sexta-feira, 8 de maio de 2020

BANKSY


O EXEMPLO DE NITERÓI

Enquanto a cidade —e todo o Estado— do Rio de Janeiro se aproxima do colapso sanitário, do outro lado da ponte a cidade vizinha mais rica parece enfrentar a pandemia de coronavírus com um pouco mais de tranquilidade. O município de Niterói, conhecido por ter o sétimo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais alto de todo o país, vem buscando desde janeiro se antecipar à covid-19 com uma série de medidas sociais, econômicas e sanitárias. Com 500.000 habitantes, foi a primeira cidade a adquirir testes rápidos —um total de 50.000― da China e da Coreia do Sul com o objetivo de testar 10% de sua população ao longo de dois meses.
(...)

Felipe Betim, El País, São Paulo, 07/05/2020, 11:23 hs

quinta-feira, 7 de maio de 2020

COVID: AFETOS E CRENÇAS

Em tempos covídicos, a saúde mental é atingida em cheio. Esse fato óbvio nos conduz a buscar uma psicopatologia que se constitua no próprio universo do vírus, não como causa de certa patologia mental ou um sintoma, mas como linha psíquica do sofrimento atual. O universo da pandemia é claramente um universo paranóico. Isso leva a que afetos contagiem (infectem) efeitos de subjetivação sobre cada indivíduo. O medo (tornado crônico) do invisível, o medo do outro, o medo de si mesmo, a suspeita insistente, a desconfiança a priori, a contenção dos corpos, a compulsão com a assepsia, a angústia ( um mal estar indefinido), a obsessão com o pessimismo e a morte, entre outros...  são afetos negativos, destrutivos. Junto com eles, ou misturadas a eles, nos chegam as imagens, mil imagens produtoras de crenças. Informar e comunicar: o objetivo. Elas são veiculadas por tecnologias de ponta onde a mídia, a internet, os celulares e toda a parafernália on line se corporifica como verdade do mundo a se aceitar sem crítica. Assim, as crenças induzem ao medo e o medo induz às crenças. Um círcuito de realimentação discursiva se instaura como subjetividade isolada, ilhada, confinada, apavorada, o que irá nutrir e abastecer depressóes, delírios, alucinações, fobias, ideações suicidas, lacunas de memória, pânicos, auto-mutilações, insônias, apragmatismos sociais, somatizações, conversões e dissociações histéricas... Enfim, fica evidente que a saúde mental não é a saúde do cérebro mas a saúde do mundo social onde o cérebro, sim, está enfiado. Sem remédio.

A.M.

PHILIP GLASS - Prophecies

quarta-feira, 6 de maio de 2020

OH! LULA...

Em julgamento virtual, a 8a Turma do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4) manteve condenação do ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia (SP) a 17 anos de prisão.
Por unanimidade, os desembargadores negaram os recursos apresentados pela defesa do petista. Na última petição apresentada ontem à noite, os advogados de Lula solicitaram suspensão do julgamento virtual com base no depoimento do ex-ministro Sergio Moro do no último sábado (2). A defesa alegou que a oitiva de Moro era um novo acontecimento relacionado ao processo de suspeição do ex-juiz da Lava-Jato, que aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).
(,,,)

Bela Megale, O Globo, 05/05/2020,16:09 hs
Clínica dos afetos - II

A clínica dos afetos poderia ser chamada "clínica da diferença" ou "clínica das multiplicidades". A opção por "afetos" deve-se à estratégica de análise da psicopatologia que sustenta (ou deveria sustentar) a psiquiatria clínica. Veja: um paciente (qualquer...) está sob a influência incessante de forças que se traduzem no corpo, na alma, na conduta, na existência enquanto afetos, intuições, sentimentos, tendências, emoções, impulsos, instintos, quer sejam criadores e/ou destrutivos. Tal perspectiva metodológica busca eliminar a visão do transtorno mental como evento extra-territorial (fora do meio em torno) o que faz por encaixotá-lo em modelos enrijecidos, frios, assépticos, desnaturados, seja o da visão biomédica, seja o de outras metodologias como a da terapia cognitivo-comportamental (TCC), sem dúvida, um monumento ao conformismo tornado ciência. Uma clínica dos afetos começa com os afetos em jogo postos pelo próprio técnico em saúde mental. O que Freud chamava de contratransferência pode ser ampliado para uma atitude de implicação ético-estética no que acontece ao Outro, sabendo que este Outro somos nós mesmos.

A.M.
A vida é uma ferida?
O coração lateja?
O sangue é uma parede cega?
E se tudo, de repente?

Eduardo Pitta, 

MEU QUERIDO SUPERMERCADO

Às vezes, entre a água sanitária e os tomates, surge o amor. Dura um instante, uma flechada, exatamente o tempo de que todos os produtos passem pelo caixa. Assim que se enchem as sacolas, é hora da despedida. Então, Danilo de Melo Santos fica mais uma vez sozinho com seus sonhos. E com o próximo cliente. “Pode ser que um comprador nem repare em você, e enquanto isso você está divagando, imaginando uma vida com ele”, confessa diante da câmera o jovem operador de caixa. Embora nem todos os idílios terminem com um cupom fiscal e um “até logo”. Acontece que, além de carne e legumes, um supermercado está cheio de surpresas. Como a própria vida. “É claro que já saí com algum cliente, é normal. Acontece, você troca um olhar, um elogio, dá o telefone...”, acrescenta Santos. Sabe-se lá quantos romances já nasceram de uma compra. E não só isso: entre os infinitos corredores, escondem-se debates de filosofia e religião, crônicas íntimas de dor e esperança. Estão lá, embora quem tem olhos só para os biscoitos, as azeitonas ou o desodorante nunca repare neles. A diretora brasileira Tali Yankelevich fez isso. E filmou: seu primeiro longa, Meu Querido Supermercado, foi exibido por streaming no último sábado no festival Visions du Réel.
(...)

Tommaso Koch, El País, Madri, 05/03/2020, 20:16 hs

terça-feira, 5 de maio de 2020

EMIL NOLDE


O CÉREBRO MENTE

A psiquiatria é uma especialidade médica híbrida. Funciona na zona de fronteira entre as ciências humanas e as biológicas. Contudo, mais importante para a prática clínica (ou seja, aos efeitos sobre o paciente) é  o fato de ser ela uma forma social que se nutre dos códigos sociais estabelecidos. Exemplo simples é o da moral. A psiquiatria guia-se pela moral como pressuposto implícito dos seus enunciados diagnósticos, os quais inscrevem-se no fenômeno mais amplo de medicalização da sociedade. Para que tal empreendimento "dê certo",  conta com a reverência das pessoas em geral a uma neurocientificidade reducionista e à figura do psiquiatra como ponto de subjetivação mantenedor da ordem. São linhas semióticas (produzem significados) que circulam entre os técnicos de saúde mental num circuito de naturalização a-histórica da medicina, e por extensão da própria psiquiatria. Daí, a assepsia tecnocientífica da psiquiatria biológica esconder a função da clínica-do-remédio-químico como produtora social de fármaco-subjetividades. Para o paciente e familiares, vulneráveis aos fluxos da loucura, a saída terapêutica passa a ser o psiquiatra que apenas medica, ainda que isso mortifique o desejo. Ou justo por isso. O chamado paciente crônico é produzido, estigmatizado como crônico pelas vias do diagnóstico "cidológico" e pela farmacoterapia contençora dos processos subjetivos singulares.

A.M.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Ornitóloga

Vai saber
O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(eu que
nunca saí do chão
quando saí
era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.


Adriane Garcia

ALDIR BLANC - Resposta ao Tempo

AGNUS SEI - A poesia de ALDIR BLANC

domingo, 3 de maio de 2020

JAIR, SERGIO E JUDAS

Não foi uma boa escolha do presidente da República comparar o seu ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, a Judas Iscariotes.
Primeiro, porque Jair Messias Bolsonaro comete o engano de se julgar um messias, coisa que ele não é. E na verdade não há ninguém por aí que o seja.
Depois, porque ele e seus filhos são acusados de cometerem atos não muito cristãos, para dizer o mínimo.
E Judas traiu levando as autoridades a conseguir a prisão de Jesus.
Será que Sergio Moro tem, de fato, o segredo de como pegar Bolsonaro?
Por fim, o presidente não deveria ter evocado essa história por um motivo muito simples: Judas acabou levando Jesus à morte.
Vale a pergunta: terá sido um erro, ou um ato falho? Só Bolsonaro sabe se, de fato, Sergio Moro tem provas capazes de crucificar o presidente da República.
E, se isto ocorrer? O que será feito de Sergio Moro?
A cumprir-se a profecia metafórica do autointitulado messias, Judas suicidou-se.
Ou seja, o ex-ministro Sergio Moro teria entregado —no depoimento deste sábado, 2, à Polícia Federal em Curitiba— provas contra Jair que acabaram por incriminá-lo também.
Bem... A essa altura os bolsonaristas devem estar rezando para que seu profeta esteja errado.
E Moro também.

Tales Faria, UOL, 03/05/2020, 09:53 hs