sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Mundo Pequeno I


O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,

os besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa.

Ele me rã.

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter

os ocasos.


Manoel de Barros

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A  SAÍDA  É  LOGO  ALI

A experiência capsiana é (ou deveria ser) movida por dois conceitos.  São eles: o “cuidado ao paciente” e o “técnico em saúde mental”. A criação destes conceitos emerge no interior  da prática com o paciente. É aí onde o “psicossocial” interpela o “biomédico” como parte de uma luta diária em prol de regimes ético-estéticos inauditos. Isso pode parecer estranho e demasiado abstrato. Lamento que não o seja ainda mais abstrato: é que o puro afeto não tem forma. A abstração ordinária (perda das formas instituídas) está inscrita em cada gesto como o que inova e faz dos modelos fixos peças recicláveis em arranjos clínicos disformes. O Caps é a clínica-linha como signo de vida da crueza do real-social. O cuidado ao paciente funciona em alianças institucionais e fluxos atrevidos rasgando convenções arcaicas. Isso margeia a periferia dos espíritos que resistem à infâmia e a vergonha. O técnico em saúde mental é o que ultrapassou as divisões entre disciplinas e entre os saberes e se transferiu para a técnica, aí onde já não há mais fronteiras. O contato com a loucura (este não é um conceito médico) é regido pela percepção do caos da psicopatologia num mundo fora e dentro de nós, técnicos do equilibrismo. Sim, não é para qualquer um. Diante disso, o planejamento sombrio de um serviço ambulatorial em saúde mental dispara na contra-corrente das práticas clínicas de autonomia subjetiva. Tal serviço parece mais um cisto parasitário do corpo coletivo, tudo em nome da verdade médica. Como calar?


A.M.


domingo, 11 de outubro de 2020

A CLAUSURA MODERNA

Atingimos o limite num planeta reduzido; o planeta Terra é pequenino. A velocidade da luz no universo não é nada: são necessários muitos anos, mesmo à velocidade da luz, para ir ao fim do universo. Mas o mundo nós reduzimos. A globalização é uma clausura. Somos hoje como peixes numa redoma, numa terra extremamente pequena. Para as telecomunicações, a Terra é muito pequena. Tudo vai muito rápido. Hoje há duas ecologias: a ecologia verde, que se interessa pela poluição das substâncias – do ar, da água, da fauna e da flora -, e a ecologia cinza, que se preocupa com a poluição das distâncias, a redução a nada das distâncias no mundo. Ora, o homem não vive somente de ar puro, de água, de carne; nós vivemos também de distâncias. Temos necessidade de distância, senão é o encarceramento, o sentimento de aprisionamento. Michel Foucault disse que o século XVIII era o século do grande aprisionamento. Não é, pois ele ainda está diante de nós. Amanhã, a humanidade vai se sentir aprisionada numa Terra infinitamente pequena, sabendo que não há nenhum planeta habitável à volta. Esse sentimento corre o risco de ser um dos dramas do futuro, um tipo de claustrofobia da humanidade. Não somos apenas animal, mas também geometral. Somos proporções. As proporções fazem parte da vida, tanto geográficas quanto humanas, fisiológicas. O fato de ter atingido a velocidade da luz nos coloca numa situação do peixe contra o vidro da redoma.

(...)

Paul Virilio, entrevista a EICHENBERG, Fernando, Entre aspas: vol 1, Porto Alegre, RS, L&PM, 2016

Como organizar

sua biblioteca


coloque as dores

nas prateleiras mais altas

para facilitar

o esquecimento

e dificultar

o acesso.



Zack Magiezi

sábado, 10 de outubro de 2020


 

10 ANOS DE CAPS : RELATOS DO TEMPO - 16

7 de novembro de 2013

Se eu buscava uma identidade para o ser-psiquiatra, parecia não haver a menor chance...  "Identidade" pressupõe algo que não muda. Aquele tempo era o contrário.Uma mudança imperceptível se dava na função-psiquiatra, mas só compreendida anos depois. Trabalhar num Caps, já se disse, “não é para qualquer um”. Mas ir além, pode sim : é para qualquer um, desde que queira e experimente a loucura, não como doença ou transtorno, fantasia, tela imaginária, mas como experiência múltipla do caos da realidade coletiva. O puro acaso. Isso envolve e envolvia questões práticas: certa paciente apresentou (mais de uma vez) um quadro de dissociação da consciência, também chamado de psicose histérica. Falava coisas desconexas; desorientada, quase inabordável, ela assustava. Parecia estar louca. Alguém da equipe (que a atendia) aconselhou não vir à consulta quando estivesse assim. E reafirmou em plena reunião técnica. Fiquei pasmo. Creio que tal ação técnica desastrosa foi um modo de se manter e exercer a identidade técnica (quem sou?) no âmbito da consciência e do eu. Era o modelo da psiquiatria (biomédico) exercido para fora da psiquiatria, mas em aliança com ela: medo e rechaço à loucura. Concluí que a perda da identidade do ser-psiquiatra implicava na perda da identidade dos técnicos, no trabalho clínico de um Caps voltado para além do cérebro. Ora, na histeria o cérebro está intacto...


A.M.


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Convenientemente aplicada a qualquer situação, o amor vence sempre. É um fato que se verifica empiricamente. O amor é a melhor política. A melhor não só para os que são amados, mas também para quem ama. Pois o amor é um potencial de energia.


Aldous Huxley

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Não falta amor.

O problema é que

confundimos amor

com perfeição.

E o amor-perfeito

escolheu ser flor.


Zack Magiezi

O INCONSCIENTE  PRODUZ  REALIDADES

Não negamos que haja uma sexualidade edipiana, uma heterossexualidade e uma homossexualidade edipianas, uma castração edipiana - objetos completos, imagens globais e egos específicos. Negamos que sejam produções do inconsciente. Mais ainda, a castração e a edipianização engendram uma ilusão fundamental que nos faz crer que a produção desejante real é passível das mais altas formações que a integram, submetem-na a leis transcendentes e fazem-na servir a uma espécie de 'descolamento' do campo social em relação á produção do desejo, em nome de que todas as resignações são justificadas por antecipação

 (...)

G. Deleuze e F. Guattari 

sábado, 3 de outubro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO- 15

26 de setembro de 2013

O encontro com o Caps produziu uma fissura clínica e teórica em certezas médicas. Que, apesar de tudo, eu ainda carregava. Por extensão a face do psiquiatra foi redesenhada na receita branca. Ou na azul, tanto faz. Quem sou? À medida em que crescia a demanda, os casos se complicavam, tanto na etiologia quanto numa semiologia clínica. O que se passa? O campo das psicoses foi o que mais expressou mudanças. Um conjunto de dados psicopatológicos viria compor enigmas a esclarecer; é psicose? de que tipo? como intervir? o que fazer? será preciso internar? O conceito de psicose mudara tanto ao ponto de dizer o que só outras patologias diziam. Tal foi e é o caso da histeria, encoberta muitas vezes por sintomas psicóticos. Mas para além das psicoses e da sua dúvida implícita (o que é isso?), as síndromes depressivas tomaram de assalto o vasto leque das patologias mentais. Mil, cem mil depressões, e mil, cem mil psicoses na linha tênue de uma clínica do real caótico. O discurso raso da psiquiatria não mais funcionava. No seu lugar o cuidado em saúde mental se esboçou como prática em saúde mental. Prática de vida. Compreendi, então, através da  carne dos dias e no rosto mortificado dos pacientes graves que a identidade do ser-psiquiatra restaria abalada. Para sempre. 


A.M. 


 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O UNIVERSO NÃO É UMA IDEIA MINHA


O universo não é uma ideia minha.

A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.

A noite não anoitece pelos meus olhos,

A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.

Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos

A noite anoitece concretamente

E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.


Fernando Pessoa