sexta-feira, 6 de outubro de 2017

GRANDEZA  DE  GUATTARI

Em algum escrito ou entrevista, Félix Guattari diz algo mais ou menos assim: existem pacientes com histórias de vida tão ricas, complexas e belas, que trazem um aprendizado essencial ao técnico (psiquiatra, psicólogo, enfermeiro, etc) que os atende. Trata-se de um exemplo de vida, ainda que seja uma existência malograda. Neste sentido, eles, os pacientes, deveriam ser remunerados, invertendo os papéis estabelecidos pelo mercado da saúde mental.

A.M.

DEVIR - LUA


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      Nicolas Behr
GOLPE BAIXO

As eleições presidenciais de 2018 recebem a cada dia propostas alarmantes que significam brincar com fogo, já que levam em suas entranhas o veneno do golpe e de aventuras autoritárias.
A mera evocação a soluções para sair da crise à margem da política, que é considerada incapaz de garantir os valores democráticos, por estar corrompida e incapaz de governar o país, começa a alarmar.
A palavra golpe começa a ecoar no Brasil até mesmo de campos opostos. O PT, pela boca de sua presidenta, Gleisi Hoffmann, deu a entender que se não permitirem que Lula, mesmo condenado, seja candidato, as eleições seriam boicotadas ao serem consideradas nulas. Por sua vez, o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva acaba de escrever um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, que se o Supremo Tribunal Federal permitir que “um condenado assuma o poder em 2018 os militares deveriam intervir”, e a intervenção seria legítima e justificável, “até mesmo sem amparo legal”. Palavras graves.
Para o general, hoje se discute “sobre a possibilidade, necessidade e legalidade de uma intervenção militar para combater a corrupção, retomar o desenvolvimento e evitar uma convulsão social”.
(...)

Juan Arias, El País, 06/10/2017, 17:02 hs

DJAVAN - Meu Bem Querer


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

ESCREVER

O fim, a finalidade de escrever? Para além ainda de um devir-mulher, de um devir-negro, animal etc., para além de um devir-minoritário, há o empreendimento final de devir-imperceptível. Não, um escritor não pode desejar ser "conhecido", reconhecido. O imperceptível, caráter comum da maior velocidade e da maior lentidão. Perder o rosto, ultrapassar ou furar o muro, limá-lo pacientemente, escrever não tem outro fim. O que Fitzgerald chamava de verdadeira ruptura: a linha de fuga, não a viagem nos mares do Sul, mas a aquisição de uma clandestinidade (mesmo se se deve tornar-se animal, tornar-se negro ou mulher). Ser, enfim, desconhecido, como poucas pessoas são, é isso trair. É muito difícil não ser mais conhecido de ninguém, sequer do porteiro, ou no bairro, o cantor sem nome, o ritornelo.
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet in Diálogos

ENQUANTO ISSO, EM LAS VEGAS

Vai encarar?

"ESSE ROSTO QUE ME OLHA"

Esse rosto que me olha de esguelha
(talvez para não ser reconhecido)
não é o mesmo que ontem vi no espelho,

o rosto familiar de um velho amigo
que desde sempre eu via à minha frente
e que no entanto agora anda sumido.

Não. Este novo é um rosto diferente,
de quem está ali a contragosto,
só por honra da firma, e se ressente

da obrigação de refletir um rosto
que — fora um ou outro aspecto físico
que nada significa — é o seu oposto.

(Um dos dois rostos é um impostor, no mínimo.
Um dos dois vai ouvir: Pára com isso,
porra. É com você mesmo, seu cínico.)


Paulo Henriques Britto
A NAMORADA DE STEPHEN

"Conheci Stephen Paddock como um homem bondoso, carinhoso e tranquilo", diz o comunicado. "Ele nunca me disse nada nem tomou nenhuma ação que eu entendesse como uma advertência de que algo horrível como isso pudesse ocorrer... Nunca me ocorreu que ele estava planejando um ato violento".
(...)

Por G1, 04/10/2017, 20:18 hs

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

FRANZ KAFKA

O processo

Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Nas visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como estão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal.

Manoel de Barros

CAETANO VELOSO - Lua e Estrela


TOM DE ESPECIALISTA

Lula teve um novo encontro com o microfone nesta terça-feira. Discursou num ‘petromício’ defronte do prédio da Petrobras, no Rio de Janeiro. Autoproclamou-se novamente um neo-Tiradentes. Sobre o mártir autêntico, declarou: ''Eles mataram a carne, mas não conseguiram matar as ideias libertárias.'' Sobre si mesmo, afirmou:  ''O Lula não é mais só o Lula. O Lula é uma ideia assumida por milhões de pessoas.''

No discurso de Lula todos mentem, menos o orador. “A imprensa mente muito a meu respeito. A Polícia Federal, sobretudo a turma da Lava Jato, mente muito a meu respeito. O Ministério Público da Lava Jato mente muito a meu respeito. E o Moro aceita as mentiras.” Ironicamente, Lula só não falou sobre o companheiro-delator Antonio Palocci, versão petista de Joaquim Silvério dos Reis.

Organizado por petroleiros, o ato festejou os 64 anos da Petrobras. Para Lula, a estatal não deve ser vista apenas como uma companhia petroleira, mas como instrumento de política econômica. ''Tem mais de 20 mil empresas que dependem dela'', declarou a certa altura.

Considerando-se que o mensalão e o petrolão são dois escândalos que têm raízes nos governos de Lula, é impossível deixar de reconhecer sua autoridade para discursar sobre a mentira e os mentirosos. Excetuando-se o silvério Palocci, ninguém ousaria discutir com tamanho especialista.

Mal comparando, o discurso de Lula às vezes faz lembrar uma galhofa de Tim Maia. O gênio da música brasileira costumava proclamar: “Não fumo, não bebo e não cheiro. Só minto um pouco.

Do Blog do Josias de Souza, 04:10 hs, 02:20 hs

terça-feira, 3 de outubro de 2017

POÉTICAS DO ACASO

Não falamos de poetas, nem falamos de poesia. Falamos de uma poética, de poéticas espalhadas e espelhadas pelo mundo, à espera de que sejam libertadas dos porões formais da carcaça humana. Construir poéticas é injetar no inumano a máxima intensidade possível. Os chamados grandes poetas são na verdade menores e inumanos ("grande só o menor"), partículas do universo infinito que fulguram em cada um de nós. Somos seus co-autores na aventura da escrita-movimento, a que frequenta e satura os átomos do mundo.


A.M.
'Pensai', escreve o sr. Clyde Miller, admirado, 'pensai no que pode apresentar de lucros para a vossa firma se conseguirdes aliciar um milhão, ou dez milhões de crianças, que se tornarão adultos treinados para a aquisição dos vossos produtos, como os soldados são antecipadamente treinados para avançar quando ouvem as palavras-estímulo: Em frente, marche!'
(...)

Aldous Huxley in O Admirável mundo novo