segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A ARTE COMO ATO DE RESISTÊNCIA - Gilles Deleuze

Baobá

Vontade de fazer
uma coisa grande
de futuro imenso:
plantar um pé
de jacarandá
um baobá
e deixá-lo aí
para beijar 
a cumeeira
dos séculos,
zombar de tudo
que é breve
e que, como nós,
se consome 
no atrito das
horas, na
vertigem
incontrolável
das coisas miúdas.


Carlos Machado

SATURN ´S RETURN - Marc Cary

O FASCISMO QUE SE APROXIMA

O fascismo pode ser definido de muitas maneiras, todas elas parciais. Dependendo da época e do lugar, consistiu no sequestro do Estado por parte de interesses privados, ou no enquadramento da sociedade em um esquema de quartel, ou na criação de mecanismos mais ou menos brutais para eliminar a dissidência diante do poder. Às vezes essas características se combinam. Em geral, o fascismo requer um líder carismático. Mas não sempre. Um regime pode parecer fascista sem ser: a Argentina de Perón. E pode ser fascista sem parecer: o Portugal de Oliveira Salazar. Dá para fazer muitas especulações sobre o fascismo.
Talvez a essência do fascismo consista em algo bastante simples: uma reação agressiva da maioria contra as minorias. As maiorias, é claro, são algo contingente. Não existem por si só. É preciso criá-las ou pelo menos dar-lhes forma, e para isso é necessário encontrar sentimentos que muitos possam compartilhar (o fascismo não se baseia em ideias, mas em sentimentos) e estimulá-los ao máximo. O medo, a raça, a pátria, a bandeira, a religião, a frustração, o passado (neste caso, quase como antônimo da história): elementos que não resistem a uma análise superficial e que, ao mesmo tempo, podem suscitar violentas emoções coletivas.
(...)

Enric González, El País, 01/12/2018, 21:48 hs

domingo, 2 de dezembro de 2018

Só os inimigos dizem a verdade. Amigos e amantes, apanhados na teia da obrigação, mentem sem parar.

Stephen King

NDT II Jiri kylian 27'52"

defloração

a terra molhada
exala um perfume
tão próprio das fêmeas
um cheiro de coito
e dentro em pouco
estará inundada
de verdes de brotos
de intumescências


Líria Porto
A DIFERENÇA NA CLÍNICA

(...)
A  análise dos afetos e dos sistemas de crenças substitui o insípido exame mental. Começa  pelo corpo em ação, mesmo que este esteja imóvel. Linhas do corpo não são as do  organismo  físico-químico.Os afetos se traduzem em movimentos às vezes imperceptíveis.Preenchem outro  corpo, o corpo das intensidades. Os olhos. O paciente é olhado nos olhos. Eles revelam algo do nível  da consciência naquele momento. Ora, o nível da consciência está em contínua mudança, mesmo que tal  fato não  seja  percebido. E geralmente não é, exceto  em situações clínicas “grosseiras” como nos quadros orgânico-cerebrais.A consciência está sujeita à flutuações. Estas escapam à visão do médico. A análise da consciência é atravessada pelos afetos e suas  expressões. O  corpo,  enquanto  sujeito e objeto  do pragmatismo  social,  se  apresenta de  imediato. “Ele está pragmático?”, pergunta  nem sempre  formulada, mas sempre pensada. No  cara a cara  psiquiatra-paciente, a  questão  básica é a  do  poder. Esse dado, tão  discutido por Foucault, tem na proposta de uma clínica  da diferença, o  valor da realidade fabricada  pela  psiquiatria.  Portanto,  relativa,   e  sobre   a qual  é  preciso  se  insurgir, pois  o  paciente  de  fato  necessita   de ajuda  ou  pelo menos  algo  deve  ser  feito em  prol  da vida. O Encontro  é  uma  sensibilidade não codificada  em manuais de  psiquiatria. Nada  temos  a  propor  senão  liames anormais de vida.A hora do tempo a-temporal se afirma.Um paradoxo.É a temporalidade como matéria irreversível, devir. Esta é a base existencial para se pensar o paciente  como um agenciamento  de forças,  estranho  encontro regido pelo  acaso, mas do qual não há como escapar. O  paciente traduz  um  certo  comportamento. Sob  um  olhar-clichê,  ele  se  constitui  como  comportamento  preso  num regime  de visibilidade. Não mais. Daí a  rigidez do exame  mental clássico  ceder a  uma percepção fina  construida na  prática  com  o outro. Apesar  de  reconhecer a importância da fenomenologia,  aqui  não se trata  dela. Tampouco  se  trata de um espiritualismo travestido de clínica. Buscamos construir um plano não  hierarquizado. As relações de poder compõem esse  plano junto a outras relações num continuum empírico  sem forma. Tudo  se passa num  lugar  sem  lugar. Ao  seguir a  trilha   do  inconsciente produtivo em suas expressões  à  luz  do  dia,  o percurso  da  diferença se  defronta com  o ato  de criar.  Ou  seja,  trata-se  de  algo  que  (ainda)  não  existe. Na  verdade,  o ato  de  criar é o  ato  de diferenciar-se.   O formato da  clínica não é o  do psiquiatra atrás de uma mesa defronte  ao  paciente.  Pode ser  qualquer coisa, até mesmo a tradicional,  desde  que  torcida e transformada.  O que  muda neste caso é  a sua  atitude e  o  rearranjo dos  elementos vivenciados pelo  paciente. Este não é um nome, mas uma vida, cerne da ética. A “garimpagem” dos signos-sintomas acontece no fluir da conversa. Uma atitude empática do psiquiatra amplia-se...Isto implica  na  construção de um campo perceptivo  que não se restringe  à  pessoa, mas ao que  a  precede e lhe determina: o universo. A diferença não é uma coisa, mesmo a coisa  “valiosa” na visão  humanista. A diferença torna-se. Ela é processo afirmativo inscrito nas  ações do paciente, mesmo que  sejam  inadequadas e  bizarras. É um grito. Ora, um psiquiatra biológico, em geral,  quer calar ou  afastar o grito. Então, o método, para driblar e ao mesmo  tempo usar os  fármacos,  é outro, trilha  desconhecida a explorar. Neste sentido, o percurso do tratamento é incerto. As garantias técnicas se dissolvem. A clínica tradicional desabituou-se a encarar o vazio como resposta aos problemas ditos mentais. Voltamos à perda das referências pontuais e à subjetividade não individuada em papéis demarcados.Quem é o paciente? Quem é o psiquiatra?  A partir de vivências múltiplas, o paciente talvez  não queira ser  normal, mas diferente. Não há o ser-paciente. Não há o ser-psiquiatra. 
(...)

A.M. in Trair a Psiquiatria

MAHNOOR SHAH


Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Fernando Pessoa
O QUE  É  A  DIPLOMACIA

De passagem pelos Estados Unidos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) comportou-se como uma espécie de chanceler paralelo do Brasil. O filho de Jair Bolsonaro levou às redes sociais uma entrevista que concedeu à Fox News. Com a humildade reduzida à mínima potência, disse que sua viagem teve o propósito de abrir o caminho para a recuperação da credibilidade do Brasil, um país que abandonou o "socialismo" para ser "uma economia muito mais liberal."

Sinalizou que o futuro governo não reconhecerá a legitimidade da recente reeleição de Nicolás Maduro na Venezuela. Reiterou o plano de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Encostou o Planalto na Casa Branca ao declarar que, doravante, o Brasil dará preferência a uma aliança com os Estados Unidos. E admitiu que seu pai é uma versão tropical de Donald Trump, pois, a exemplo dele. despreza o politicamente correto.

Em poucos minutos de conversa, Eduardo Bolsonaro fez barba, cabelo e bigode, como se diz. Mandou a escanteio países como a China, deixou de cabelos hirtos exportadores brasileiros que vendem toneladas de carne para nações árabes e muçulmanas. E alistou o Brasil, por assim dizer, na infantaria de Trump, transformando o país em potencial aliado de um encrenqueiro em todas as brigas que ele compra ao redor do planeta.

A exemplo do diplomata Edson Araújo, chanceler oficial nomeado por Olavo de Carvalho, Eduardo Bolsonaro parece ignorar que a diplomacia é uma atividade que traz o significado no nome. Quando funciona, é macia.

Do Blog do Josias de Souza, 02/12/2018, 04:18 hs

DENTE CANINO, direção de Yargos Lanthimos, Grécia, 2009

sábado, 1 de dezembro de 2018

O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem.
(...)

Aldous Huxley in O Admirável Mundo Novo
COLETES AMARELOS

Emmanuel Macron, um político jovem e novato que há um ano e meio chegou à Presidência da França contra todas as previsões e envolto numa aura de invencibilidade, agora enfrenta o momento mais difícil de seu mandato. Os coletes amarelos – o movimento sem líder nem ideologia que protesta contra o preço dos combustíveis e a perda do poder aquisitivo – são os responsáveis. Desconcertado primeiro, superado depois, e com a popularidade menor que a de seus antecessores, Macron resiste ante as reivindicações dos coletes amarelos, que segundo as pesquisas contam com o apoio maciço dos franceses. 
(...)

Marc Bassets, El País,Paris, 01/12/2018,16:14 hs

GOLEIROS E DEUSES