Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
VÉSPERA
No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
Paulo Henriques Britto
O ENCONTRO
Quando se diz "relações interpessoais", está embutido o conceito de "pessoa humana" de origem intrinsecamente cristã. No entanto, ao se pensar o encontro entre duas pessoas, é possível agenciar o Encontro entre multiplicidades, aquele que remete ao movimento dos corpos (visíveis e invisíveis) enfiados no livre fluxo dos acontecimentos. Trata-se de uma torção do discurso, um desvio da fala banal em prol dos afetos e da potência de ser afetado. Silêncio! A chamada pessoa já não se sustenta, já não recolhe energia de uma suposta unidade de ação (o eu, a consciência...), exceto se estiver sob a égide dos códigos estabelecidos em dispositivos de controles tecno-burocráticos ou de despotismos morais. De todo modo, o Encontro real é composto por linhas de singularização que se ligam umas às outras, constroem territórios afetivos e ficam à espreita... Então, a coisa é assim: cada pessoa não é una, não é uniforme, mas múltipla, multiplicada e multiplicante por "n" mil. Seja o objeto de uma paixão. Não é o objeto o que importa ou o que faz funcionar o mundo e o universo, não é o que encanta e faz renascer a realidade a cada segundo, mas os signos que são enviados por ele (sem cessar) para o amante. Tampouco este é "uma pessoa", mas uma multiplicidade de linhas afetivas movidas à alegria em viagens de perdição. É o segredo revelado no cerne do Encontro real entre o Amante e o Objeto da sua paixão. Ou melhor seria dizer: o encontro com a paixão por seu objeto. Tudo passa, pois, pelos signos e pela força de sua expressão livre nos cantos e encantos de uma natureza impassível e esplendorosa. É a arte do encontro, um alumbramento.
A.M.
A VIDA NA ROCINHA
"Acho que tem alguém mexendo na porta.” Grávida de cinco meses, Tatiane Paula cutucou o marido, Luiz Cláudio, a seu lado na cama. “Você está sonhando”, resmungou ele, que teria um dia longo na metalúrgica onde trabalha. Eram 5h55 da terça-feira, dia 19. No domingo anterior, perto daquele mesmo horário, a favela da Rocinha acordou com o barulho de mais de 50 traficantes disparando fuzis para todos os lados. As balas de calibres usados em guerras faziam de peneira uma porção de muros, paredes, portas, janelas e latarias de carros e motos, algumas delas pegavam fogo. Transformadores da rede elétrica explodiam. Foi assim nas intermináveis quatro horas de tiroteio. Tatiane, de 35 anos, nunca vira nada igual na comunidade onde vive desde que nasceu. Talvez apenas sonhasse mesmo àquela hora da manhã, mas agora Luiz Cláudio também ouvia o ranger da maçaneta. Pulou da cama para checar o que era. Mal abriu a porta e já estava com um fuzil apontado para a cabeça.
(...)
Hudson Correia, Época, 29/09/2017, 22:13 hs
domingo, 1 de outubro de 2017
APRENDER A PENSAR
(...) O Novo não é dado, ele é produção de linhas curvas e incertas. Que se considere o devir-aluno como uma irrupção demoníaca na própria configuração do Encontro. Estamos, pois, muito distantes da máquina binária professor-aluno e muito perto das forças do inconsciente institucional circulando entre as cabeças, entre os papéis e nas relações de poder. Como vimos, o pensamento é uma linha estendida entre a arte, a ciência e a filosofia, sendo nesta última o acontecimento “pensar” aquilo que alarga e faz alargar as dimensões múltiplas do processo de aprendizado. A sala de aula é o mundo com seus aparelhos, com seus dispositivos de domesticação de almas. Mas o devir-aluno é mais que o aluno como pessoa; ele segue os fluxos do aprender antes do ensinar. Não aprender as certezas e as opiniões prontas do homem médio, mas sim algo que muda imperceptível e veloz como o próprio tempo. Captar este “imperceptível” do tempo é tornar-se o tempo irreversível dos atos de ensino que são ao mesmo tempo atos de aprendizado. Rigorosamente, não o Novo como um objeto ou objetivo a ser alcançado, e sim como a própria materialidade do espírito, a consistência da passagem, da “duração”, do tempo que não se vê, mas que se sente. Tornar-se aluno e mestre de si mesmo requer a multiplicação dos eus, o esquecimento da história pessoal, e como diz ainda Castañeda, a parada do diálogo interno. Toda uma bruxaria santa, todo um ritmo da natureza encravado nas falas mais artificiais e incômodas. É um estilo isso de ser não sendo, esse nomadismo no mesmo espaço e ao mesmo tempo já em Júpiter ou Urano, velocidades aceleradas para os seres lentos que somos. O pensamento voa. Um exemplo de aula: enquanto aqui eu falo da esquizofrenia-doença, aí em vocês e sobre vocês o pensamento percorre continentes, cidades, países, amores, e a aura do invisível cobre esse itinerário tão secreto quanto estranho. Esquizofrenizar o pensamento, ele já esquizofrênico por si mesmo, desde que não há nascedouro, só um meio onde tudo começa e flui, é aprender a pensar. Tudo já estava lá, ou aí, ou aqui, e é mudando a natureza das multiplicidades ( o Novo, enfim) que o aprendizado dos signos se faz.
A.M.
Detective Story
A chave perdida
e penosamente recuperada
não abre a porta que deveria abrir.
Os vampiros não existem.
Você precisa procurar um analista
perseguir fascinantes pistas falsas.
Falsas louras
famintos amores
fictícios tesouros.
Um corpo no elevador
completamente apunhalado.
O herói da segunda parte é fraco
não acredita em nada
e cheira cocaína no final da tarde.
As personagens que ela encarna
são sempre do tipo que eu não gostaria de conhecer
na vida real.
Acabou a manteiga.
Só a alma não chega.
Você está horrível.
Eu não quero te perder.
Eudoro Augusto
A FISSURA DO EU
As tecnologias da imagem, veiculadas pelos equipamentos de informação e comunicação (internet, celulares, tablets, TVs, etc) produzem formas de sentir, perceber, pensar e agir que chamamos subjetividade contemporânea. Este fato social atualíssimo alterou profundamente a consciência, o eu, a razão, os afetos, enfim, elementos psíquicos que respondiam outrora pelo que se chamava "pessoa", "indivíduo". O chamado "mundo interno", então constituído como território existencial de si mesmo, espécie de autonomia individual do ser-no-mundo, se desfez, se desfaz e desmorona a olhos vistos. Considere o aumento explícito da morbidade dos transtornos mentais. A fenomenologia e todas as doutrinas do pensamento calcadas no poder da consciência (inclusive o materialismo histórico) ruiram sob o efeitos da era da Tecnologia, ao que parece irreversível. Veio para ficar. Nós não somos mais nós mesmos. De toda a parte, fluxos de notícias, comunicados, informações, imagens, chegam sem cessar, funcionando como recheio subjetivo para acontecimentos que não nos dizem respeito e ao mesmo tempo nos dizem respeito. O tempo não é mais a temporalidade de uma vivência e sim, ao contrário, a vivência, submetida ao Tempo Mundial (que importam os fusos horários?)e transfigura em éter o que era tão certo como este corpo-aqui-visível-de-carne. Há uma rachadura nas certezas do eu, uma erosão do sentido. As crenças vacilam. Não mais existe "o tempo vivido", mas o tempo mundial descarnado, evaporado, codificado, por exemplo,em mensagens do zap, a confluir naquilo que Virilio chama de cataclísma. Trata-se de uma mudança "espiritual" muito mais profunda do que se imagina, já que as comodidades objetivas (o mundo-em-mim-sem-sair-de-casa) escondem e legitimam a vertigem da loucura do cotidiano normal. Não mais é possível resgatar a nostalgia dos tempos idos (bons tempos, hein!) sob pena de afundarmos numa depressão coletiva. Sabe-se que depressão é luto. O que fazer? Além de consumir vorazmente, consumir (até mesmo consumir esse texto ora escrito), não se tem a mínima ideia....! O estilhaçamento da subjetividade abre um vazio insondável. Em suma, as tecnologias da imagem nos fabricam à sua imagem e semelhança qual um deus profano que se expressa e se impõe pela ubiquidade, simultaneidade e pelo desaparecimento do passado e do futuro, portanto, da História. Se há um devir-revolucionário (sempre há!) ele é tragado pelas ondas gigantescas das imagens planetárias.Um novo conservadorismo sóciopolítico emerge. A esquerda se desorienta! A direita, munida do argumento do caos, da decadência dos valores, da dissolução dos códigos sociais e do assassinato público da ética, se reveste, no caso brasileiro, do apelo comovido à volta dos militares ao poder. No fundo, o axioma do progresso técnico e da pureza moral se afirma como religião do deus-capital disfarçada por uma aura de salvacionismo militante. Todos rezam, mesmo os ateus.
A.M.
P.S. - Texto republicado e modificado
Assim Como
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro
TRUMP X KIM JONG : UM TEATRO?
Parem as máquinas, a guerra, afinal, não está tão perto. Ou parece que não. Quando as tensões na península coreana pareciam mais fortes que nunca, e Donald Trump e Kim Jong-un trocavam declarações cada vez mais belicosas, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, em visita a Pequim, revelou que a situação não está tão “sombria” como dava a impressão: os Estados Unidos, disse, mantêm vários canais de comunicação abertos com a Coreia do Norte e até tentam determinar se Pyongyang está pronta para entrar em conversações sobre seu programa de armamento nuclear.
“Estamos avaliando isso, portanto fiquem atentos”, afirmou o chefe da diplomacia norte-americana em declarações a jornalistas após se reunir em Pequim com as autoridades chinesas para preparar a visita do presidente Donald Trump à China em novembro. “Perguntamos. Temos linhas de comunicação com Pyongyang. Não estamos numa situação negra, às escuras, temos um par, três canais abertos com Pyongyang.”
(...)
Macaren Vidal Liy, El País,Pequim, 30/09/2017, 15:10 hs
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