segunda-feira, 8 de junho de 2020

CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - IV

Como F. Guattari previu, vivemos tempos esquizofrênicos. Isso faz retirar do conceito de Capitalismo Mundial Integrado (Guattari, 1982) elementos teóricos contingentes e necessários a uma análise institucional. A produção social (econômica) estendeu-se à produção subjetiva (semiótica) como matéria prima, ou, como diz Foucault,  biopoder. A vida passa a ser produzida, e com ela, tudo que parece imitá-la. Antigos códigos sociais (por ex., na Idade Média, o código teológico) cedem lugar à auto-dissolução numa espécie de esquizofrenização generalizada do corpo social (socius). Não há mais eu, mesmo que pareça. Há, sim, um eu voltado às logísticas de manutenção do cotidiano. É possível olhar em torno: o cenário de dissolução do Sentido é devastador. Indagações da alma ("estarei vivo?") atracam-se no território do corpo-imagem. Assim, pensar para além da simples cognição da realidade só se torna possível mediante a representação dessa realidade e não com e através dela. A realidade "real", o corpo das intensidade mundanas, cede a sua vez, seu número e seu lugar à teatralidade de um mundo em decomposição. Notícias de toda a parte chegam instantâneas. Registram as  linhas subjetivas do consumidor (orgulhoso) de ordens implícitas. Sem saber, é o desejo encalacrado nas dobras da alma: o capital.

A.M.

domingo, 7 de junho de 2020

Brasília, hoje

PROFISSIONAIS DA SAÚDE FALANDO

Um protesto de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde "contra as ações de desmonte da Saúde durante a pandemia e a escalada autoritária de Jair Bolsonaro" foi realizado, na manhã deste domingo (7), em frente à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O ato chegou a fechar duas faixas da avenida Doutor Arnaldo, na zona Oeste da capital paulista.

"É um basta. Percebemos que o silêncio ajuda nessa escalada. Não dá para se omitir em um momento em que a democracia está sendo constantemente atacada e o Ministério da Saúde desmontado. Mais do que isso: estamos vendo uma política higienista do governo", afirmou à coluna Lívia Ciaramello Vieira, médica residente de psiquiatria da USP e uma das organizadoras do ato.
(...)

Leonardo Sakamoto, UOL, 07/06/2020, 12:27 hs

A Revolta Sem Corpo - uma conversa com Vladimir Safatle

BERNARDO É QUASE UMA ÁRVORE

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?)


Manoel de Barros

Bella Figura - Jiří Kylián (NDT 1 | Sometimes, I wonder)

ARES DE DITADURA

O Ministério da Saúde do Governo Jair Bolsonaro apagou de sua plataforma oficial os números consolidados que revelavam o alcance do novo coronavírus no Brasil, provocando críticas imediatas dos demais Poderes e da sociedade civil organizada. Depois de ficar horas fora do ar nesta sexta-feira, o site oficial foi republicado neste sábado, entretanto, somente com as notificações registradas nas últimas 24 horas. Não constam mais o número total de pessoas infectadas pelo vírus Sars-Cov-2 no país desde o início da pandemia, nem o acumulado de óbitos provocados pela covid-19 no território brasileiro. Também foram apagadas do site as tabelas que mostravam a curva de evolução da doença desde que o Brasil registrou seu primeiro caso, no final de fevereiro, e gráficos sobre infecções e mortes por Estado. Na noite deste sábado, seguindo essa política, o Ministério da Saúde divulgou 904 óbitos notificados e 27.075 casos confirmados da doença nas últimas 24 horas. A reportagem somou os números ao computado até a sexta-feira, totalizando em 35.930 óbitos e 672.846 casos da doença em todo o país.
(...)

Marina Novaes, El País, São Paulo, 06/06/2020, 20:49 hs

sábado, 6 de junho de 2020

GOVERNO DE GUERRA

“Bolsonaro teve que formar um Governo de guerra. Mas não é uma guerra contra o vírus, é uma guerra para se manter no poder. É isso que é repugnante”, afirmou Marcos Nobre, professor da UNICAMP e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), em entrevista para o EL PAÍS nesta quinta-feira. O filósofo acaba de publicar o livro Ponto Final - A Guerra de Bolsonaro contra a democracia (Todavia), em que analisa o Governo do presidente Jair Bolsonaro e a escalada autoritária no país. Para ele, Bolsonaro “tenta destruir as instituições por dentro”, e é preciso que as forças democráticas de direita, de centro e de esquerda se unam em torno da queda do presidente. O movimento deve ser similar ao das Diretas Já, que pediu por eleições diretas no final da ditadura militar, e do impeachment de Fernando Collor, em 1992.
O pesquisador acredita, porém, que esse horizonte de união ainda precisa ser construído. “Impeachment não é uma questão de vontade, é uma questão de construção política complicada. E é complicada porque nos últimos anos essa lógica de guerra fez com que essas forças políticas deixassem de confiar uma nas outras”, explica Nobre. Ele acrescenta ainda que as forças políticas serão “obrigadas” a conversar em algum momento. Mas, para que isso aconteça, a base da sociedade também precisa conversar e empurrar os partidos. “Essa negociação tem que começar na base da sociedade. Tudo bem que está difícil ter almoço de domingo, mas começa ali no almoço de domingo, no grupo de WhatsApp da família e dos colegas de trabalho”, afirma. “Não só temos uma crise sanitária, uma crise econômica e uma crise politica. Pela primeira vez também corremos o risco de perder a democracia. Então, tem que ficar claro que ou você junta todo mundo ou esse país vai se inviabilizar”
(...)

Pelipe Bettim,Talita Bedinelli, El País, São Paulo, 04/06/2020, 14:09 hs
Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.

Charles Bukowski

sexta-feira, 5 de junho de 2020

LINHAS PARA O MÉTODO DA DIFERENÇA EM PSIQUIATRIA CLÍNICA

É possível estabelecer algumas linhas (práticoteóricas) para o método da diferença em psiquiatria clínica. São elas. 1-Contextualizar o encontro com o paciente: onde? quando? com quem? por que? para que? 2- Considerar os afetos em jogo, incluindo os do paciente e do técnico. Não como algo mau-em-si ou bom-em-si, mas como uma positividade, o que move as condutas. Trata-se do desejo. 3- Estabelecer hipóteses diagnósticas conforme a chave semiológica "função versus essência". Fazer prevalecer a função terapêutica. 4- Adotar uma atitude expectante (ao modo fenomenológico) expandindo-a como percepção do imperceptível: a espreita. 5-Percutir os sintomas a partir da vivência que o paciente traz do sintoma. Ou seja, retirar o sintoma da grade biomédica (uma doença) e tratá-lo como modo de existência: "eu sou meu delírio".6-Tentar, na medida do possível, inverter com o paciente para além da empatia. Não sentir o que o outro sente (isso é impossível) mas sentir com o outro. Trata-se de um cuidado, mesmo nas situações mais adversas e estranhas. 7- Evitar a auto-identificação em papéis sociais contrários à expressão da diferença, e que estão contíguos ao de psiquiatra biológico. Não ser, pois, juiz, policial ou sacerdote, entre outros. 8-Conectando com o ítem 1, avaliar que forças institucionais fazem o paciente falar uma verdade que não é a dele. Criar condições para ele falar em seu próprio nome. 9- Usar o poder psiquiátrico como um contra-poder a favor da expressão do corpo singular. Um exemplo é o do paciente impregnado devido a prescrição errada de psicofármacos. A correção deve ser acompanhada de uma orientação técnica ao próprio paciente ou a familiares. 10- A subjetividade precede os sintomas ou os diagnósticos à la CID - 10. Ou seja, ninguém é bipolar mas é produzido bipolar. Tudo é produção, inclusive de doenças. 


A.M.

POEMA SOBRE A RECUSA

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.


Maria Tereza Horta

terça-feira, 2 de junho de 2020

NÃO ACABOU, TÁ COMEÇANDO
(...)
A maioria brasileira que ainda não tem voz saberá como rejeitar esse individualismo possessivo que é a verdadeira forma de violência. Pois o verdadeiro embate é pela construção de uma liberdade real que nunca aceitará que mais de 28.000 brasileiras e brasileiros mortos é uma fatalidade natural, como a queda das folhas no outono.

Para finalizar, não podemos mais aceitar as chantagens que nos foram impostas. Nossas ações devem ser mais efetivas a partir de agora. Redes de boicotes a empresas que sustentam essa política da morte, manifestações de rua pelo impeachment do Governo que respeitem exigências de segurança sanitária (como vimos em Israel). Pois a queda desse Governo não será apenas a queda desse governo. Será dar a maioria sua verdadeira força de recusa e abrir o caminho para que ela possa começar a criar.

Vladimir Safatle, El País,01/06/3030, 15:44 hs