Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
domingo, 4 de outubro de 2015
TRABALHO
O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.
(...)
Friedrich Engels
NÃO SE MATE
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate
Carlos Drummond de Andrade
QUAL ESQUERDA?
A.M.
Obs - texto revisto e ampliado.
A origem das designações "Esquerda" e "Direita" remete aos tempos da Revolução Francesa. Hoje, dissolvidas nos axiomas do capitalismo mundial integrado (cf. F. Guattari), tais referências políticas e existenciais promovem uma barbárie semântica, conceitual e, sobretudo, prática. Na cena da política partidária brasileira esse dado é bem visível: um partido como o PT, criado no final da ditadura de 64 contando com os que lutaram contra a própria ditadura fez por instituir e funcionar um regime semiótico calcado numa espécie de fundamentalismo da pobreza. Quem está, por exemplo, contra o PT, está contra os pobres, está contra os programas sociais, está contra a História... Ora, tais enunciados servem, entre outras coisas, para consagrar e encobrir um certa religiosidade petista, a crença na reificação do fato político, a devoção a um historicismo estéreo, o fanatismo esdrúxulo e agressivo, a idiotia generalizada e orgulhosa de si, o reino das opiniões rasas do homem do bom senso, o stalinismo revisitado, etc, tudo aliado ao exercício naturalizado e cínico de uma criminalidade estruturalizada como projeto de governo, vegetando nas entranhas do monstro estatal. Assim fica muito difícil, quase impossível, surgirem práticas dissonantes em meio ao disfarce de tamanha monstruosidade ética. No entanto, "o mar da História é agitado"...
Obs - texto revisto e ampliado.
BELEZA
A solução dos problemas humanos terá que contar com a literatura, a música, a pintura, enfim com as artes.
O homem necessita de beleza como necessita de pão e de liberdade. As artes existirão enquanto o homem existir sobre a face da terra. A literatura sera sempre uma arma do homem em sua caminhada pela terra, em sua busca de felicidade.
(...)
Jorge Amado
AS HORAS
O vôo do tempo que nos empurra tão tragicamente para adiante; o monocórdio e irritante eterno, por vezes rebentando em ferozes labaredas amarelas como aquelas efêmeras bolas amarelas entre folhas verdes (ela olhava as laranjeiras); beijos em lábios que irão morrer; o mundo girando, girando em confusão de som e calor – embora na verdade exista a noite sossegada com seu doce palor.
(...)Virginia Woolf
sábado, 3 de outubro de 2015
TEOLOGIA 3
Errata: onde o Antigo Testamento diz o que diz, deve dizer aquilo que provavelmente seu principal protagonista me confessou:
Pena que Adão fosse tão burro. Pena que Eva fosse tão surda. E pena que eu não soube me fazer entender. Adão e Eva eram os primeiros seres humanos que nasciam da minha mão, e reconheço que tinham certos defeitos de estrutura, construção e acabamento. Eles não estavam preparados para escutar, nem para pensar. E eu... bem, eu talvez não estivesse preparado para falar. Antes de Adão e Eva, nunca tinha falado com ninguém. Eu tinha pronunciado belas frases, como “Faça-se a luz”, mas sempre na solidão. E foi assim que, naquela tarde, quando encontrei Adão e Eva na hora da brisa, não fui muito eloqüente. Não tinha prática.
A primeira coisa que senti foi assombro. Eles acabavam de roubar a fruta da árvore proibida, no centro do Paraíso. Adão tinha posto cara de general que acaba de entregar a espada e Eva olhava para o chão, como se contasse formigas. Mas os dois estavam incrivelmente jovens e belos e radiantes. Me surpreenderam. Eu os tinha feito; mas não sabia que o barro podia ser tão luminoso.
Depois, reconheço, senti inveja. Como ninguém pode me dar ordens, ignoro a dignidade da desobediência. Tampouco posso conhecer a ousadia do amor, que exige dois. Em em homenagem ao princípio de autoridade, contive a vontade de cumprimentá-los por terem-se feito subitamente sábios em paixões humanas.
Então, vieram os equívocos. Eles entenderam queda onde falei vôo. Acharam que um pecado merece castigo se for original. Eu disse que quem desama peca: entenderam que quem ama peca. Onde anunciei pradaria em festa, entenderam vale de lágrimas. Eu disse que a dor era o sal que dava gosto à aventura humana: entenderam que eu os estava condenando, ao outorgar-lhes a glória de serem mortais e loucos. Entenderam tudo ao contrário. E acreditaram.
Ultimamente ando com problemas de insônia. Há alguns milênios custo a dormir. E gosto de dormir, gosto muito, porque quando durmo, sonho. Então me transformo em amante ou amanta, me queimo no fogo fugaz dos amores de passagem, sou palhaço, pescador de alto mar ou cigana adivinhadora da sorte; da árvore proibida devoro até as folhas e bebo e danço até rodar pelo chão...
Quando acordo, estou sozinho. Não tenho com quem brincar, porque os anjos me levam tão a sério, nem tenho a quem desejar. Estou condenado a me desejar. De estrela em estrela ando vagando, aborrecendo-me no universo vazio. Sinto-me muito cansado, me sinto muito sozinho. Eu estou sozinho, eu sou sozinho, sozinho pelo resto da eternidade.
(...)
Eduardo Galeano in O livro dos Abraços
A BANALIZAÇÃO DO MAL
Um ataque aéreo atingiu um hospital dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kunduz, no norte do Afeganistão. Segundo o MSF, 16 estão mortos, entre eles, três crianças. "É com profunda tristeza que confirmamos que, até o momento, nove morreram por causa do ataque aéreo que aconteceu na madrugada no hospital dos Médicos Sem Fronteiras em Kunduz. A última informação é que há 37 pessoas seriamente feridas durante o bombardeio, e que 19 delas fazem parte da equipe dos Médicos Sem Fronteiras".
A Organização informou às partes envolvidas na guerra a localização exata, por GPS, das instalações médicas; intuito era evitar que fossem confundidos com alvos.
(...)
Do IG São Paulo, 03/10/2015, 12:01 hs
Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.
Patativa do Assaré
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