Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
O FASCISMO QUE SE APROXIMA
O fascismo pode ser definido de muitas maneiras, todas elas parciais. Dependendo da época e do lugar, consistiu no sequestro do Estado por parte de interesses privados, ou no enquadramento da sociedade em um esquema de quartel, ou na criação de mecanismos mais ou menos brutais para eliminar a dissidência diante do poder. Às vezes essas características se combinam. Em geral, o fascismo requer um líder carismático. Mas não sempre. Um regime pode parecer fascista sem ser: a Argentina de Perón. E pode ser fascista sem parecer: o Portugal de Oliveira Salazar. Dá para fazer muitas especulações sobre o fascismo.
Talvez a essência do fascismo consista em algo bastante simples: uma reação agressiva da maioria contra as minorias. As maiorias, é claro, são algo contingente. Não existem por si só. É preciso criá-las ou pelo menos dar-lhes forma, e para isso é necessário encontrar sentimentos que muitos possam compartilhar (o fascismo não se baseia em ideias, mas em sentimentos) e estimulá-los ao máximo. O medo, a raça, a pátria, a bandeira, a religião, a frustração, o passado (neste caso, quase como antônimo da história): elementos que não resistem a uma análise superficial e que, ao mesmo tempo, podem suscitar violentas emoções coletivas.
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Enric González, El País, 01/12/2018, 21:48 hs
domingo, 2 de dezembro de 2018
A DIFERENÇA NA CLÍNICA
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A análise dos afetos e dos sistemas de crenças substitui o insípido exame mental. Começa pelo corpo em ação, mesmo que este esteja imóvel. Linhas do corpo não são as do organismo físico-químico.Os afetos se traduzem em movimentos às vezes imperceptíveis.Preenchem outro corpo, o corpo das intensidades. Os olhos. O paciente é olhado nos olhos. Eles revelam algo do nível da consciência naquele momento. Ora, o nível da consciência está em contínua mudança, mesmo que tal fato não seja percebido. E geralmente não é, exceto em situações clínicas “grosseiras” como nos quadros orgânico-cerebrais.A consciência está sujeita à flutuações. Estas escapam à visão do médico. A análise da consciência é atravessada pelos afetos e suas expressões. O corpo, enquanto sujeito e objeto do pragmatismo social, se apresenta de imediato. “Ele está pragmático?”, pergunta nem sempre formulada, mas sempre pensada. No cara a cara psiquiatra-paciente, a questão básica é a do poder. Esse dado, tão discutido por Foucault, tem na proposta de uma clínica da diferença, o valor da realidade fabricada pela psiquiatria. Portanto, relativa, e sobre a qual é preciso se insurgir, pois o paciente de fato necessita de ajuda ou pelo menos algo deve ser feito em prol da vida. O Encontro é uma sensibilidade não codificada em manuais de psiquiatria. Nada temos a propor senão liames anormais de vida.A hora do tempo a-temporal se afirma.Um paradoxo.É a temporalidade como matéria irreversível, devir. Esta é a base existencial para se pensar o paciente como um agenciamento de forças, estranho encontro regido pelo acaso, mas do qual não há como escapar. O paciente traduz um certo comportamento. Sob um olhar-clichê, ele se constitui como comportamento preso num regime de visibilidade. Não mais. Daí a rigidez do exame mental clássico ceder a uma percepção fina construida na prática com o outro. Apesar de reconhecer a importância da fenomenologia, aqui não se trata dela. Tampouco se trata de um espiritualismo travestido de clínica. Buscamos construir um plano não hierarquizado. As relações de poder compõem esse plano junto a outras relações num continuum empírico sem forma. Tudo se passa num lugar sem lugar. Ao seguir a trilha do inconsciente produtivo em suas expressões à luz do dia, o percurso da diferença se defronta com o ato de criar. Ou seja, trata-se de algo que (ainda) não existe. Na verdade, o ato de criar é o ato de diferenciar-se. O formato da clínica não é o do psiquiatra atrás de uma mesa defronte ao paciente. Pode ser qualquer coisa, até mesmo a tradicional, desde que torcida e transformada. O que muda neste caso é a sua atitude e o rearranjo dos elementos vivenciados pelo paciente. Este não é um nome, mas uma vida, cerne da ética. A “garimpagem” dos signos-sintomas acontece no fluir da conversa. Uma atitude empática do psiquiatra amplia-se...Isto implica na construção de um campo perceptivo que não se restringe à pessoa, mas ao que a precede e lhe determina: o universo. A diferença não é uma coisa, mesmo a coisa “valiosa” na visão humanista. A diferença torna-se. Ela é processo afirmativo inscrito nas ações do paciente, mesmo que sejam inadequadas e bizarras. É um grito. Ora, um psiquiatra biológico, em geral, quer calar ou afastar o grito. Então, o método, para driblar e ao mesmo tempo usar os fármacos, é outro, trilha desconhecida a explorar. Neste sentido, o percurso do tratamento é incerto. As garantias técnicas se dissolvem. A clínica tradicional desabituou-se a encarar o vazio como resposta aos problemas ditos mentais. Voltamos à perda das referências pontuais e à subjetividade não individuada em papéis demarcados.Quem é o paciente? Quem é o psiquiatra? A partir de vivências múltiplas, o paciente talvez não queira ser normal, mas diferente. Não há o ser-paciente. Não há o ser-psiquiatra.
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A.M. in Trair a Psiquiatria
Começo a conhecer-me. Não existo.
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Fernando Pessoa
O QUE É A DIPLOMACIA
De passagem pelos Estados Unidos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) comportou-se como uma espécie de chanceler paralelo do Brasil. O filho de Jair Bolsonaro levou às redes sociais uma entrevista que concedeu à Fox News. Com a humildade reduzida à mínima potência, disse que sua viagem teve o propósito de abrir o caminho para a recuperação da credibilidade do Brasil, um país que abandonou o "socialismo" para ser "uma economia muito mais liberal."
Sinalizou que o futuro governo não reconhecerá a legitimidade da recente reeleição de Nicolás Maduro na Venezuela. Reiterou o plano de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Encostou o Planalto na Casa Branca ao declarar que, doravante, o Brasil dará preferência a uma aliança com os Estados Unidos. E admitiu que seu pai é uma versão tropical de Donald Trump, pois, a exemplo dele. despreza o politicamente correto.
Em poucos minutos de conversa, Eduardo Bolsonaro fez barba, cabelo e bigode, como se diz. Mandou a escanteio países como a China, deixou de cabelos hirtos exportadores brasileiros que vendem toneladas de carne para nações árabes e muçulmanas. E alistou o Brasil, por assim dizer, na infantaria de Trump, transformando o país em potencial aliado de um encrenqueiro em todas as brigas que ele compra ao redor do planeta.
A exemplo do diplomata Edson Araújo, chanceler oficial nomeado por Olavo de Carvalho, Eduardo Bolsonaro parece ignorar que a diplomacia é uma atividade que traz o significado no nome. Quando funciona, é macia.
Do Blog do Josias de Souza, 02/12/2018, 04:18 hs
sábado, 1 de dezembro de 2018
O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem.
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Aldous Huxley in O Admirável Mundo Novo
COLETES AMARELOS
Emmanuel Macron, um político jovem e novato que há um ano e meio chegou à Presidência da França contra todas as previsões e envolto numa aura de invencibilidade, agora enfrenta o momento mais difícil de seu mandato. Os coletes amarelos – o movimento sem líder nem ideologia que protesta contra o preço dos combustíveis e a perda do poder aquisitivo – são os responsáveis. Desconcertado primeiro, superado depois, e com a popularidade menor que a de seus antecessores, Macron resiste ante as reivindicações dos coletes amarelos, que segundo as pesquisas contam com o apoio maciço dos franceses.
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Marc Bassets, El País,Paris, 01/12/2018,16:14 hs
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