domingo, 8 de outubro de 2017

CHAME UM MÉDICO!

A aliança da Medicina com o capital é mais íntima do que se supõe. Seria grosseiro e simplista dizer apenas que a Medicina faz dinheiro e/ou que o poder médico compõe o tecido social. Claro que isso é verdade, na medida em que a superfície miraculada do capital tudo transforma em mercadoria.E que a equação saber=poder existe. No entanto, a questão é de outra natureza. Ela implica na produção de necessidades humanas codificadas em crenças e afetos. Quais? Dir-se-ia: " eu acredito na Medicina como a principal resposta ( obtida ou a obter mediante pesquisas ) a qualquer doença". Aí está implícito o próprio conceito de doença: axiomas médicos o sustentam. Quanto ao afeto, ele está inserido na "essência"dos modos de subjetivação dominantes como fé: "eu tenho fé na Medicina e reverencio seus métodos por terem respaldo científico". Produção de verdade. Daí, alguém ser "crente" e ser "fiel" está para além da religião. Pacientes são fiéis. Para isso, afetos são cravados no corpo-organismo e reforçados por outros como o medo à dor, ao sofrimento, à morte, etc, os quais sustentam a engrenagem do Consumo (de remédios, por exemplo) acoplada à da Produção, ou vice-versa.

A.M.

FLAVIO DE CARVALHO


A ARTE RESISTE

(...)
A laicidade ainda é tema encabulado dentro do cenário político nacional, infelizmente não sendo nada tímido o crescimento de bancadas nos parlamentos e de falas nos parlatórios legislativos, de profissão de fé cristã e pentecostal. Utiliza-se o universal na lógica teocrática: uma política sem dados, “em nome de Deus”, plena de preconceitos e censuras aos que divergem da moral religiosa hegemônica. Estão sendo submetidos neste processo: as mulheres; negros e negras; a liberdade sexual e a identidade de gênero; os conteúdos críticos nas escolas; as outras correntes religiosas, enfim, a cultura de forma geral.

A semelhança entre a censura à exposição Queermuseu e a gestão dos eventos culturais do Rio encontra-se na limitação da arte sob justificativas ora moralistas (declaradamente) ora burocráticas, que tendem a afirmar o que é melhor pra todos, mas sempre, curiosamente, deixam os mesmos grupos contra-hegemônicos de fora deste “universo dominante”. É o todo representado pelo branco, burguês, cristão, empresário, masculino, heterossexual e claro, despido de preconceitos.  É o todo de sempre.
(...)

Juliana Barros, Paula Cassol, Roberta Cristina, Roberta Laena, Simone Soares, Vanessa Oliveira
(Grupo Cult)

sábado, 7 de outubro de 2017

A beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio tom, nessa incerteza.

Lygia Fagundes Telles

STEVIE WONDER - I Just Called To Say I Love You


HELEY, QUANDO A VIDA NÃO MORRE

Ensinar era o propósito e o símbolo da reconstrução da vida da professora Heley de Abreu Silva Batista. Aos 43 anos, cuidava dos alunos como se fossem seus filhos antes de ter o corpo queimado durante a luta travada com o vigia Damião Soares dos Santos, que ateou fogo na creche em que trabalhava, em Janaúba, no norte de Minas Gerais. “Ela jamais deixaria os alunos para trás”, diz a professora de educação física, Evani Cunha, que trabalhou com Heley ao longo de 15 anos. “Os alunos a ajudaram a dar a volta por cima depois da morte do filho. Ela não sossegaria enquanto não salvasse todos eles.” O primogênito de Heley morreu afogado na piscina de um clube da cidade, aos quatro anos, quando ela estava grávida do segundo filho. Naquela época, era professora do ensino fundamental. Encontrou forças no convívio diário com crianças. A sala de aula lhe ensinou que era possível reencontrar a esperança e tocar em frente.
(...)

Breiller Pires, El País, Janaúba, 06/10/2017, 23:55 hs
Segue teu destino, rega tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias..... Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode dizer-te.A resposta, está além dos Deuses.

Fernando Pessoa

ORQUÍDEAS ETERNAS


A DOENÇA-HOMEM

Entre as forças mortíferas que massacraram e massacram o desejo na história da humanidade, há muitas, tantas, tantas mesmo que não caberiam neste pequeno escrito.Mas, como não citar, pelo menos, a Religião, o Estado, a Escola e a Família? A sensualidade, a alegria de viver os Encontros, alegria gratuita, a arte de criar, criar a si mesmo, criar uma Ciência, uma ciência menor atenta aos devires, a generosidade para além das fronteiras mesquinhas do Estado-nação, o acontecimento-amar, o sentimento de cidadania terráquea, o salto sobre o abismo do Nada, a  aliança com a Natureza (que somos nós), a prevalência da ética sobre a política, a política como substituição dos rebanhos humanos e dos zumbis vagando pela superfícies do mundo, por subjetividades múltiplas,singulares, enfim, tudo isso e muito mais é capturado por forças que estão por toda a parte, nem sempre visíveis, mas sempre atuantes e devastadoras. O fascismo, hoje... Ele constitue o Inconsciente representativo, edipiano, familiar e molar que trabalha no interior de todos nós. Nem falaremos das matanças explícitas de milhões. O fato inequívoco é o de que basta alguém querer, basta alguém ir indo, basta alguém querer experimentar por sua conta o Milagre da vida, basta alguém querer experimentar no seu canto para que o Muro se mostre como fronteira não ultrapassável da racionalidade mais torpe, arrogante e sedutora. No nosso caso verde-amarelo, o Brasil avança... para onde? Para onde, José?


A.M.


P.S. - Texto republicado.
A consciência exata dessa insônia,
a forma certa desse modo, o gesto
seco que rejeita essa necessidade
abjeta de ser quem não se é-
a aceitação completa da vontade
insuportável de querer o que
se quer, a sede obscena de tragar
o copo junto com a bebida- coisas
tão simples, que só pedem a paciência
sábia dos que aprenderam a se aturar,
a santa complacência de quem lambe
as próprias chagas e aprecia o gosto-
não por requinte de nojo, mas só
por nunca haver provado outro sabor.


Paulo Henriques Britto

ONDA CONSERVADORA !


POR QUE, VENEZUELA?

Ninoska Torrealba, de 50 anos, acompanha seu neto Alenxon Gomes, de 5, em sua agonia no Hospital de Niños J.M. de los Ríos, em Caracas. Pernas finas, cabelo curto, ele deveria estar brincando, não naquela cama. Suas varizes no esôfago poderiam ser curadas com uma cirurgia. Mas o hospital não tem o kit básico para a operação. O rompimento dos vasos poderia ser tratado com remédios, mas eles não estão disponíveis. Ao menos as dores poderiam ser aliviadas com analgésicos; mas estes também não existem nas farmácias. Alenxon sofre de algo plenamente curável, como sofria um doente há 100 anos, apenas porque vive na Venezuela. 
(...)

Yan Boechat, Época, Caracas, 06/10/2017, 22:10 hs

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ODILON REDON


por toda a parte
o ódio à diferença
cava o rosto do século
na figura do general


A.M.
Eu quero te amar loucamente. Eu não quero palavras, mas gritos desarticulados, sem sentido, do fundo do meu ser mais primitivo, que flua de minha barriga como mel. Uma alegria perfuradora, que me deixa vazia, conquistada, silenciada.
(...)

Anaïs Nin