terça-feira, 12 de abril de 2022

TEATRO POÉTICO: SÓ PARA LOUCOS

A linguagem poética constitui um território de significações que escapa às coordenadas da razão. Há um sentido a produzir. Desse modo, a busca de singularidades existenciais é facilitada pela aventura de se ler um poema e implicar-se a ele. O que isso quer dizer? Quer dizer formar e firmar conexões afetivas com um ou muitos pedaços do poema ou do poema como um todo, mesmo sabendo que não há todo. Não há todo porque as multiplicidades heterogêneas do texto nunca fecham um sistema ou tamponam um devir. O processo do desejo é irreversível. Ou seja, sem volta. A poesia é isso: multiplicidades do leitor se ligando a multiplicidades do poema na busca de... uma diferença. Ler um poema não é como ler um ensaio de sociologia, por exemplo, mas sim escutar os versos como se escuta uma música ou se sente no corpo as vibrações das cores de um quadro de Emil Nolde, ou no mesmo corpo e ao mesmo tempo o ritmo de um improviso de jazz, ou uma coreografia de Pina Baush, um gol de bicicleta... Poesia não foi e não é feita para interpretar porque ela já é uma interpretação ou mil, cem mil interpretações da realidade. Ou a própria realidade, a realidade em si-mesma. Quando se está apaixonado (isso deveria ser sempre) a poesia cobre e recobre as superfícies do mundo numa película fina de delicadeza, suavizando os pedregulhos das estradas mais longínquas e inóspitas. Tal como em "Asas do Desejo" (Wim Wenders, 1987), o anjo amante do tempo está transfigurado por avistar a trapezista no seu camarim, não por ele ser um anjo, mas por haver entrado num devir-humano, devir-mundo, devir-risco, devir-perigo, devir-paixão, devir-amar. 


A.M.

domingo, 10 de abril de 2022

ENTÃO, ELE ME  DISSE: "EU MANDEI DEUS CRIAR O MUNDO"

O mundo caminha para se tornar um grande hospício de portas abertas. Há uma generalização social do que é chamado de transtorno mental. A psiquiatria cumpre a função de tratar para adoecer ainda mais.Chegaremos a um ponto onde cada um de nós tratará do outro e vice versa.A mercantilização da alma já não precisará dos valores de troca do mercado.Ela, a alma, será o próprio mercado intimo da angústia por viver.

Grandeza de Marx.


A.M.

HENRY ASENCIO

 


Se eu me livrasse de meus demônios, perderia meus anjos.


Tennessee Williams

O ENCONTRO MARCADO

Numa prática clínica da diferença em psicopatologia, o conceito de Encontro é essencial. Ele diz respeito à chance de estabelecer ligações com os afetos que circulam livremente e/ou aprisionados pelas formas sociais (por ex., a de paciente "mental"). No caso da psiquiatria biológica, da terapia cognitivo-comportamental, das psicoterapias regidas pelo senso comum, das psicologias do bom senso, das terapias religiosas, das psicanálises edipianizantes, enfim, das agências psi normatizadoras, os afetos livres (devires) rodopiam no mesmo ponto subjetivo, endurecidos em sintomas prontos a serem eliminados. Há até pacotes comerciais disponíveis para resolução em apenas 3 meses. Confira. Caso haja êxito, vão-se os sintomas e com eles o desejo. Ao contrário, é preciso encontrar-se com o sintoma já que o Encontro é condição básica para 1-usar os afetos livres para fora da configuração subjetiva dita patológica; 2- desorganizar as formas sociais especializadas em infeccionar as forças ativas. Em ambos os casos, o Encontro não se dá com uma bela alma, mas com a crueza do real múltiplo. Estão e estarão aí, por exemplo, todos os tipos de personalidades anormais que a psiquiatria conservadora engloba sob o código F.60. Ou as histerias, filhas freudianas convertidas ao século XXI e estranhas ao diagnóstico psicanalítico. Ou os pânicos urbanos gritando alto frente à dissolução das certezas do homem tecnológico. Ou as psicoses não especificadas em eus cindidos e aniquilados pelo tempo virtual. Ou corpos descarnados oscilando entre a autoflagelação e o suicídio enquanto formas de se sentirem vivos. O Encontro hoje é, pois, um encontro sem rosto fixo, sem modelo, sem eu, sem consciência, mas ainda assim,e principalmente, um Encontro.


A.M.

 


quinta-feira, 7 de abril de 2022

ela foi a mulher

que me fez amante

como não dizê-la

sem tê-la


como não evocá-la

sem amá-la

sem tempo


ou julgamento?



A.M.


segunda-feira, 4 de abril de 2022

E se Bolsonaro virar Orbán? | Ponto de Partida

TEMAS EM PSICOPATOLOGIA CLÍNICA -1 


O Encontro com o paciente precede os sintomas (delírios, alucinações, angústias, etc). Ou melhor, precede o Exame. Este é um dispositivo institucional à serviço da medicina clínica, positivista, mecanicista, regida pela busca de objetos sólidos, visíveis e manipuláveis: o organismo doente. Ao contrário, o percurso da diferença em psicopatologia começa pelo Encontro. É dizer que o técnico em saúde mental torna-se o outro sem ser o Outro, fazendo do território da Clínica um campo de vibração intensiva (afeto). Isso funciona sob a ética do paciente criar a si mesmo, potência de existir/agir e da resistência aos poderes vigentes.


A.M.

domingo, 3 de abril de 2022

Bedtime story - Nadav Zelner (NDT 2 | The play between)

POR QUE A PRISÃO?

"Conhecem-se todos os inconvenientes da prisão, e sabe-se que é perigosa quando não inútil. E entretanto não ‘vemos’ o que pôr em seu lugar. Ela é a detestável solução, de que não se pode abrir mão”

– Foucault, Vigiar e Punir

Agora finalmente temos recursos para responder à pergunta: por que a prisão? Ora, ela é apenas uma das muitas maneiras de se exercer o poder. Por que então necessariamente ela? Afinal, desde o começo vimos como a prisão é um enorme fracasso! Simplesmente não funciona! Não se presta a cumprir o que promete.

A prisão devia ser um lugar de transformação do criminoso, corrigindo-o e reintegrando-o à sociedade;

A prisão prometia isolar e classificar os sujeitos, segundo a gravidade de seus crimes;

As penas seriam moduladas de acordo com o bom comportamento dos detentos, seus progressos e resultados obtidos durante o processo de regeneração;

O trabalho seria uma peça essencial na transformação e ressocialização progressiva;

A educação seria um princípio indispensável de formação e crescimento;

O regime prisional seria controlado por um corpo técnico especializado, com capacidades morais e técnicas, que zelaria pela boa formação dos indivíduos durante o cumprimento da pena;

O encarceramento seria assistido e acompanhado de medidas de controle tendo em vista a readaptação definitiva do detendo, prestando-lhe suporte para sua reclassificação no seio da sociedade.

Nada disso acontece, muito pelo contrário:

A prisão coloca o presidiário sob outra forma de poder que não o judiciário, abrindo campo para instituições parapenais. Mas de forma alguma diminui as taxas de criminalidade;

A prisão mistura condenados dos mais variados tipos, constituindo uma comunidade de criminosos. Transforma criminosos amadores em profissionais;

A prisão dá abrigo, comida, roupa e às vezes trabalho, sendo, em tempos difíceis, um destino preferível a outras formas de vida. E cria a miséria para a família do delinquente, multiplicando seus efeitos deletérios;

À prisão retornam sempre reincidentes que, marcados pelo crime, só possuem esta alternativa.

Do ponto de vista histórico, a prisão é uma peça nova, inusitada e por isso desconsiderada. Do ponto de vista teórico, a prisão é estranha, pois não satisfazia nenhuma das exigências dos reformadores penais. Do ponto de vista prático e funcional, a prisão é disfuncional e nada prática: não diminui a criminalidade e leva à reincidência. Mas ainda assim:

"Há um século e meio que a prisão vem sempre sendo dada como seu próprio remédio”

– Foucault, Vigiar e Punir

Aqui a Arqueologia de Foucault se torna limitada, e por isso a necessidade da Genealogia: como vimos, a prisão não deriva dos documentos dos Reformadores Juristas. A prisão não é filha de códigos penais nem dos tribunais. Não está lá o seu nascimento, ele se encontra alhures e só o encontraremos numa heterogeneidade de todas as transformações que o período acarreta. Uma heterogeneidade que envolve a burguesia, a religião, a maneira de produzir e acumular riqueza, o fim do despotismo, a revolução política francesa e a revolução industrial inglesa.

A prisão torna-se assim mais um capítulo na história do corpo. Uma maneira do poder político atuar: sutil, imperceptível, mas penetrante. Ela veio de fora, não nasceu da cabeça de juristas, formou-se por outras razões, ela é o cume de uma sociedade disciplinar. Desempenha um papel importante por três características:

Distribui espacialmente os indivíduos. A reclusão permitia o controle dos fluxos, impedia a vagabundagem, o nomadismo, a migração. Prender é antes de mais nada colocar ao dispor;

O encarceramento oferece a chance de intervir na conduta dos indivíduos. É uma maneira de atuar nas vontades, intentos, discursos, comportamentos. A penalidade pune a infração, mas a reclusão permite punir a vida desregrada, anormal, perturbada, irregular;

A clausura permite controle parapenal, para além do crime, da infração do ato. Permite vigiar, coletar informações, atuar continuamente nas mais diversas instâncias.

A quais necessidades atendiam essas novas características do poder? De modo geral, para gerir a nova sociedade industrial como um todo! O funcionamento prisional é uma maneira de regular fluxos sociais, fluxos de pessoas, de ações, de pensamentos, de corpos, de condutas, fixar no espaço e no tempo.

Podemos chamá-las de instituições de sequestro, pois:

Adquirem tempo total sobre seus internos, sejam operários, loucos, velhos, crianças, presos, que são controlados e observados o tempo todo. O modelo prisão basicamente permite ser encontrado;

Possuem objetivos monofuncionais: o tempo de vida é usado exclusivamente para uma única atividade: produção, terapia, cuidado, formação, etc. A prisão permite treinar ininterruptamente;

Fabricação e preparação do indivíduo para o social, em função de algo externo. O indivíduo não era avaliado por si mesmo ou por pares, mas sempre por algum superior tendo em vista um fim maior, um bem maior: tornar-se um bom soldado, um bom funcionário, uma pessoa saudável. A prisão permite organizar a ordem social.

"Estar sob sequestro é estar preso numa discursividade ininterrupta no tempo, proferida a partir de fora por uma autoridade e necessariamente feita em função daquilo que é normal e daquilo que é anormal”

– Foucault, Sociedade Punitiva

Por que a prisão? Ora, a forma-prisão é muito mais que uma construção arquitetônica, ela é uma forma social! Um plano de imanência. Eis a resposta sobre o fracasso das prisões: ela não dá certo apenas para um olhar pequeno, que presta atenção somente nas grades das celas e nos muros altos. Mas do ponto de vista do poder, poderíamos concluir que ela é um enorme sucesso, pois funciona como forma-social para exercer profundamente a disciplina, a vigilância contínua e a punição eterna.

O que sustenta a prisão como elemento penal é seu valor moral. A coerção faz parte de suas engrenagens. A salvação, a limpeza da alma, a penitência. A prisão possui elementos externos que incidem sobre sua maneira de ser e atuar sobre o corpo. Trata-se de colocar ao dispor para tomar o poder sobre o tempo e o espaço, formar corpos e transformar almas.

Mas em que um sistema social baseado na prisão funcionaria tão bem e seria inquestionável por todos? Como vimos, é na sociedade vigilante e disciplinar que o poder adquire suas características mais sutis.

"A prisão, essa região mais sombria do aparelho de justiça, é o local onde o poder de punir, que não ousa mais se exercer com o rosto descoberto, organiza silenciosamente um campo de objetividade em que o castigo poderá funcionar em plena luz como terapêutica e a sentença se inscrever entre os discursos do saber. Compreende-se que a justiça tenha adotado tão facilmente uma prisão que não fora entretanto filha de seus pensamentos. Ela lhe era agradecida por isso

– Foucault, Vigiar e Punir


Do Blog "Razão Inadequada"