quinta-feira, 3 de outubro de 2013

MILAGRE DO PSICOFÁRMACO

Em psiquiatria clínica, é possível usar poucas associações medicamentosas? Sim, mas elas embotam o paciente e o psiquiatra. Nestes casos um diagnóstico revelador do que se passa, costuma ser descartado. Se, além do mais, for difícil captar a vivência mórbida, ficar na espreita do acontecimento já é um ganho ético.Escutar o vento nas orelhas do paciente.Ou apenas  contemplar o que ele diz e o que se vê. Isso basta para começar o trabalho de garimpagem dos signos. Percutir  as  linhas do desejo  talvez  faça surgir  algo  que   não  anseie  por  fármacos.  
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A.M. in Trair a psiquiatria 

POLICIAIS AGEM COM VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES NO RIO DE JANEIRO


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

NÔMADES CONTRA O ESTADO

As ciências oficiais possuem seu estatuto bem definido, funcionando em proveito do Estado, de quem obtém respaldo. Seu modo de formalização apresenta quatro características básicas: 1) enxerga a realidade como um “sólido”, podendo mesmo ser definida como uma teoria dos sólidos; 2) pretende constituir modelos estáveis, homogêneos, eternos, sempre à cata de invariantes; 3) faz da realidade algo de plenamente mensurável, pressupondo um espaço linear, fechado, em que vamos de retas a paralelas – espaço estriado (métrico), em que a mensuração prepara para uma ocupação sedentária; 4) é um modelo teoremático de ciência, isto é, baseado numa racionalidade pressuposta, para a qual os problemas não passam de obstáculos a serem superados rumo ao elemento essencial.
Em contrapartida, os nômades praticam uma ciência de...
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Paulo Domenech Oneto in A nomadologia de Deleuze-Guattari

A MULHER DO LADO

de F. Truffaut, 1981

PALAVRAS SÃO LAVAS

Quando eu recito ou quando eu escrevo uma palavra, um mundo poluído explode comigo e logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte e fogo e morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim. [...] uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Agora não se fala nada e tudo é transparente em cada forma; qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. [...] Escrevo, leio, rasgo, toco fogo e vou ao cinema.

Torquato Neto in Os últimos dias de Paupéria

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Estranho é que o cérebro, feito essencialmente pra produzir idéias, exulte quando tem uma.

Millôr Fernandes

STEVE CHAMBERS


RESISTIR

Eu irei lhe dizer o que eu irei fazer e o que eu não irei fazer. Eu não servirei aqueles no qual não acredito mais, mesmo que se intitulem minha casa, minha cidade natal ou minha igreja: e eu tentarei me expressar [viver] de uma forma mais livre e completa possível [através da arte], usando em minha defesa as únicas armas que eu me permito usar - silêncio, exílio e habilidade.

James Joyce
SÁBADO-ETHOS
Érika Grisi - Aborto na voz dos homens
Dia 5.10.2013 - 10: hs.
Entrada franca

JEAN LUC PONTY - Mirage


ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira
SÓ ISSO

Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só.

Rainer Rilke

ELEITOR BUNDÃO


INVENTAR O CAPS

Enfocando    o grupo técnico  em  saúde  mental, teríamos: 1-Trata-se de  fato  de  um grupo? 2-  A que  interesses  atende? 3-Que concepções sobre a loucura norteiam  o seu  trabalho?  4-Como se dá a comunicação entre os segmentos técnicos  em relação ao paciente? 5-Qual o lugar da ética e da política nas ações práticas?  Tentaremos desenvolver cada  um dos  itens, tendo como hipótese de base: apesar da  reforma psiquiátrica, a psiquiatria  é um modo de subjetivação que ainda domina e controla os que lidam com o paciente. Existe, pois,  o grupo técnico  trabalhando   sob uma transcendência psiquiátrica. Isso não é  um mal em si, desde que  a psiquiatria oferece um arsenal de medicamentos  contra os transtornos mentais. E há que  usá-los, sem dúvida. A questão é que  esse dado surge  como primeiro  na avaliação clínica. Medicar e depois diagnosticar, se possível. Desse modo, o transtorno mental surge na e da psiquiatria como seu objeto  legítimo. Cabe aos demais técnicos acompanharem o carro-chefe. Ou nada. Esse  fato compromete  o trabalho de grupo como um trabalho coletivo. Mais: de que  objeto se trata? Transtorno mental já não seria alguma coisa fabricada pela própria psiquiatria? Ora, se é objeto da psiquiatria, não pode ser objeto da psicologia ou de outros saberes. Então, partir da psiquiatria como  proprietária do paciente é admitir que tudo, em termos de equipe e tratamento, gira em torno do significante hegemônico “psiquiatria”  como centro de significação clínica. E por extensão o seu objeto, o paciente. Parece  que estamos girando num círculo de redundâncias. Como então constituir um grupo se um sujeito (a psiquiatria) instituiu  há muito o seu objeto (o paciente) ? A grupalidade só pode ser tentada se houver  uma des-hierarquização das relações intra-grupais. Um mesmo plano de trabalho e de afetos. Fora disso,  cria-se uma farsa.  Então, esta é a primeira condição para um grupo de trabalho em saúde  mental. Todos são iguais em suas  diferenças. Em  segundo lugar, a que interesses  atende  o  grupo? Pode  ser  o interesse do Estado, amando suas burocracias para justificar a assistência. O  que  mais? Ou o interesse da sociedade como um todo e o senso comum para  saber como andam, como se comportam  ("estão quetinhos?")seus  loucos. Ao contrário, acreditamos que o grupo deve atender aos  interesses da loucura. Entendemos esta como a conduta libertária avessa aos domínios do Estado, do Mercado  e  dos seus aparelhos  conexos. A loucura, na verdade, não tem e não vive de interesses. Ela vive do desejo, é o puro desejo espraiando-se em produções ao acaso dos encontros. Tal definição alcança o campo do impessoal. Portanto, não falamos do louco, mas da loucura que poderá se encarnar, aí sim, num suposto louco. Em terceiro lugar,  o desejo está em toda a parte onde se trabalha com o louco. Ressoa a questão: que linhas o desejo percorre ou, ao contrário,  estagna  quando  o louco se diz  (ou dizem) que  ele é louco? Por fim, em quarto lugar, a análise de um grupo técnico compreende as linhas e as práticas que o desejo percorre. A equipe técnica é composta por linhas de desejo e práticas que lhe são co-extensivas. Ela demanda uma análise político-institucional das suas operações cotidianas.Para isso  ser  possível, usamos  um método que  traça a cartografia das produções do desejo num  meio (ou conjugação)  de  determinações múltiplas. O meio é a subjetividade como modo de produção contextualizada. O Caps tende a reproduzir o modelo biomédico autor de tantos equívocos na história da psiquiatria. Talvez por isso, no momento, praticamente não há avanço. Ao contrário, se as pesquisas sobre o cérebro evoluem, o que há é um retrocesso na percepção da vida afetiva.
(...)
A.M.


CLAUDE MONET