quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ainda Sem Resposta

Não mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através de literatura que poderá talvez se manifestar.

Clarice Lispector

VIDA COMPRIMIDA


20 anos após levante, zapatistas têm 'independência' no sul do México


Há um buraco de bala no segundo andar da prefeitura de San Cristóbal de las Casas, no sul do México.
É uma marca do Réveillon de 1994, quando rebeldes armados invadiram o edifício e pegaram o segurança de surpresa.
Surpreenderam também o Exército e o governo federal mexicano. Antes, haviam circulado rumores de que diversos grupos indígenas da região estavam organizando um grupo rebelde. Mas não se esperava que, em questão de horas, o EZLN - mais conhecido como Zapatista - tomasse o controle de grande parte do estado sulista de Chiapas.
(...)
Fonte: G1

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

POÉTICA POLÍTICA

A poesia é melhor, e, por isso, tomou tudo. Cada fragmento de célula traz uma partícula de poesia. Mesmo na desgraça, mesmo no fascismo, a poesia põe a cara e revela quem somos. Fernando Pessoa ecoa entre os dentes e o coração incansável ainda pulsa.Mas o acontecimento não tem dono. Nem Pessoa. A Terra é que se desfaz em linhas do viver. O poeta, não o profissional, ou o crítico, ou o acadêmico, ou o  erudito, figuras execráveis, mas o poeta EXANGUE, faz da poesia a sua ética. A cada momento...

A.M.
Podia ser ela mesma, quando estava só. E era isto que precisava fazer com frequência: pensar. Bem, nem mesmo pensar. Ficar em silêncio; ficar sozinha. E toda a existência, toda a atividade, com tudo que possuem de expansivo, brilhante, vibrante, vocal, se evaporavam. Então podia, com uma certa solenidade, retrair-se em si mesma, no âmago pontiagudo da escuridão, algo invisível para os outros.

Virginia Woolf

CHICO E TOM - Choro Bandido/Eu te Amo


Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

Fernando Pessoa

ANTONIO SMITH


Haja hoje para tanto ontem

Paulo Leminski
CAPS: SEM REMÉDIOS

O trabalho de equipe num Caps, para ser turbinado, compreende  uma superação  da hegemonia psiquiátrica. Não nos referimos à figura do psiquiatra e dos seus equipamentos químicos,  mas à forma-psiquiatria como instituição secular que se  alojou  na mente dos técnicos  não-psiquiatras. É claro que há outros elementos em jogo, outras condições  para a mudança, mas essa questão é essencial. Por fim, tudo se traduzirá na produção de novas clínicas, novas psicopatologias descoladas do modelo biomédico. Só assim, o Caps escapará do ranço manicomial  e tampouco   será um ambulatório camuflado.

A.M. 

MOACIR SANTOS - Outra Coisa


TUDO QUE TEMOS

— Não há gradações de perversidade? Será o mal um imenso e perigoso poço onde se cai ao primeiro pecado, mergulhando até o fundo?
— Sim, acho que é. — respondi. — E não é lógico, como você tenta aparentar.
— Mas não está sendo justo — disse, com o primeiro vislumbre de emoção na voz. — Certamente atribui grandes graus e variações à bondade. Existe a bondade da criança, que é inocência, e há a bondade do monge que abriu mão de tudo e vive uma existência de auto-privação e trabalho. A bondade dos santos, a bondade das donas-de-casa. São todas iguais?
— Não. Mas igualmente e infinitamente diferentes do mal — respondi.
— E como se atinge o mal? — perguntou. — Como se sai da graça e de repente se fica tão cruel quanto o júri popular da Revolução ou o mais sádico imperador romano? Basta simplesmente faltar à missa aos domingos, ou cuspir a hóstia? Ou roubar um pedaço de pão... ou dormir com a mulher do próximo?
— Não... — sacudi a cabeça.
— Não. — Mas se o mal não tem gradação, e existe este estado de maldade, então basta um único pecado. Não foi- isso que disse? Que Deus existe e...
— Não sei se Deus existe — falei. — E pelo que sei ... Ele não existe.
— Então os pecados não importam — retrucou. Nenhum pecado atinge o mal.
— Isto não é verdade. Pois se Deus não existe, somos as criaturas mais conscientes do universo. Só nós compreendemos o passar do tempo e o valor de cada minuto da vida humana. E o que constitui o mal, o verdadeiro mal, é tirar uma única vida humana. Não importa se um homem vai morrer amanhã, depois, ou eventualmente... Pois se Deus não existe, esta vida... cada segundo dela... é tudo o que temos.

Anne Rice

ETERNO RETORNO


NÃO HÁ FORA

As transcendências ( A religião, A ciência,O estado, etc,) colocam a subjetividade num lugar “para além” da realidade do mundo. No caso do uso de noções como as de alma, espírito, eu, consciência, juizo, e outras)  isso fica  evidente. Contudo, o disfarce advém quando o cérebro é posto como um sistema isolado do que o circunda e o determina, caso dos pressupostos neuro-científicos propagados por fiéis ávidos por prestígio acadêmico e midiático.

A.M. in Subjetividade a-subjetiva

O TEMPO É A SUBJETIVIDADE

Tempo mano velho