segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sossegue coração

Sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa


Paulo Leminski
RESISTIR

Donald J. Trump é o presidente eleito dos Estados Unidos. Aí está uma sentença que nunca achei que escreveria.

Contra todas as probabilidades e todas as formas de establishment, ele prevaleceu. Ele venceu de forma legítima, inclusive em muitos Estados que achávamos ser seguramente democratas. Os entendidos e as pesquisas erraram. Havia mais fome reprimida por mudança, assim como também ansiedade racial, étnica e econômica, do que muitos modelos levaram em consideração.

Trump será o 45º presidente deste país. Para mim, é um fato realmente chocante, uma pílula difícil de engolir. Sigo convencido de que se trata de uma das piores pessoas possíveis que poderíamos eleger presidente. Sigo convencido de que Trump tem um caráter fundamentalmente falho e é literalmente perigoso para a estabilidade mundial, assim como prejudicial para a posição dos Estados Unidos no mundo.

Há muito que não consigo compreender plenamente.

É difícil saber especificamente como se posicionar em um país que pode eleger um homem com tamanha inépcia e animosidade escancarada. Isso faz você duvidar de qualquer fé que tinha no próprio país.

Além disso, permita-me deixar claro: o empresário Donald Trump era um intolerante. O pré-candidato Donald Trump era um intolerante. O candidato republicano Donald Trump era um intolerante. Só posso presumir que o presidente Donald Trump será um intolerante.

É absolutamente possível que os americanos o elegeram não apesar disso, mas por causa disso. Considere por um segundo. Pense no que isso significa. Essa é a América no momento: depositando sua sorte em um homem que nomeou um simpatizante da direita alternativa como seu chefe de campanha.

Como posso aceitar o fato de que o presidente já apareceu em um vídeo pornô?

Como posso aceitar o fato de que o homem que nomeará o próximo secretário de Justiça já se gabou de ter abusado de mulheres? Como será o alardeado programa de "lei e ordem" desse presidente para as cidades em uma época em que as comunidades das minorias já suspeitam de agressão policial?

Como posso aceitar o fato de que  um homem que atacou um juiz federal por ser descendente de mexicanos será aquele que nomeará o próximo ministro da Suprema Corte e vários juízes federais?

Não consigo aceitar porque não é possível. Terei que conviver com o absurdo da situação.

Terei que conviver com isso desta forma: eu respeito a presidência, mas não respeito esse presidente eleito. Não posso. Considere-me como integrante da resistência.

Espero que haja áreas onde as pessoas em Washington possam concordar e de fato promover os interesses americanos, mas duvido. Trump fez múltiplas promessas de campanha, promessas que será obrigado a cumprir, que causarão especificamente mal.

Meus pensamentos agora se voltam para as famílias de imigrantes que ele ameaçou deportar e para os muçulmanos que ameaçou barrar, para as mulheres que degradou e àqueles que ele é acusado de ter abusado, para os deficientes aos quais ele aparentemente não se incomoda em zombar.

Meus pensamentos se voltam para os pobres que sofrem com problemas de saúde e que finalmente passaram a receber cobertura médica, às vezes cobertura que pode salvar a vida, e o medo que devem estar sentindo agora que há um presidente comprometido em derrubar a reforma da saúde e substituí-la (por qual opção, não sei), e que conta com um Congresso maleável ao seu dispor.

Quando penso em todas essas pessoas e então penso em todas as que votaram por tornar esse homem presidente, e aquelas que não votaram, portando facilitando o caminho para sua ascensão, não posso deixar de sentir certa raiva. Eu preciso lidar com essa raiva. Mas não quero reprimi-la; quero fazer uso dela.

Passei grande parte da minha vida e definitivamente grande parte do tempo escrevendo esta coluna defendendo as causas das populações vulneráveis. Esse trabalho apenas se tornou mais importante agora. Trump representa um risco claro e imediato e é diante desse risco que coragem e verdade são ainda mais necessárias.

Eu apoio e defendo fortemente uma transferência pacífica de poder neste país e aplaudo o atual governo por fazer o que é certo e normal na América, o que todo governo anterior de saída fez: assegurar que a transferência de poder seja a mais tranquila possível.

Precisamos em certo grau que a presidência Trump seja bem-sucedida, no mínimo para que cause o mínimo dano possível à república, para que os Estados Unidos permaneçam seguros, firmes e fortes durante seu mandato.

Isso não significa que não acredite que Trump seja uma abominação, mas sim que honro uma das marcas de nossa democracia e que sou um americano interessado na proteção da América.

Dito isso, é impossível para mim apoiar um intolerante impenitente. Será impossível para mim ver este homem participando dos cerimoniais e protocolos da presidência sem me recordar de como ele é um demagogo comprovado que também é sexista, racista, xenófobo e um valentão.

Essa é uma pessoa que não é digna de aplauso. É uma pessoa que deve ser colocada sob pressão implacável. O poder deve ser constantemente desafiado. Isso começa hoje.

Charles M. Blow, New York Times,14/11/2016, 06:00hs

domingo, 13 de novembro de 2016

E se este mundo for o inferno de outro planeta?

Aldous Huxley

ELETROCHOQUETERAPIA (HCT)

a psiquiatria biológica e suas terapêuticas "científicas"

abri a porta
saí voando

não era sonho
estava amando


Nildão
ISABELLE STENGERS: TRECHO DE ENTREVISTA - 15/07/2013 - L´Humanité

Seu projeto é subintitulado “Resistir à barbárie que vem”, em referência à alternativa de Rosa Luxemburgo: “Socialismo ou barbárie”. É nesses termos que você enxerga a possibilidade de um porvir?

I.S. Quando eclodiu a guerra de 1914-1918, os proletários foram para ela, morreram no campo de batalha tendo nos lábios um canto de escravos, escreve Luxemburgo. É por isso que ela grita que o socialismo não está garantido, que a barbárie é uma possibilidade real. Estamos um pouco na mesma situação. Todo mundo conhece os malefícios da guerra econômica de todos contra cada um. E, no entanto, a gente se ativa retomando em coro o refrão da gloriosa competitividade. “A gente sabe bem isso aí, porém…”. Um dos mais aterrorizantes “porém”, aquele que afirma que “só o que as pessoas esperam é poder tirar seu corpo fora; são egoístas e cegas”. Ora, é preciso afirmar o seguinte: não sabemos do que “as pessoas” são capazes, pois elas saíram de uma operação de destruição sistemática do seu poder de agir e de pensar, ou seja, de colocar os problemas que lhes concernem coletivamente. O capitalismo não é apenas a exploração, é também, e talvez até em primeiro lugar, a expropriação, e isso desde aquela expropriação histórica dos “commons” na Inglaterra, quando os camponeses sem terra foram jogados nas estradas. Uma cultura prática da vida em comum foi destruída. Essa expropriação continua cada vez mais ferrenha hoje em dia, em nome da racionalização, do ganho de tempo, da necessidade de controlar. Não somos impotentes, fomos reduzidos à impotência.

TULIPAS ETERNAS


A QUADRILHA DO RIO

(...)
A gravidade da crise no Rio, caso sobreviva à quadrilha que o governou, e caso a sociedade não se esforce para buscar soluções, pode nos levar a um tipo de dissolução que encha as ruas de fantasmas perambulando com suas cestas de pequeno comércio, gangues dominando amplos setores da cidade e, sobretudo, saída em massa para o interior, para outros estados, para fora do país.
(...)
Fernando Gabeira, 13/11/2016
A CONTORCIONISTA


É necessário que sejas jovem e bela
as pernas entre a flecha
e a curvatura.
Mas isso não basta
tem de haver cabelos longos e dóceis
qual um cálice negro
descendo por trás
o rosto
invertido
em boca e olhos
rara figura
como seria uma sibila dos infernos.

Então nos diga: que conquista é essa
de recriar tronco e membros
sem obedecer ao engenho do corpo
metade feminina metade monstro?

Não te iludas: os aplausos do circo
são tingidos de medo quando chega a tua hora.
Ofereces dobras
que as pupilas rejeitam
o espaço nega. Temos um tremor
de desequilíbrio.
Cegam as palmas.

0 teu corpo visitado por flores do mal
como afastá-lo das retinas?


Fernando Paixão

AUGUST MACKE


ÀS VOLTAS COM O ABISMO

A psicopatologia clínica, como já foi dito, é atualmente deprezada e/ou vilipendiada pela psiquiatria biológica. Assistimos, sem exagero, a um aniquilamento da pesquisa em psicopatologia em prol da entronização de uma espécie de "pragmatismo comportamental" na avaliação do paciente. Em última instância, a pergunta-chave costuma ser " o paciente está adequado ou inadequado ao convívio social?". Pode parecer simplista, sim, mas é simplista mesmo, toda essa clínica do cérebro guiada pelo neuroreducionismo das formações do poder acadêmico, médico-farmacêutico, industrial, enfim, capitalístico. Eis o ressentimento milenar da História disposto em máscaras astutas: no entanto, para além da sedação cavalar da alegria (como a da criança) linhas infernais do desejo assombram as horas da clínica da histeria como o que não tem nome, tantas são as expressões do "corpo que não aguenta mais". Automutilações, autoflagelações, algias totalitárias ("dói tudo"), movimentos involuntários, náuseas, somatoses generalizadas, sintomas do grito surdo e deslocado da alma inocente das plantas.  É então que o técnico em saúde mental se dá conta do megahospicio em que nós, terráqueos, nos metemos.

A.M

GRANDES ESCRITOS


COISA NOSSA
(...)
No Brasil, nos casos que dependem do Supremo Tribunal Federal, não houve nenhuma condenação. Há na Suprema Corte 42 investigações relacionadas à Lava Jato. Incluem a impressionante soma de 110 investigados. Há na lista 29 deputados federais e 13 senadores. Nenhum foi condenado. A maioria não foi nem denunciada pela Procuradoria-Geral da República. A delação da Odebrecht engordará os escaninhos do Supremo. Os políticos estão cada vez mais distantes do ideal de representantes da sociedade. As pessoas já não enxergam coisas nossas na política. É tudo uma imensa Cosa Nostra.

Do Blog do Josias de Souza,13/11/2016, 04:29 hs

sábado, 12 de novembro de 2016

AQUI É OUTRA COISA

O sistema eleitoral brasileiro é bem diferente do americano. Lula só conseguiu muitos delegados depois que deixou a presidência.

Guarabyra (tuiteiro)
OUTRO ESBOÇO

A serpente semântica disse:
não adianta querer significar-me
neste silvo.
Meu único modo de ser é a in
sinuosidade e a in
sinuação.
Não é possível pensar a verdade
Exceto como veneno.
                           

Sebastião Uchoa Leite