Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 2 de dezembro de 2012
SEXUS de Henry Miller - fragmento de resenha
(...) (...) “Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.
(...)
Fred Di Giacomo
sábado, 1 de dezembro de 2012
PENSAMENTO DA SAÚDE MENTAL
O conceito de sáude mental é tributário de uma visão mecanicista (linearidade causa-efeito) e substancialista (mente=coisa, substância) dos modos de subjetivação. Ele serve à medicina e às suas agências de apoio teórico e operacional. Obedece a um funcionamento automatizado nas chamadas políticas de saúde mental. Por essas e outras, o cérebro MENTE.
A.M.
VIOLÊNCIA DOS SIGNOS
(...) (...) A experiência de ensinar é antes a experiência de aprender com os signos. Antecedendo à partição significante-significado, o signo procede a uma violência constitutiva dessa experiência. Forçar a pensar, como diz Deleuze, é criar um campo tanto mais rico na emissão de signos. A função de professor dobra-se e desdobra-se na sua presença-ausência, descolando-se dos conteúdos e fazendo destes o móvel das práticas do pensar. A subjetivação deixa de ser centrada numa pessoa, seja a do professor, seja a do aluno, e constitui-se como ato de pensar por fragmentos do real. Um pensar estilhaçado, atravessando campos do saber, tal como um pássaro bicando aqui e acolá os materiais necessários à produção de conceitos.
(...)
A.M.
PSIQUIATRIA DEPRIMIDA
(...) (...) Tudo é cérebro como origem. Trata-se de um reducionismo fabricado em nome da razão médica. Ao inverso, buscamos detectar afetos sutis que só se expressam (grosseiramente) como depressão, e daí se inscrevem num rebaixamento da vitalidade. Isso pode ser a Depressão como “doença”ou tão apenas uma síndrome ou uma reação depressiva às circunstâncias sócio-metafísicas. De todo modo, o Encontro com os afetos busca a intensidade dos mesmos a partir das condições subjetivas do paciente. Qualquer um pode deprimir à medida em que vivencia a cultura da culpa inscrita na carne. Somos todos cristãos e deprimidos.O paciente traz o humor como um dado que muitas vezes lhe foi inculcado: “sou bipolar”. Trata-se de um processo de subjetivação psiquiátrica que se impõe como verdade diagnóstica. Devires são cortados. O humor hipotímico “evolui” para um grau de vitalidade compatível com a doença psiquiátrica: ausência da vontade de viver. Ora, como recusar o grito desesperado do paciente?
(...)
A.M.
MÁQUINAS DO DESEJO
O desejo maquina entre os corpos e nos corpos. Exposto à luz do dia, mesmo à meia noite, ele é produção incessante, formigamento nem sempre visível ; "o que não tem governo nem nunca terá".Por que a metamorfose?"Ir indo".Uma espécie de gratuidade desejante empurra a existência por e para linhas insólitas.A morte deixa de ser uma coisa, mas o morrer, verbo infinito, impessoal, ainda que se fale de passados ressentidos e/ou futuros impossíveis. Bicho, como desejar? Não é fácil, mesmo que pareça...
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A.M.
DEPRESSÃO: SEMIOLOGIAS
O corpo do deprimido está submetido ao organismo. Neste não há o tempo de Aion e sim o tempo de Cronos. Síndrome de Cottard, mergulho nas profundezas das vísceras apodrecidas. O deprimido costuma recitar os enunciados estabelecidos e não seguir as linhas da produção desejante. Ele não vive. Apenas sobrevive. É um ser molar, composto por identidades estáveis, regendo o concerto da morte em vida. Vivências paranóides não são incomuns. A baixa do humor condiciona juízos persecutórios.
(...)
A.M.
DO SUICÍDIO
“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois”,
Camus, A., O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo,Lisboa, Livros do Brasil, (sem data), p.13.
Prelúdios Intensos para os desmemoriados do amor
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura de desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jugo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. de delicadeza.
Hilda Hilst
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