Cuidado
Não analise
Demais o que sente.
Apenas sinta!
Autópsias
Sempre estão
Onde não
Existe Vida.
Zack Magiezi
Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
O QUE É VIVER?
As linhas da diferença estão em toda a parte. No entanto, caso prevaleça o olho paranóico da Consciência, este acesso é impossível. Ao contrário, buscamos o cultivo de percepções finas, sutis, delicadas, para além e aquém das formas subjetivas do eu-importante. As pessoas, em geral, se acham importantes. Queremos o desimportante. Experimentar viver sem clichês, com poucas respostas ou referências de verdade: buscar a diferença. Para isso, dobras psíquicas e corpos intensivos fazem novas conexões afetivas. A diferença é o que sobra dos afetos produzidos ao sabor dos encontros. Um "resto" composto de afetos irá encontrar novos afetos, e assim por diante, numa repetição prenhe de nuances de arte. A diferença é a arte. Não a arte mercantil ou monumental, mas a arte como processo de criação de mundos: um devir-arte.Traçar essa linha, esboçar essa linha de força ativa, linha de potência, linha de invenção, linha de vida, quem consegue saiu de si. Enlouqueceu de amor ao amar. Uma passagem, uma travessia. Viver, não apenas sobreviver.
A.M.
O CADÁVER PT
Nunca antes na história, o PT se saiu tão mal na disputa pela Prefeitura de São Paulo. O candidato a prefeito pelo partido, Jilmar Tatto, teve apenas 8,65% dos votos válidos —com 99,92% das urnas apuradas.
É menos do que foi obtido por todos os candidatos a prefeito do PT em São Paulo anteriores a Tatto. Até então, a pior marca tinha sido os 16,7% de Fernando Haddad em 2016, na esteira do impeachment de Dilma Rousseff e da Operação Lava Jato.
Amanda Rossi, do UOL, 16/11/2020, 00:53 hs
Céu azul. Cores vivas. Você rindo
de alguma coisa ou alguém que está à esquerda
do fotógrafo. É talvez domingo.
É claro que essa sensação de perda
não está na foto, não – não está na imagem
extremamente, absurdamente nítida.
E se fosse menor a claridade,
ou se estivesse sem foco, ou tremida,
ou se fosse em sépia, ou preto e branco,
talvez a foto não doesse tanto?
Você, às gargalhadas. O motivo
você não lembra. A foto é muito boa.
Naquele tempo você ria à toa,
você lembra. Você ainda era vivo.
Paulo Henriques Britto
Tempo de eleição
Chega a hora das eleições, mas o tempo não passa. Ou, pelo menos, não salta, digamos, para um outro universo de sentido, onde o homem comum possa dizer: “enfim, algo novo”. Ora, o homem “comum” é o da cidade e também do campo, o que está em contato com a experiência do cotidiano-dia-e-noite ( trabalho, ruas, matas, estradas, serviços, casas, etc) e por isso expressão de um tempo que não passa. Mas que, apesar de tudo, passa. Inútil esconder: fluxos de toda ordem circulam sem cessar. Isso escorre, isso flui...
Desse modo, há um terrível paradoxo no cumprimento de uma espécie de sobrevida para viver, inverso do desejo de viver, ou apenas viver por e para viver.
Chega a Hora.
Como escolher se não há escolha?
Escolher um candidato passa a ser uma ação que oscila no mercado das ofertas clientelísticas conforme razões de mando e comando do poder econômico em sua face mais risonha (todos riem na foto) e cínica. Com os pobres, os inferiores, os miseráveis, os párias, a palavra vira repetição cega e automática. Ou não vira, não vira (no sentido em que se diz “esse carro não vira”), permanecendo em seu lugar a ladainha interminável da servidão moderna.
No fim, que é o começo, não só a Cidade é enfeada e desfigurada, com banners, fotos de bandidos honestos, signos do horror melífluo... não, não! Ao contrário, é toda a cena da disputa que se escancara, via mídia, onde você decide, cidadão, a não decidir.
A.M.
ESTUDO CLÍNICO DAS PSICOSES - III
As psicoses são reconhecíveis pelo delírio. Mas, atenção: o delírio nas psicoses se constitui como sentido. Desse modo, ultrapassa a dimensão do sintoma (elemento da semiologia médica) em direção a uma produtividade subjetiva incompatível com o meio social e com a percepção moral. Tanto é verdade que os quadros ditos negativistas (quando o paciente não fala, não responde, não obedece...) respondem mal ao uso de psicofármacos ou simplesmente não respondem (não melhoram). Sinal de que há algo mais que o sintoma. A psiquiatria biológica chama isso de sintoma negativo. Quem trabalha numa equipe de saúde mental sabe como é difícil se aproximar de um "sintoma negativo". O essencial a reter é o fato de que o delírio não necessita ser dito verbalmente, já que ele pode ser dito não verbalmente, como o jeito de olhar, de andar, de rir, por exemplo. As psicoses, conforme uma psiquiatria da diferença ou de uma diferença na psiquiatria, produzem uma semiótica desconcertante (regime de signos) que só será acessada mediante o uso de recursos técnicos fora da psiquiatria. Isso não invalida, ao contrário, o uso da medicação antipsicótica. Antes, estabelece a psicofarmacologia como um instrumento terapêutico cujo valor estará condicionado a uma postura ético-política de quem atende, de quem cuida. Infelizmente, há um muro na clínica das psicoses. É que o problema essencial, a má formação "congênita" da psiquiatria biológica é a sua adesão inconfessa a um positivismo cientificista raso e danoso para o paciente enquanto ser vivente capaz de autonomia existencial. Considerando-o objeto inerte (e perigoso) tal psiquiatria se instala em seu próprio território de poder (a clínica), e daí obtém resultados terapêuticos de abominável controle sobre a mente, inclusive a do próprio psiquiatra.
A.M.
ADEUS AO PT
A bordo de velhos nomes e velhas propostas, o Partido dos Trabalhadores chega às urnas em 2020 com remotas chances de eleger prefeitos nas principais capitais do país, como mostram todas as pesquisas.
Não dá para brigar com os fatos. Aos 40 anos, o PT envelheceu e está sem rumo, apenas tentando acertar as contas com o passado e glorificar as conquistas dos seus períodos de governo.
Cheguei a essa triste conclusão assistindo terça-feira ao programa produzido pelo partido e exibido nas redes sociais para celebrar os 75 anos de Lula, seu fundador e ainda a principal liderança.
Fora os filhos e netos do ex-presidente, a maioria dos personagens que desfilaram na tela está na minha faixa etária, ou seja, não têm muito futuro pela frente. Quem não ficou careca está de cabelos brancos ou grisalhos.
A maior prova de que o discurso petista já não empolga é que, ao longo de mais de uma hora de programa, em nenhum momento a audiência chegou a 400 pessoas assistindo no YouTube. Apenas 400 pessoas! Dá para acreditar?
Já na eleição municipal de 2016, o PT perdeu dois terços das suas prefeituras e só elegeu o prefeito de uma capital, Rio Branco, no Acre.
Não houve uma renovação de lideranças e de propostas, nada mudou no comando do partido, que só teve dois presidentes nos últimos muitos anos, e hoje lidera as pesquisas apenas em Vitória, no Espírito Santo.
Para um partido que venceu quatro eleições presidenciais consecutivas neste século, não basta colocar a culpa na mídia, na Lava Jato e nos adversários para justificar a derrocada.
Algo se rompeu na relação do PT com o seu eleitorado.
Os tempos mudaram e as receitas usadas nas antigas campanhas eleitorais também envelheceram, já não empolgam mais.
Foi-se o tempo dos grandes comícios (e não só por conta da pandemia) e da militância aguerrida, que fazia campanha de porta em porta, carregando suas bandeiras com a estrela por todos as esquinas e grotões do país.
Ninguém mais vende a bicicleta, empresta o carro ou falta no emprego para fazer campanha pelo PT.
Como vimos em 2018, as eleições agora se decidem nos algoritmos da internet, e não mais nos programas na TV; nos memes e nas fake news, e não mais nas propostas de governo; apenas nas altas rodas do poder econômico e não em assembleias de operários e estudantes.
Numa democracia em que os partidos perderam a importância e o respeito, com a multiplicação de siglas de aluguel que têm donos, assim como as novas igrejas, que brotam por toda parte, a sociedade civil cedeu lugar às corporações militares e religiosas, abrindo espaço para as milícias e o crime organizado, cada vez mais influentes.
Esta é a nova realidade da política brasileira, gostemos dela ou não. Dia 15 de novembro, as urnas vão provar.
Vida que segue.
Ricardo Kotscho, UOL, 30/10/2020, 14:31 hs
SEM AFETO
Não há, nos livros de psiquiatria clínica, algum capítulo voltado ao estudo dos afetos. Nos livros atuais fala-se muito sobre as sinapses. Em psicopatologia, outrora, havia sim algumas considerações sobre os afetos do paciente. No entanto, elas não diziam o que era de fato o afeto, ou seja, não havia (nem nunca houve) um conceito de afeto. Em troca, diz-se que afeto é o que não é pensamento, memória, consciência, atenção, sensopercepção, inteligência... Uma definição pelo negativo, imaginária e urdida num vazio histórico-conceitual. Esse dado expõe à luz do dia uma fraude teórica. Por que é essencial discutir o conceito de afeto? Porque é através dele que se dará (ou não) o vínculo terapêutico com o paciente, ou mais precisamente, a construção da relação de ajuda técnico-paciente. A isso se acresce o dado empírico de que na clínica, frente ao psiquiatra, é muito comum a atitude negativista do paciente: ou seja, ele não quer saber de tratamento, não se acha doente, acha que só ele está certo, não responde às perguntas, não quer sair de casa, que o deixem em paz, etc... Que afetos sustentam esse tipo de atitude?
A.M.