilidade ao aluno, falta compromisso ao aluno, sendo  necessário   preeenchê-lo,   enchê-lo. De idéias, conceitos, opiniões. E o pensamento? (...)

Antonio Moura - do livro Linhas da diferença em psicopatologia